A Itália está prestes a entrar em mais um playoff decisivo rumo à Copa de 2026, e a sensação que toma conta do país não é medo de Suécia, Macedônia do Norte, Romênia ou Irlanda do Norte. O verdadeiro inimigo parece ser outro: a própria Itália. O torcedor italiano já nem sabe mais o que esperar quando chega uma partida “daquelas”, e infelizmente os números recentes deixam claro por quê.
Desde 2021, a Azzurra não vence um jogo do tipo “ou ganha, ou cai fora”. A última vez foi na semifinal da Euro 2021, aquela vitória sofrida contra a Espanha nos pênaltis. De lá para cá, todas as partidas decisivas nas quais a Itália entrou com a obrigação de ganhar terminaram em frustração, medo, ou até pesadelos que ainda hoje assombram o país. E isso independe do treinador, do elenco ou até da geração que está em campo.
Com o sorteio do playoff batendo na porta, a Itália se vê novamente diante de um fantasma que parece ter se tornado rotina. Para evitar um terceiro fracasso consecutivo em classificatórias de Copa do Mundo – algo que seria devastador em todos os sentidos –, será preciso superar um bloqueio que vem de dentro. Não basta bater o adversário. Antes de tudo, é preciso ganhar de si mesma.
Quatro anos de tropeços e a herança psicológica que não passa para a Itália
Desde o título europeu de 2021, a Itália perdeu aquele espírito confiante e quase arrogante que sempre carregou nas grandes decisões. A autoestima virou dúvida. O otimismo virou receio. Parecia que o trauma da eliminação para a Suécia em 2017 já tinha cicatrizado, mas aí veio a Macedônia do Norte em 2022 e abriu a ferida de novo, só que ainda mais fundo.
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E quando olhamos para trás, o padrão é claro: sempre que a Itália chega a um jogo decisivo, algo dá errado. Não é falta de talento, não é falta de estrutura, não é falta de torcida. É um problema de confiança. Como se a seleção entrasse no campo sabendo que algo ruim vai acontecer, e inevitavelmente acontece.
A semifinal da Euro 2021 ficou marcada como a última grande noite da Azzurra. E mesmo assim foi um drama. Desde então, nada mais deu certo quando o nível de pressão subiu. E isso agora pesa mais do que qualquer adversário.
Os empates malditos e o início da queda
O verdadeiro declínio começou no fim de 2021. Tudo parecia encaminhado para uma classificação tranquila à Copa de 2022, mas aí vieram aqueles dois empates que mudaram o destino da seleção. Primeiro, o 1 a 1 contra a Suíça em Roma, com direito a pênalti desperdiçado por Jorginho — repetindo o erro que já tinha acontecido no primeiro turno. Alguns dias depois, mais um 0 a 0 frustrante contra a Irlanda do Norte.
Foi ali que tudo começou a desmoronar. A Itália, atual campeã da Europa, ficou em segundo num grupo fácil e caiu para o playoff. O resto da história o torcedor italiano conhece de cor: um bombardeio ineficaz em Palermo e o gol da Macedônia do Norte no último minuto. Aquele chute mudou o rumo da seleção e estabeleceu um novo ciclo de insegurança.
Foi o ponto mais baixo da era Mancini, que até então parecia blindada por causa do título europeu histórico. Depois disso, o ciclo só acumulou tropeços.
De Mancini a Spalletti e Gattuso, uma seleção sem rumo
A transição para Spalletti não resolveu o problema. A estreia com empate contra a Macedônia do Norte já era um aviso de que nada seria simples. Depois, veio mais um empate dramático: o 0 a 0 contra a Ucrânia, com direito a lance polêmico no fim que poderia ter mudado tudo. A classificação para a Euro 2024 veio, mas com sofrimento.
No torneio, a Itália entrou apática, pesada, desorganizada. Só escapou da eliminação na fase de grupos porque Zaccagni mandou um chute mágico no último lance contra a Croácia. Mas aquele gol milagroso só adiou o inevitável: a Suíça atropelou a Azzurra nas oitavas e expôs todas as deficiências que já vinham se acumulando.
Mesmo após o fim da Euro, a oscilação continuou. A vitória impressionante por 3 a 1 sobre a França em Saint-Denis parecia o início de um renascimento, mas era só uma ilusão. Dois meses depois, no mesmo San Siro que virou palco de tantos traumas, veio outro 3 a 1 — desta vez sofrido — que derrubou qualquer esperança de estabilidade.
O efeito dominó até o presente e o peso do playoff
A derrota para a França trouxe consequências sérias: a Itália caiu no chaveamento da Nations League e acabou tendo que enfrentar a Alemanha no mata-mata. Contra os alemães, tudo deu errado. Derrota em casa no jogo de ida, desastre completo no jogo de volta com um 0 a 3 só no primeiro tempo. Era o ponto final nas ilusões.
Essa queda empurrou a Itália para um grupo de Eliminatórias complicadíssimo, com uma Noruega inspirada e pronta para brigar. Veio o colapso em Oslo com Spalletti, e depois Gattuso encerrou o ciclo com mais um tropeço, já sem impacto, mas com um simbolismo enorme: mais um jogo decisivo perdido.
Agora, o playoff está chegando e o clima é de tensão total. Não pela força do adversário, mas porque a Itália carrega nas costas quatro anos de fracassos em momentos-chave. O risco de repetir o pesadelo é real. E, para evitar que a história se repita, a Azzurra vai ter que vencer um rival que ela não derrota desde 2021: ela mesma.
Se não limpar a cabeça, controlar os nervos e recuperar um mínimo de confiança, o desfecho pode ser mais uma ferida difícil de cicatrizar. A Itália não pode se enfrentar de novo. Porque dessa batalha interna, ela vem perdendo todas.
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