O Racing Santander respira felicidade por todos os lados. Depois de anos de trabalho, o clube começa a colher os frutos de um projeto que vai muito além dos resultados em campo. É a prova de que um clube tradicional, mesmo longe do orçamento dos gigantes espanhóis, pode crescer com planejamento, vender bem, reinvestir e, principalmente, não perder a própria identidade no caminho.
Depois de 14 anos sem disputar La Liga, o clube passou anos nas divisões inferiores e agora a fórmula parece simples: contratar barato, valorizar jogadores e vender por cifras maiores, reinvestindo parte do lucro em melhorias no elenco e na estrutura. Só nesta janela, foram até 12 contratações. Mas o que realmente chama atenção é a capacidade de fazer isso sem desmontar aquilo que tornou o projeto possível.
O Racing conseguiu manter Salinas, uma das principais joias formadas em casa, mesmo diante do interesse de clubes como Barcelona e Atlético de Madrid. Ao mesmo tempo, segurou pilares como Íñigo Vicente e Andrés Martín e permitiu que outras promessas, como Sergio Martínez, seguissem seus próprios caminhos depois que a cláusula de três milhões de euros foi paga. Com as contas saneadas, o clube também passou a buscar talento em outros lugares, de Iker Luque, ligado ao Athletic, a Pablo García, do Betis.
É por isso que Sebastián Ceria, maior acionista, Manolo Higuera, presidente, e Chema Aragón, diretor esportivo, recebem tantos elogios. Mas existe um motivo ainda maior para o orgulho dentro da Cantábria: a maneira como a cantera funciona.
O sucesso da formação nunca foi pequeno. Nem mesmo nos períodos em que o Racing acumulava dificuldades financeiras e faltava dinheiro até para cuidar da própria fachada de La Albericia. Hoje, o torcedor comemora justamente porque o clube continua sendo profundamente cántabro.
Um detalhe da janela de transferências ajuda a explicar isso. O Racing não contratou um lateral-direito. Mantilla, jovem que chegou à equipe principal depois de passar pela Primeira Federação, segue como titular. E não seria surpresa se sua principal concorrência também surgisse de dentro de casa. A ausência de movimentação no mercado, nesse caso, parece muito menos uma lacuna e muito mais uma mensagem.
No lado esquerdo, a permanência de Salinas foi tratada como uma das grandes vitórias do mercado. O Racing resistiu a propostas de gigantes espanhóis e europeus por um jogador que poderia render até 16 milhões de euros. Zigic continua sendo a maior venda da história do clube, por 14,5 milhões, e ninguém parece disposto a lamentar isso.
Afinal, o Racing também conseguiu recuperar um rosto conhecido. Sergio Canales voltou ao clube que o revelou, depois de uma passagem pelo Real Madrid e de uma carreira consolidada, para assumir novamente um papel de liderança. Chegou sem custos de transferência e já começou a mostrar sua importância no meio-campo. Ao lado dele, Sainz-Maza permanece como uma espécie de bandeira local, pronto para aparecer quando o time precisar apagar algum incêndio.
Uma fábrica de talentos que nunca parou
É inevitável que surja a pergunta: como um clube histórico, mas de recursos modestos, consegue revelar tantos jogadores em uma região que está entre as menos populosas da Espanha?
A resposta está em uma construção que atravessa gerações. Desde a saída de Canales, há 17 anos, o Racing viu sua cantera produzir talentos de maneira praticamente constante. Jeremy rendeu 7,5 milhões de euros ao Stuttgart. Pablo Torre foi para o Barcelona por seis milhões. Mario García saiu para o futebol polonês por cerca de meio milhão. Os irmãos San Emeterio também deixaram dinheiro nos cofres, assim como Jairo e David Concha, vendido ao Real Madrid por um milhão.
Existe ainda uma característica curiosa: muitos deles, depois de deixar o clube e seguir carreira em outros lugares, mantiveram o desejo de voltar um dia. Não é coincidência. Existe um vínculo difícil de explicar apenas com contratos ou números.
Quem conhece o funcionamento da base do Racing sabe que existe uma metodologia por trás disso. Santi Gutiérrez Calle lançou as bases do projeto ainda no século passado e seus sucessores, apesar da perda de uma figura tão importante, não abandonaram o caminho. Pelo contrário: aprimoraram a ideia.
O investimento é um dos pilares. Dos 56 milhões de euros previstos no orçamento do clube, cerca de quatro milhões são destinados às categorias de base. Outro ponto é a utilização de ex-jogadores que conhecem profundamente o Racing. Gonzalo Colsa lidera esse processo, com Pedro Munitis por perto e nomes como Ceballos, responsável pelos goleiros, Moratón, integrado à primeira equipe, Picón, Edu Bedia, Mario Fernández e Pinillos espalhados por diferentes funções.
Até a área financeira carrega um pouco dessa identidade. Julián Luque, que hoje administra as contas do clube, já foi jogador e ponta do Racing. O extremo habilidoso de antes virou um gestor responsável por manter o clube longe dos problemas financeiros que marcaram períodos anteriores.
O método por trás da cantera
Mas existe muito mais por trás do sucesso. O Projeto Victoria é um dos exemplos. Com a educação como um dos pilares, o programa acompanha jogadores e suas famílias e estabelece uma rotina baseada em bem-estar e respeito. O modelo chamou a atenção até da União Europeia e passou a ser observado por outras estruturas esportivas espanholas.
Na captação, o Racing também desenvolveu um sistema próprio. A estratégia liderada por Alex Fernández é centralizada no aplicativo INN360, onde os treinadores registram relatórios contínuos sobre os jogadores. Informações físicas, técnicas, médicas e psicológicas são reunidas no mesmo ambiente, facilitando o acompanhamento e o trabalho de scouting.
O clube não mantém uma grande rede de olheiros espalhada pela Espanha. A estratégia é mais doméstica. Os próprios treinadores funcionam como observadores dentro de suas respectivas categorias, aproveitando o conhecimento que já possuem sobre cada faixa etária. Ao mesmo tempo, o Racing mantém uma rede de clubes parceiros que ajuda a identificar jogadores em estruturas menores.
O processo começa cedo e se estende por meses. A observação vai até dezembro, quando os responsáveis pela formação começam a selecionar os jogadores que podem chegar ao clube entre janeiro e a primavera. Há ainda o acompanhamento internacional, com ações e campi realizados em países como Estados Unidos, México e Colômbia, que já ajudaram a gerar cerca de 600 mil euros em vendas posteriores.
Nada disso parece acontecer por acaso. O Racing trabalha, em média, com 25 novos jogadores por temporada em sua cantera para abastecer oito equipes. Também existe uma preocupação em acelerar a progressão dos atletas entre as categorias, evitando que o desenvolvimento fique preso apenas à idade. Atualmente, três jogadores da filial participam da dinâmica da equipe principal, o que cria uma ponte importante entre a formação e o futebol profissional.
Salinas é o principal exemplo desse processo, mas não está sozinho. O clube também acompanha de perto outros internacionais pelas seleções de base, como o atacante Pablo Oria, da Divisão de Honra, e o goleiro Raúl Lavín, ainda no primeiro ano da categoria juvenil.
Nem todos conseguem espaço. Alguns precisam ser emprestados ou vendidos porque simplesmente não há lugar para todos. Diego Díaz, que agora foi para o Andorra, é um exemplo. Outros acabam deixando o clube antes do esperado, seja pela impaciência natural de um jovem jogador, seja pelo poder financeiro de equipes maiores, como aconteceu com o filho de Amunike e Alcides.
O que não muda é a filosofia. O Racing quer formar jogadores, mas também quer formar pessoas identificadas com o clube. Quer revelar talentos, mas sem transformar a cantera apenas em uma linha de produção de futuras vendas. Quer crescer financeiramente sem deixar de ser reconhecido como um clube da Cantábria.
Talvez seja justamente essa a maior vitória do projeto. E poucas cenas resumem melhor o Racing atual do que a que aconteceu na reta final da última janela de transferências. Enquanto o clube trabalhava para fechar o elenco, Íñigo Vicente apareceu nos escritórios acompanhado de algumas pizzas para os funcionários e para a direção esportiva. José Alberto estava lá, assim como boa parte daqueles que passaram os últimos dias tentando terminar o trabalho.
Não era apenas uma refeição no fim de uma janela movimentada. Era uma espécie de retrato do que o Racing construiu.
Onde antes havia decisões individuais, agentes circulando pelos corredores e um clube sem uma estrutura clara, hoje existe uma equipe trabalhando em conjunto. Do presidente ao diretor esportivo, dos treinadores aos ex-jogadores, dos funcionários aos atletas formados em casa.
O Racing não chegou até aqui por acaso. E talvez o maior orgulho da Cantábria seja justamente perceber que, enquanto o clube cresce, ele continua reconhecivelmente Racing.
Créditos da foto de capa: Reprodução/Real Racing Club via site oficial.



