Pagliuca
Futebol Serie A

Pagliuca abre o coração sobre suas noites mais difíceis

Gianluca Pagliuca é um nome que está gravado na história do futebol italiano. Para muitos torcedores, ele representa segurança no gol, títulos e defesas memoráveis. Campeão italiano com a Sampdoria em 1991, vencedor da Copa da Uefa com a Inter de Milão em 1998 e presença marcante na seleção da Itália por mais de uma década, o ex-goleiro construiu uma carreira impressionante. Mas, como ele próprio reconhece, nem tudo foram glórias. Em uma entrevista recente ao site Cronache di Spogliatoio, Pagliuca falou sobre as três partidas que mais o marcaram de forma negativa – jogos que ele gostaria de poder apagar do currículo.

Para um jogador acostumado a disputar finais e enfrentar pressão, é revelador ouvir de Pagliuca que algumas derrotas doem até hoje. “A final do Mundial com a Itália, a de Champions com a Sampdoria e a queda do Bologna são as únicas três coisas que eu gostaria de mudar na minha carreira. Se pudesse apagar esses momentos, estaria em paz com tudo”, desabafou. E, ao ser questionado sobre qual delas foi a pior noite, ele não titubeou.

O rebaixamento do Bologna: uma ferida pessoal

A mais dolorosa de todas, segundo Pagliuca, foi o jogo que selou a queda do Bologna para a Série B, em 2005. O clube perdeu por 2 a 0 para o Parma no jogo decisivo pelo playoff de rebaixamento. Para ele, que além de jogador era torcedor declarado do Bologna, aquele resultado foi um golpe duplo. “Foi realmente terrível perder esse jogo decisivo pela permanência. Não era só uma questão profissional, era algo que mexia com o meu coração de torcedor”, recorda.

Esse momento marcou profundamente não só Pagliuca, mas toda a torcida do Bologna. Era um time tradicional, que vinha de anos difíceis e lutava para se manter na elite. A queda significava um recomeço amargo, e para um goleiro que já havia passado por finais de Mundial e Champions League, é curioso que um jogo de rebaixamento seja descrito como “a noite mais dura”. Mas mostra o peso do sentimento de pertencimento que Pagliuca tinha ao clube.

A final de Wembley: um “quase” histórico

Outra lembrança amarga é a final da Copa dos Campeões (atual Champions League) de 1992, em Wembley, quando a Sampdoria enfrentou o poderoso Barcelona. O time italiano, que vivia seu auge com Mancini e Vialli no ataque, sonhava em conquistar a Europa. O jogo foi equilibrado, mas o gol de falta de Ronald Koeman, na prorrogação, decretou a derrota por 1 a 0. “Obviamente, aquela noite em Wembley foi horrível. Se tivéssemos vencido, provavelmente a história da Sampdoria teria mudado para sempre”, disse Pagliuca.

Para quem viveu aquela campanha mágica da Samp, fica a sensação de que a equipe merecia mais. Era um projeto ousado, um clube que havia conquistado o Scudetto no ano anterior e sonhava grande. A derrota foi um ponto de virada, porque a equipe nunca mais repetiu aquele nível de protagonismo europeu.

A final da Copa do Mundo: um sonho interrompido nos pênaltis

O terceiro jogo da lista dispensa apresentações: a final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Brasil e Itália empataram em 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação, levando a decisão para os pênaltis. O chute para fora de Roberto Baggio ficou eternizado, mas Pagliuca lembra que aquele jogo também poderia ter marcado negativamente sua carreira.

“Naquele Mundial fomos a um passo do sonho e perder nos pênaltis foi tremendo. Por que eu beijei o poste? Foi num lance em que Mauro Silva chutou, a bola escapou da minha mão, estava indo para o gol, mas bateu no poste e eu consegui recuperar. Aquele poste salvou a minha carreira”, contou. Ele ainda citou o exemplo do amigo Walter Zenga, que até hoje é lembrado pelo gol de Caniggia na semifinal de 1990 contra a Argentina. “Não consigo imaginar o que teria acontecido comigo se tivéssemos perdido por causa daquele meu erro. Eu teria sido marcado para sempre.”

O gesto de beijar a trave se tornou icônico e mostrou o alívio do goleiro ao escapar de um lance que poderia ser devastador para sua imagem. Mesmo assim, a frustração da derrota por 3 a 2 nas penalidades ainda pesa. “Fomos a um passo do sonho e foi terrível perder daquele jeito”, resumiu.

Pagliuca: Um gigante humano

Ao revisitar essas três partidas, Pagliuca mostra um lado humano que muitas vezes fica escondido atrás dos títulos e defesas espetaculares. O ex-goleiro admite que, apesar de uma carreira vitoriosa, carrega lembranças que preferia apagar. É um lembrete de que, por trás dos mitos do esporte, existem pessoas que sentem e sofrem tanto quanto os torcedores.

E talvez seja justamente isso que faça de Gianluca Pagliuca um dos grandes: não apenas pelas conquistas, mas pela sinceridade com que fala das derrotas. Essa honestidade aproxima o ídolo do torcedor comum e reforça a dimensão emocional do futebol, onde as vitórias são celebradas, mas as derrotas ficam para sempre na memória.