A derrota do Arsenal para o PSG na final da Champions League não deve apagar a extraordinária temporada construída por Mikel Arteta. Afinal, os Gunners chegaram ao jogo mais importante do futebol europeu depois de conquistar a Premier League e de consolidar um projeto que, durante anos, foi tratado como uma promessa e finalmente se transformou em realidade.
No entanto, as grandes decisões têm a capacidade de expor detalhes que passam despercebidos durante uma campanha longa. E o que ficou evidente em Budapeste foi que o Arsenal chegou ao limite daquilo que seu modelo de jogo consegue oferecer atualmente.
O time de Arteta é excelente em muitas coisas. Talvez seja um dos conjuntos mais organizados da Europa. Mas a final contra o PSG mostrou que organização e controle nem sempre são suficientes quando o adversário encontra maneiras de desafiar as estruturas sobre as quais todo o projeto foi construído.
Arsenal consegue controlar jogos, mas às vezes precisa criar o caos
Desde que assumiu o clube, Arteta trabalhou para criar uma equipe capaz de controlar partidas. A inspiração em Pep Guardiola sempre esteve presente, mas o técnico espanhol desenvolveu uma interpretação própria dessa escola de pensamento. Enquanto o Manchester City costuma controlar os jogos através da circulação constante da bola, o Arsenal encontrou outras maneiras de exercer domínio.
Os londrinos comandados por Arteta se transformaram em uma equipe fisicamente dominante, capaz de vencer disputas individuais em praticamente qualquer setor do campo, extremamente eficiente na pressão sem bola e muito confortável defendendo vantagens. Em muitos momentos da temporada, parecia que bastava o Arsenal marcar primeiro para que o resultado estivesse praticamente definido.
A equipe sabia fechar espaços, reduzir o ritmo dos adversários e transformar partidas abertas em confrontos sufocantes. Não era apenas uma questão de qualidade técnica. Era uma demonstração de força coletiva.
Essa característica ficou ainda mais evidente graças ao desenvolvimento de uma das maiores armas do Arsenal: as bolas paradas. Poucas equipes no futebol mundial exploraram tão bem esse recurso nos últimos anos quanto os Gunners. Escanteios e faltas laterais deixaram de ser apenas oportunidades ocasionais e passaram a fazer parte da identidade da equipe.
Existia um trabalho quase científico por trás dessas jogadas, com movimentações coordenadas, bloqueios, ocupação de espaços e inúmeras variações que confundiam os sistemas defensivos adversários. Em uma era na qual cada detalhe pode decidir campeonatos, o Arsenal transformou a bola parada em uma vantagem competitiva real. E foi justamente essa combinação entre força física, organização coletiva e eficiência em situações específicas que levou o clube ao título inglês e à decisão da Champions League.
Por isso, o início da final parecia uma confirmação de tudo o que Arteta havia construído. O Arsenal pressionou a saída de bola do PSG, encontrou espaços para atacar e abriu o placar rapidamente com Kai Havertz. Durante boa parte do primeiro tempo, a equipe inglesa parecia ter total controle da situação.
O PSG encontrava dificuldades para acelerar o jogo e era obrigado a circular a bola sem conseguir criar situações claras de perigo. Naquele momento, a final parecia caminhar exatamente para o cenário idealizado por Arteta: um Arsenal em vantagem, confortável sem a posse e preparado para explorar os espaços deixados pelo adversário. Era a execução perfeita do plano. Era a demonstração de que o modelo funcionava também no maior palco do futebol europeu.
O problema começou quando o PSG conseguiu alterar a dinâmica da partida. Aos poucos, os franceses passaram a encontrar soluções para escapar da pressão inicial e começaram a ocupar o campo ofensivo com mais frequência. Vitinha e João Neves assumiram o controle do meio-campo e Arteta foi gradualmente empurrado para trás.
Em teoria, isso não deveria ser um grande problema para uma equipe tão confortável defendendo vantagens. Afinal, esse era justamente um dos pilares do projeto de Arteta. Mas foi nesse momento que surgiu uma questão importante: o Arsenal sabe controlar jogos quando está por cima, mas ainda demonstra dificuldades para retomá-los quando perde o controle. A equipe conseguiu se defender. Conseguiu manter a organização. Conseguiu competir fisicamente. O que não conseguiu foi voltar a jogar.
A partir do momento em que o PSG passou a controlar a posse, o Arsenal de Arteta encontrou enormes dificuldades para recuperar protagonismo com a bola nos pés. Os londrinos até conseguiam recuperar a posse em determinados momentos, mas raramente transformavam essas recuperações em sequências longas de passes ou em ataques capazes de aliviar a pressão francesa. Faltou criatividade para escapar do sufocamento. Faltou capacidade de desacelerar o jogo através da posse.
Faltou um repertório que permitisse ao time responder de outra maneira além da resistência física e da organização defensiva. E essa não foi uma limitação circunstancial da final. Foi uma consequência direta do modelo desenvolvido ao longo dos últimos anos.
A defesa consegue te levar até um certo ponto, e Arteta precisa entender isso
Existe uma diferença importante entre controlar um jogo e dominar um jogo. O Arsenal é excelente na primeira tarefa. Poucos times no mundo conseguem proteger vantagens tão bem quanto os comandados por Arteta. Mas a final mostrou que ainda existe um degrau acima. O PSG não venceu apenas porque tinha grandes jogadores. Venceu porque, em determinado momento, assumiu completamente o comando emocional e tático da partida.
Os franceses passaram a definir onde o jogo aconteceria, em que ritmo ele seria disputado e quais riscos cada equipe teria de assumir. O Arsenal continuou organizado, mas deixou de ser protagonista. E quando uma equipe perde a capacidade de influenciar os rumos da partida, ela inevitavelmente passa a depender dos acontecimentos em vez de controlá-los.
O mais curioso é que a derrota aconteceu justamente por causa das mesmas características que transformaram o Arsenal em uma potência. O time chegou à final graças à sua força física, à sua disciplina tática e à sua capacidade de controlar espaços. Mas essas qualidades, que foram suficientes para conquistar a Premier League e eliminar adversários importantes na Champions, mostraram limitações diante de um PSG que exigia algo diferente.
Em determinado momento, o jogo deixou de ser uma batalha por espaço e passou a ser uma batalha por criatividade, improvisação e controle da posse em situações adversas. E foi nesse terreno que os londrinos se mostraram menos preparados.
Isso não significa que Arteta precise abandonar suas ideias ou reconstruir o projeto. Seria uma conclusão equivocada. O Arsenal está muito próximo do topo justamente porque seguiu esse caminho. O que a final mostrou é que o próximo passo da evolução passa por ampliar o repertório da equipe. Os Gunners já sabem defender. Já sabem pressionar. Já sabem controlar vantagens. Agora precisam aprender a recuperar o controle quando o jogo escapa de suas mãos. Precisam encontrar maneiras de voltar a comandar uma partida sem depender exclusivamente da intensidade física ou das bolas paradas.
A final da Champions deixou uma mensagem clara. O Arsenal construiu um modelo vencedor. Um modelo que o levou de volta à elite do futebol europeu e que produziu uma das melhores temporadas da história recente do clube. Mas Budapeste também mostrou que esse modelo ainda não é completo. Ele funciona muito bem até determinado ponto. Funciona enquanto o Arsenal consegue impor suas condições ao jogo. Funciona enquanto o adversário aceita disputar a partida dentro dos parâmetros estabelecidos por Arteta.
Quando isso deixa de acontecer, surgem perguntas que a equipe ainda não sabe responder. E talvez essa seja a principal lição da derrota para o PSG: o Arsenal está pronto para competir com qualquer gigante da Europa. O próximo desafio é aprender a vencer quando o jogo exige algo além daquilo que já sabe fazer.
(Foto: Getty Images)