Nestes primeiros meses à frente da Inter de Milão, praticamente como um estreante absoluto no mais alto nível, Cristian Chivu tem surpreendido pela consistência do trabalho. A vitória em Lecce foi o típico resultado que desanima quem persegue na tabela à espera de um tropeço. A semana havia sido turbulenta: o caso Bastoni, a derrota na Champions League, a lesão de Lautaro Martínez e um dérbi no horizonte.
Fora das quatro linhas, as críticas vieram de todos os lados. O rodízio adotado na Noruega foi interpretado por parte da imprensa como sinal de que Chivu teria priorizado o campeonato em detrimento da competição europeia. Há explicação era plausível: a equipe cruzava fusos e compromissos, com rápida parada em Milão — o que poderia prejudicar o descanso dos jogadores.
O jogo no Via del Mare tinha todos os elementos de armadilha: desgaste físico, abalo emocional e a tradicional dificuldade de atuar na liga logo após partidas de Champions. Chivu tratou cada uma dessas ameaças à sua maneira — um pouco como treinador, outro tanto como gestor de pessoas.
Desde o início da temporada, ele tem sido uma liderança firme, mas empática. Alguém que viveu o vestiário, entende o peso das decisões e sabe antecipar as consequências. Essa bagagem pesa tanto quanto o trabalho tático.
Chivu é único!
Os números ajudam a explicar o impacto, mas não contam tudo. Após 26 rodadas de seu primeiro campeonato à frente dos nerazzurri, Chivu somou 64 pontos — marca inédita na história do clube nesse recorte específico. Superou José Mourinho (60), Árpád Weisz (59), Giovanni Invernizzi (63), Nils Liedholm (63) e Maurizio Sarri (63).
Na história da Lega Serie A, considerando a regra atual de três pontos por vitória, apenas Carlo Carcano teve desempenho superior após 26 jornadas em um ano de estreia. Mas, o diferencial não está apenas na estatística, e sim na forma.
Chivu distribui confiança com equilíbrio, aposta em jovens sem receio e mantém o grupo conectado. A Inter é um ambiente que não veste bem qualquer treinador — e ele a conduz com naturalidade. Talvez porque compreenda o tamanho do clube sem se deixar engolir por ele.
Há também uma dimensão humana evidente. Em um elenco jovem e competitivo, onde egos e expectativas podem desalinhar prioridades, o técnico romeno funciona como eixo. Quando necessário, reorganiza. Quando possível, potencializa.
O decifrador de contextos
É bem verdade que o título não está conquistado. Restam 12 rodadas, novos obstáculos virão, e os números de hoje não garantem o amanhã.
O que chama atenção é a capacidade de adaptação. No início, a equipe parecia excessivamente vertical, obcecada por bloco alto e pressão constante na intermediária ofensiva. O risco de desequilíbrio era real.
Com o passar das semanas, a equipe ampliou repertório. Aprendeu a alternar ritmos, a controlar jogos sem perder agressividade e a escolher melhor os momentos de acelerar. Ainda há problemas a resolver. Mas a sensação é de progresso — não apenas técnico, mas mental. E isso, muitas vezes, é o traço mais difícil de construir.
Até aqui, Cristian Chivu tem mostrado que seu método vai além do campo. Ele molda comportamento, leitura de jogo e capacidade de reação. Os números são consequência. O processo, esse sim, é o verdadeiro diferencial.
Quando a Inter volta a campo?
A Inter de Milão entrará em ação, pelo Campeonato Italiano, no sábado (28), para enfrentar o Genoa em Giuseppe Meazza, às 16h45 (horário de Brasília). Depois de uma série de viagens, o time terá seu primeiro jogo em casa no final de semana que vem.
Antes do duelo contra os grifoni, o time de Christian Chivu tem um compromisso pela UEFA Champions League, pelo play-off das oitavas de final da competição. Em casa, os nerazzurri encaram o Bodo/Glimt e tem a missão de reverter o placar do jogo de ida, 3 a 1. A partida será na terça-feira (24), às 17h (de Brasília).
Créditos da foto de capa: Divulgação/Getty Images