Luka Modric desafia o tempo. Aos 40 anos, o croata segue dando aula de futebol, desmontando a ideia de que um jogador nessa idade está perto do fim. No recente 4 a 0 da Croácia sobre Montenegro, ele foi novamente um dos destaques, ditando o ritmo do jogo como se estivesse no auge. Não à toa, o técnico Zlatko Dalic resumiu o sentimento geral após a partida com uma frase que virou manchete: “Modric, quanto mais envelhece, mais melhora”.
A declaração reflete não apenas a atuação contra Montenegro, mas todo o momento atual do craque de Zadar. Mesmo após encerrar sua longa e gloriosa passagem pelo Real Madrid, Modric manteve-se como peça-chave da seleção croata e decidiu aceitar um novo desafio em sua carreira: comandar o meio-campo do Milan. O objetivo pessoal é claro – disputar o seu último Mundial, em 2026 – mas até lá ele quer seguir competitivo no mais alto nível, acumulando partidas de impacto tanto pela equipe italiana quanto pelo seu país.
Essa transição poderia ter sido complicada, mas o croata precisou de pouco tempo para conquistar o Milan. Mesmo chegando depois da maior parte do elenco, por conta dos compromissos no Mundial de Clubes, Modric assumiu rapidamente o posto de referência do meio-campo. Massimiliano Allegri, técnico do Milan, não teve dúvidas sobre quem seria o cérebro da equipe. “Modric, Jashari e Ricci são três formas diferentes de interpretar o papel de regista”, explicou o treinador. “Mas em condições normais, Modric joga sempre”.
O cérebro do meio-campo rossonero
Nas duas primeiras rodadas da Serie A, Allegri fez questão de usar Modric em uma posição um pouco mais recuada do que ele atuava no Real Madrid nos últimos anos. Essa mudança permitiu ao croata exercer sua melhor versão como regista: distribuindo passes longos, verticalizando o jogo e dando ritmo às ações ofensivas. Não é apenas a qualidade técnica que impressiona, mas também o carisma e a liderança de um vencedor da Bola de Ouro.
Com esse perfil, Modric tornou-se praticamente insubstituível. Lesões e eventuais quedas de rendimento podem mexer na escalação, mas quando está em forma, ele é dono absoluto da faixa central. Ao seu lado, Allegri ainda busca definir a melhor combinação para completar o setor. Entre Rabiot, Loftus-Cheek e Fofana, há disputa intensa por duas vagas, já que o treinador prefere não ter dois jogadores de posse ao mesmo tempo. Isso empurra Jashari e Ricci para papéis mais periféricos, ainda que ambos sejam opções interessantes para rodar o elenco.
Essa escolha mostra o quanto Allegri confia no veterano croata para ditar o ritmo e dar equilíbrio ao time. Modric não é apenas um jogador de qualidade, é um ponto de referência para um elenco que, nas últimas temporadas, foi acusado de carecer de liderança e de um guia dentro de campo.
Liderança que faz diferença
Aos 40 anos, Modric carrega uma experiência que nenhum outro jogador do Milan possui. São títulos de Champions League, finais de Copa do Mundo e mais de uma década atuando no mais alto nível pelo Real Madrid. Essa bagagem pesa na hora de tomar decisões em campo e inspira os companheiros. Contra rivais de peso, Allegri sabe que pode contar com alguém que não se intimida, mesmo que sua condição física já não seja a mesma de antes.
Curiosamente, essa centralidade que hoje ele tem no Milan contrasta com o fim de sua passagem pelo Madrid. Nos últimos tempos no Bernabéu, Modric foi muitas vezes sacrificado para abrir espaço a jovens como Bellingham, Tchouaméni e Camavinga. Nem sempre isso se refletiu em bom rendimento da equipe, mas era um sinal dos novos tempos. No Milan, por outro lado, o croata encontrou um grupo que precisava de um líder e de uma referência confiável para equilibrar um meio-campo talentoso, mas ainda carente de hierarquia.
Essa diferença de contexto explica o brilho renovado do camisa 10. Não se trata de fingir que os 40 anos são os novos 20 – como brincam alguns torcedores –, mas sim de reconhecer que certos jogadores têm qualidade e inteligência para se adaptar e continuar relevantes em qualquer cenário. Modric é um desses casos raros.
Um futuro escrito pelo próprio Modric
A temporada ainda é longa e o Milan terá muitos jogos de alto nível, tanto na Serie A quanto nas competições europeias. É possível que Allegri precise dosar minutos, preservar seu maestro em alguns momentos e usar a profundidade do elenco para manter o time competitivo. Mas nada indica que Modric vá perder sua importância. Pelo contrário: se mantiver o padrão das primeiras partidas, deve ser peça central nos planos do treinador até o fim da temporada.
Na Croácia, a história é parecida. O meio-campo que levou o país a uma final e a uma semifinal de Copa segue com Modric como referência, mesmo com o surgimento de novos nomes. Dalic já disse publicamente que conta com ele até 2026 e não parece disposto a abrir mão de sua principal liderança técnica.
Aos 40 anos, Luka Modric é prova viva de que o talento somado à disciplina pode desafiar o tempo. Milan e Croácia, cada um a seu modo, dependem de sua visão de jogo, dos passes milimétricos e da serenidade que ele leva para o gramado. Mesmo que os 40 anos não sejam realmente os novos 20, para o craque croata parecem, no mínimo, os novos 30.