Mike Brown já esteve do outro lado dessa história. Demitido pelo Sacramento Kings ainda no início da temporada 2024/25, o treinador virou mais um nome na extensa lista de técnicos dispensados pela NBA mesmo após trabalhos considerados bem-sucedidos. Pouco mais de um ano depois, porém, ele está prestes a alcançar algo que poucos imaginavam: levar o New York Knicks ao seu primeiro título da liga desde 1973.
O curioso é que essa trajetória pode acabar servindo como combustível para que ainda mais franquias apostem em mudanças radicais no comando técnico.
A NBA nunca foi um ambiente conhecido pela paciência com treinadores. Ainda assim, a temporada passada elevou essa característica a um nível impressionante. Técnicos vencedores, respeitados e com currículos sólidos perderam seus cargos em uma sequência de decisões que gerou discussões por toda a liga.
Mike Brown foi demitido pelos Kings. Taylor Jenkins deixou o Memphis Grizzlies mesmo mantendo a equipe entre as melhores da Conferência Oeste. Michael Malone, campeão com o Denver Nuggets em 2023, foi dispensado faltando apenas três jogos para o fim da temporada regular. Já Tom Thibodeau caiu no New York Knicks depois de levar a franquia à sua primeira final de Conferência Leste em 25 anos.
Para muitos torcedores, parecia loucura. Mas talvez a história de Mike Brown esteja mostrando exatamente o que os dirigentes dessas equipes tinham em mente.
O Knicks mudou pouco, mas melhorou muito
Quando Tom Thibodeau foi demitido, a sensação em Nova York era de surpresa. Afinal, ele havia sido peça fundamental na reconstrução da franquia.
Foi Thibodeau quem ajudou a transformar novamente o Knicks em uma equipe competitiva, respeitada e capaz de disputar os playoffs regularmente. Porém, internamente, existia a percepção de que o projeto talvez tivesse atingido seu teto.
Foi nesse cenário que Mike Brown assumiu.
E o mais interessante é que ele não encontrou uma equipe totalmente diferente. Pelo contrário. A base do elenco permaneceu praticamente intacta. Os principais jogadores seguiram no grupo e a estrutura construída por Thibodeau continuou existindo.
O que mudou foi a forma de utilizar essas peças.
Menos rigidez, mais criatividade
Uma das principais críticas ao trabalho de Thibodeau sempre foi sua rigidez tática.
Ao longo da carreira, ele ficou conhecido por confiar excessivamente nos titulares, exigir cargas enormes de minutos dos principais jogadores e manter conceitos muito específicos independentemente das circunstâncias.
Mike Brown seguiu um caminho diferente. O Knicks passou a movimentar mais a bola, buscar mais arremessos de três pontos e explorar diferentes formações durante as partidas. Além disso, o treinador ampliou significativamente o uso do banco de reservas.
A mudança pode parecer simples, mas gerou efeitos enormes. Com jogadores mais descansados e uma rotação mais profunda, Nova York ganhou novas alternativas para enfrentar diferentes adversários ao longo dos playoffs. E Brown não teve medo de experimentar.
O treinador que puxou as alavancas certas
Os playoffs de 2026 ajudaram a consolidar a reputação de Mike Brown como um dos técnicos mais adaptáveis da NBA.
Em diversos momentos, ele realizou ajustes que mudaram completamente o rumo das séries.
Quando o Knicks encontrou dificuldades contra o Atlanta Hawks na primeira rodada, Brown reorganizou o ataque ao redor da capacidade de passe de Karl-Anthony Towns. Em outra série, uma alteração aparentemente simples envolvendo Landry Shamet teve impacto direto no resultado de uma partida decisiva.
Nas Finais, o treinador também mostrou coragem ao utilizar formações pouco convencionais em momentos críticos. Algumas dessas decisões contribuíram para viradas históricas e consolidaram uma campanha que já entrou para a história da franquia.
Não é exagero dizer que Brown apertou praticamente todos os botões certos.
O sucesso é apenas mérito de Mike Brown?
A resposta rápida seria dizer que sim. Mas a realidade parece um pouco mais complexa.
Tom Thibodeau não era um treinador ruim. Muito pelo contrário. Seu histórico fala por si só. Ele conquistou prêmios de Técnico do Ano, acumulou temporadas vencedoras e foi responsável por devolver relevância ao Knicks.
Sem o trabalho realizado por ele nos anos anteriores, talvez Mike Brown jamais encontrasse uma equipe pronta para disputar um título.
A diferença está no encaixe. Thibodeau foi o treinador ideal para construir a identidade da franquia. Brown parece ser o treinador ideal para elevar essa estrutura ao próximo nível. São funções diferentes dentro do mesmo projeto.
A NBA está entrando em uma nova era?
Existe uma frase bastante popular no esporte americano: “Você não pode demitir os jogadores.”
Com as regras salariais cada vez mais rígidas e limitações maiores para montar elencos, muitas franquias simplesmente não conseguem realizar mudanças profundas no grupo de atletas. Trocar o treinador acaba se tornando a alternativa mais acessível para provocar impacto imediato. E os exemplos de sucesso existem.
Steve Kerr assumiu o Golden State Warriors e conquistou um título logo em seu primeiro ano. Tyronn Lue fez o mesmo em Cleveland. Nick Nurse levou o Toronto Raptors ao topo da liga em sua temporada de estreia. Frank Vogel repetiu a fórmula com o Los Angeles Lakers.
Agora, Mike Brown está prestes a entrar nessa lista.
A grande lição para o resto da liga
O caso de Mike Brown no Knicks provavelmente será estudado por dirigentes de toda a NBA nos próximos anos.
A mensagem parece clara: um treinador pode fazer um excelente trabalho e, ainda assim, não ser a pessoa certa para conduzir a equipe na próxima etapa do projeto.
Isso não diminui o legado de Tom Thibodeau em Nova York. Pelo contrário. O técnico foi fundamental para reconstruir uma cultura vencedora dentro da organização. Mas Mike Brown mostrou que, às vezes, uma nova voz no vestiário, novas ideias e uma abordagem diferente podem ser exatamente o que falta para transformar um candidato ao título em um campeão.
Se o Knicks confirmar a conquista, muita gente pela liga vai olhar para essa troca de comando e pensar: “Talvez seja hora de fazer o mesmo por aqui”. E, considerando como a NBA costuma copiar tudo o que dá certo, é bem possível que Mike Brown tenha acabado de influenciar a próxima grande tendência da liga.
Foto: Getty Images



