A troca de Myles Garrett para o Los Angeles Rams no início de junho de 2026 ainda é assunto entre os fãs do Cleveland Browns e da NFL. Afinal, não se trata de qualquer jogador. Garrett é o atual Defensive Player of the Year da NFL, o jogador que quebrou o recorde de sacks em uma única temporada e que, por anos, foi literalmente o único motivo para muitos torcedores em Cleveland terem algo a comemorar. Perder um atleta assim dói. E quase ninguém em Ohio está fingindo que não.
Mas pelo menos uma voz respeitada dentro da franquia acredita que a organização tomou o caminho certo. Joe Thomas, lenda do Browns e membro do Pro Football Hall of Fame, concedeu uma entrevista ao SiriusXM NFL Radio no dia 21 de junho e colocou seu peso atrás da decisão da diretoria. Para alguém que passou 11 anos com a camisa de Cleveland sem jamais disputar um Super Bowl, as palavras de Thomas carregam um peso particular, tanto emocional quanto estratégico.
A dor de perder um ícone
Thomas não fez questão de esconder o impacto humano da troca. Antes de qualquer análise fria de draft picks e contratos, o ex-tackle reconheceu o que Garrett significou para a cidade de Cleveland durante anos difíceis.
“Por várias temporadas que Myles esteve aqui em Cleveland, ele era tipo a única coisa que tínhamos para torcer”, disse Thomas. “No ano passado, mesmo fora da disputa pelos playoffs por muito tempo, ele nos deu um motivo de orgulho como torcedores dos Browns, vendo-o perseguir o recorde de sacks e finalmente alcançá-lo. Ver o comprometimento que ele teve em campo com o time e com a cidade foi incrível.”
É uma declaração que toca direto na ferida de uma base de torcedores acostumada à frustração. Cleveland é uma cidade de futebol americano que passou décadas colecionando decepções. Em muitas temporadas recentes, a única narrativa emocionante que os Browns tinham a oferecer era acompanhar Garrett desmontando linhas ofensivas adversárias semana após semana. Ele era o produto, o espetáculo, o coração pulsante de uma franquia em reconstrução.
“Foi realmente difícil ouvir que ele havia sido trocado”, completou Thomas. “Machuca a todos que Myles não é mais um Brown.”
Argumentos favoráveis a troca
Mas é justamente aí que a análise de Thomas ganha profundidade. Depois de validar a dor dos torcedores, o Hall da Fama da NFL fez questão de separar o sentimento da estratégia, algo que poucos conseguem fazer com tanta clareza quando se trata de um ídolo local.
“Não estou disposto a aceitar o fato de que só podemos pensar que nosso teto como torcedores dos Browns é torcer por um jogador que está tendo uma boa temporada ou quebrando um recorde”, afirmou Thomas. “Não quero perder de vista o fato de que ainda estamos aqui para tentar vencer campeonatos.”
Essa frase diz muito sobre a mentalidade que Thomas carrega da sua própria carreira. Em onze temporadas com Cleveland, ele viveu apenas um ano acima de 50% de aproveitamento, justamente sua temporada de estreia em 2007. É o tipo de frustração que forja uma perspectiva diferente sobre o que realmente importa em uma franquia de futebol americano.
E é dentro dessa perspectiva que ele enxerga o retorno da troca. Os Browns receberam em troca Jared Verse, um pass rusher jovem e com contrato amigável para os cofres da equipe, além de três escolhas no NFL Draft, sendo uma de primeira rodada, uma de segunda e uma de terceira. Para uma equipe em fase de reconstrução, isso representa muito mais do que capital simbólico.
“Ao analisarmos o que foi conquistado com a saída de Myles, percebemos que garantir um talento jovem como Jared Verse, um pass rusher de alto calibre e um ativo valioso, traz um fôlego financeiro imenso devido ao seu contrato amigável”, explicou Thomas. “Somado a isso, o recebimento de três escolhas de draft, abrangendo as três primeiras rodadas, oferece uma base muito mais sólida para o planejamento dos próximos anos, consolidando nossa estratégia de reconstrução a longo prazo.”
Um ativo valioso usado na hora certa
Do ponto de vista puramente gerencial, a lógica é difícil de refutar. Myles Garrett tem 30 anos, é ainda um jogador de elite em plena validade, mas janelas de negociação como essa não permanecem abertas indefinidamente. Quanto mais o tempo passa, menor tende a ser o retorno que um jogador nessa posição pode gerar em uma troca.
Os Browns aparentemente decidiram que o momento era agora: pegar o valor máximo de um “ativo valioso”, como Thomas o chamou, e usá-lo como base para um projeto mais sustentável. É a lógica que franquias como o New England Patriots aplicaram repetidamente ao longo dos anos, nunca se apegar demais a um único jogador quando o ciclo de um contrato ou de uma janela competitiva está se encerrando.
Claro, a analogia não é perfeita. Garrett é um jogador de uma geração, e Jared Verse, por mais promissor que seja, ainda tem muito a provar no nível mais alto da NFL. As escolhas de Draft podem render grandes talentos ou se perder nas incertezas do processo seletivo. Não existe garantia alguma de que os Browns vão transformar esse capital em sucesso.
Mas o ponto de Thomas é mais simples do que isso: a troca faz sentido estratégico, e o saldo emocional não deveria ser o critério principal para avaliar decisões de gestão esportiva.
O legado de Garrett em Cleveland segue intocado
Independentemente do que aconteça a partir de agora, uma coisa é certa: Myles Garrett deixou uma marca permanente em Cleveland. O recorde de sacks em uma única temporada regular, as atuações dominantes mesmo em times medíocres, a lealdade que demonstrou à franquia durante anos, nada disso desaparece por conta de uma troca.
E talvez seja justamente isso que Joe Thomas queira que os torcedores dos Browns guardem: gratidão pelo que foi, sem deixar que essa gratidão impeça a franquia de perseguir o que ainda pode ser.
“Quando você se afasta da emoção de perder Myles, percebe que isso coloca o time em uma situação muito melhor daqui para frente. E foi a decisão certa, mesmo que doa”, concluiu Thomas.
Para uma franquia com a história de Cleveland, palavras duras de ouvir. Mas vindas de alguém que viveu a frustração por mais de uma década, talvez sejam exatamente as palavras necessárias.



