O Milan vive um momento de encruzilhada estratégica. Depois de anos em que se apontava a ausência de uma figura forte no comando esportivo, a chegada de Igli Tare representou uma tentativa clara de reorganização estrutural. O dirigente albanês, conhecido pelo trabalho sólido na Lazio, trouxe consigo uma visão mais assertiva de mercado e uma postura menos conciliadora diante de decisões impopulares.
Sua atuação inicial foi marcada por foco no equilíbrio financeiro e na valorização do patrimônio do clube. Em um cenário sem as receitas da Liga dos Campeões, o Milan precisou agir com pragmatismo. As vendas de Malick Thiaw ao Newcastle por cerca de 40 milhões de euros e de Theo Hernández ao Al Hilal por aproximadamente 20 milhões, a um ano do fim de contrato, simbolizam essa estratégia de gerar caixa sem comprometer totalmente a competitividade.
No entanto, o mercado de entradas abriu fissuras internas. As negociações longas e custosas, como a de Ardon Jashari junto ao Bruges por valores próximos a 40 milhões com bônus, além dos investimentos em Nkunku e Estupiñán, não foram unanimidade. Parte da direção, especialmente ligada ao CEO Giorgio Furlani, demonstrou desconforto com cifras consideradas elevadas diante do contexto econômico.
Continuidade administrativa e dúvidas esportivas
Apesar dos rumores de mudanças profundas, o clube sinaliza continuidade no comando executivo. Após a operação de refinanciamento conduzida com o fundo Elliott, houve confirmação de estabilidade na governança. Giorgio Furlani, com contrato renovado até 2028, permanece como administrador delegado, reforçando a ideia de manutenção da linha estratégica adotada nos últimos anos.
A chegada de Massimo Calvelli, ex-CEO da ATP, amplia o peso administrativo, mas não configura uma estrutura com dois administradores delegados. A tendência é de divisão clara de competências, com Calvelli funcionando como elo entre propriedade e gestão esportiva. O modelo busca evitar conflitos formais, ainda que as tensões internas não possam ser ignoradas.
Já o futuro de Igli Tare será avaliado ao término da temporada. O episódio envolvendo Jean-Philippe Mateta, negociação conduzida diretamente por Furlani e que acabou não se concretizando, evidenciou desalinhamentos na última janela de inverno. Ainda assim, Tare conta com dois trunfos: resultados esportivos consistentes e ótima relação com o técnico.
Allegri pede mais voz no projeto
Massimiliano Allegri, por sua vez, observa atentamente os movimentos. Comprometido com o grupo e com o projeto de recolocar o Milan no topo europeu, o treinador livornês também demonstrou desconforto com decisões de mercado nas quais suas indicações não teriam sido plenamente consideradas.
As divergências não se limitam a nomes específicos. Há um debate mais amplo sobre equilíbrio de poder entre a ala administrativa, representada por Furlani, e a esfera técnica, oficialmente liderada por Tare. Allegri deseja maior sintonia na definição dos perfis que devem permanecer e daqueles que podem ser sacrificados para financiar reforços.
O objetivo imediato é garantir vaga na próxima Liga dos Campeões, mas o técnico já sinalizou que pretende discutir, ao fim da temporada, os planos futuros. Quer participação mais ativa nas escolhas estratégicas e uma visão compartilhada sobre o modelo de equipe a ser consolidado.
Uma possível nova revolução no Milan
A grande questão é se o Milan passará por mais uma revolução ou optará por ajustes pontuais. A estabilidade administrativa parece assegurada, mas o eixo técnico pode sofrer redefinições. Caso Tare permaneça, será necessário reconstruir pontes internas e alinhar expectativas. Se sair, o clube reiniciará o ciclo de busca por um diretor esportivo de peso.
Allegri, peça central no projeto esportivo, dificilmente aceitará seguir sem garantias claras de influência nas decisões. Seu histórico vencedor exige coerência estrutural. Já Furlani representa a linha de controle financeiro e governança moderna, aspecto valorizado pelos investidores.
O Milan entra na próxima temporada diante de um dilema clássico: priorizar estabilidade institucional ou promover nova mudança estrutural para acelerar resultados. Entre Tare, Allegri e Furlani, o futuro rossonero será definido não apenas pelo que acontecer em campo, mas pela capacidade de harmonizar visões no topo da pirâmide.