A série da Nigéria mais uma vez ganha uma temporada complicada para os torcedores da seleção tricampeã africana, principalmente depois de terem ficado de fora da Copa do Mundo de novo. Não dá para dizer que a trajetória conta com consistência e qualidade neste meio tempo de preparação, contando com a cereja do bolo, que foi a derrota para a República Democrática do Congo nas penalidades máximas.
Mesmo com Victor Osimhen, Lookman e outros conhecidos nomes do futebol europeu, os Super Eagles não conseguiram encontrar o caminho das pedras, muito menos o da melhora dentro das quatro linhas. O principal ponto a se reparar, é que talento individual não move montanhas, o trabalho em equipe acabará sempre sendo o diferencial.
Do vinho para a água
O sonho da Nigéria de chegar a Copa do Mundo de 2026 até teve um início interessante no confronto diante de Congo. Frank Onyeka abriu o placar cedo e parecia que a os Super Eagles teriam uma noite relativamente tranquila. Entretanto, Meschack Elia empatou ainda na primeira etapa e, logo depois do intervalo, tudo desandou quando Osimhen saiu lesionado. Sem sua estrela em campo, a Nigéria perdeu agressividade, perdeu criatividade… perdeu tudo, simplesmente um banho de água fria.
O desfecho veio nos pênaltis, onde Calvin Bassey isolou sua cobrança e Moses Simon ao lado de Semi Ajayi pararam no goleiro congolês. Para completar a noite, o técnico Eric Chelle ainda acusou um membro da comissão de Congo de “vodú” durante a disputa, uma declaração tão improvável quanto o rendimento da equipe nos minutos finais, sem contar que é algo bem sério.
Os bastidores que atrapalharam tudo
Se dentro de campo a situação já era complicada, fora dele não estava muito melhor. Na reta final da preparação, jogadores e comissão técnica simplesmente boicotaram um treino em protesto por bônus atrasados. Parece que o foco principal não era a Copa do Mundo em si, existiam outras prioridades dos atletas, que com certeza impactaram nesta situação.
O momento até foi contornada no dia seguinte, com William Troost-Ekong garantindo que todos estavam “unidos e focados”. No campo, a resposta veio com a vitória por 4 a 1 sobre o Gabão nas semifinais, deixando Aubameyang para trás. Só que já era tarde demais para mascarar os problemas de fundo: falhas administrativas recorrentes, reclamações acumuladas e um ambiente longe do ideal.
As mudanças no comando e a dependência de Osimhen
Nenhuma seleção consegue construir um ciclo sólido trocando de treinador como quem troca de atletas. A Nigéria começou a caminhada com José Peseiro, que levou o time à final da Copa Africana de 2023, mas deixou o cargo quando seu contrato acabou. Depois vieram duas partidas com Finidi George, que não teve uma passagem tão vistosa e interessante, contando mais com turbulências. Augustine Eguavoen assumiu de maneira interina durante a pausa nas Eliminatórias, garantindo a vaga para a Afcon, até que Eric Chelle foi contratado para comandar o sprint final rumo à Copa.
O problema? Cada técnico deixou um pedaço de sua ideia no time, e ninguém teve tempo para juntar tudo. Parece que a Nigéria resolveu seguir as ideias do Brasileirão, rodando treinadores na esperança de alguém conquistar três vitórias consecutivas nos três primeiros confrontos.
O resultado foi uma seleção que mudava de estilo a cada janela, sem identidade definida. E quando a parte tática não ajuda, resta depender de talento puro. No caso da Nigéria, isso significou depender quase inteiramente de Victor Osimhen. Quando o atacante esteve fora, o rendimento despencou: foram apenas quatro pontos em quinze possíveis sem ele. Um número que explica muita coisa.
Como a Nigéria chegou a esse ponto
A campanha das Eliminatórias nunca engrenou. Empates frustrantes contra Lesoto e Zimbábue no início já acenderam o alerta, e isso ainda com Peseiro no comando. Com Finidi, vieram um empate com a África do Sul e uma derrota para o Benin que colocou tudo a perder. A pausa para a Afcon deu um respiro, e com Chelle a equipe até mostrou evolução, mas sem consistência suficiente para recuperar tudo o que deixaram para trás.
A vaga nos playoffs só caiu nas mãos dos nigerianos com muito drama: o gol salvador de Onyeka aos 91 minutos contra o Benin. Mas qualquer expectativa de que a equipe engrenaria parou ali.
Nas redes sociais, torcedores transformaram o dia da eliminação quase num tribunal virtual, algo que é considerado um dia normal no X. As críticas foram desde a falta de estrutura até a dependência de jogadores formados fora do país. Para muitos, a eliminação simboliza um problema maior: a falta de investimento real no futebol local, o que é uma pauta interessantíssima.
A rivalidade africana também entrou em campo, especialmente com Gana, que não perdeu a chance de lembrar que, além de ter classificado, já havia eliminado a Nigéria no último ciclo também.
O que vem agora para os Super Eagles
Com menos de 40 dias até a estreia na Copa Africana de 2025, a Nigéria precisa juntar os cacos rapidamente. Eric Chelle, claro, terá sua permanência avaliada, já que a classificação para a Copa era o principal objetivo do seu contrato. Mesmo com a eliminação, não dá para deixar de lado que uma melhora foi vista, basta saber se o suficiente para mantê-lo no posto, ou dar espaço para mais um treinador dar início ao seu trabalho.
Mas, independentemente de quem comande, a Nigéria vai precisar de algo que não teve neste ciclo: planejamento. O talento individual sobra, isso nunca foi o problema. O desafio agora, acaba sendo o mesmo de sempre, transformar as individualidades, num contexto coletivo, porque simplesmente o futebol contempla a presença de 11 profissionais em campo, não apenas uma peça.
Foto: REUTERS