A estreia do Palmeiras na Libertadores teve todos os elementos de um time em crise disfarçada: desempenho abaixo da média, dificuldades de criação e uma vitória arrancada nos acréscimos contra o modesto Sporting Cristal. Em vez de reconhecer os problemas evidentes que o time vem mostrando desde o início da temporada, Abel Ferreira, mais uma vez, preferiu recorrer a uma explicação já manjada: os adversários jogam com mais vontade contra o Palmeiras.
É uma narrativa que até pode ter feito sentido em outro momento, quando o Verdão dominava o cenário nacional com um futebol sólido e mentalmente inabalável. Mas hoje soa como cortina de fumaça. O Palmeiras não é mais o time que impõe respeito pelo desempenho. É, no máximo, o clube que ainda carrega o peso de uma camisa vitoriosa, mas cuja performance em campo anda longe de justificar o temor dos rivais.
A temporada começou com um título perdido justamente para o maior rival, o Corinthians, incluindo uma derrota em pleno Allianz Parque. E não foi uma derrota acidental. O time foi dominado, travado e exposto em seus próprios erros. A resposta de Abel na época? A mesma ladainha. O discurso já está gasto. O que falta é olhar para dentro.
Abel Ferreira tenta jogar com a bola, mas se mostra limitado
O futebol do Verdão em 2025 tem sido, no mínimo, burocrático. As transições são lentas, o ataque depende demais de lampejos individuais, e o meio-campo parece travado por uma ideia de jogo que já deu sinais de esgotamento. Abel tentou inovar nessa temporada fazendo o Palmeiras ter mais a bola, mas o estilo de jogo posicional datado faz o time ser estático, sem ideias e espaçado. Tudo que um time que joga com a bola não pode ser.
Mais do que isso: a queda de rendimento de peças importantes também precisa ser debatida. Estêvão, por exemplo, é jovem e tem talento, mas não pode ser o único escape ofensivo do time. O sistema de Abel, que antes se destacava pela solidez coletiva, agora parece depender demais do brilho individual. E quando esse brilho não aparece, o Palmeiras simplesmente não funciona.
É compreensível que Abel queira blindar o elenco e manter o ambiente sob controle, mas negar a realidade só atrasa soluções. O técnico português tem um dos melhores elencos do país nas mãos, com estrutura, investimento e respaldo. Ser cobrado é parte do processo. E, neste momento, a cobrança é justa.
A frase de que “os adversários querem mais vencer o Palmeiras” já virou muleta. É um recurso para desviar o foco do que realmente importa: o Verdão tem jogado mal. Perdeu força, perdeu controle de jogo e perdeu identidade. A mentalidade de não reconhecer falhas, ao menos publicamente, é perigosa. Pode afastar o técnico da torcida, minar a confiança do elenco e criar um ambiente onde o problema é sempre o outro, nunca o próprio desempenho.
Abel Ferreira tem crédito por tudo que construiu no clube: duas Libertadores, um Brasileiro, uma Copa do Brasil, três Paulistas. Seu nome já está na história do Palmeiras. Mas história não entra em campo. O que entra é um time previsível, sem intensidade, que sofre para construir jogadas e depende do acaso para vencer partidas que antes dominava com autoridade.
Os resultados do Palmeiras são ruins, mas a postura é ainda pior
A crítica aqui não é sobre os resultados, ainda que eles já comecem a preocupar. É sobre o desempenho, a evolução (ou falta dela) e a postura diante dos desafios. E postura inclui responsabilidade. Quando tudo vai bem, Abel assume os méritos com firmeza. Mas nos momentos ruins, prefere apontar para o suposto “fator psicológico dos adversários”. Isso não é suficiente.
Se o Palmeiras quiser reencontrar o bom futebol, Abel Ferreira precisa sair do modo defensivo. Precisa rever suas escolhas táticas, repensar o papel de certas peças, abrir mão de convicções que já não entregam o mesmo impacto. E, acima de tudo, precisa admitir que parte dos problemas do time passa por ele.
A temporada está só começando, é verdade. Mas a forma como o Palmeiras joga acende um alerta claro. Não se trata de um tropeço isolado. É uma sequência de más atuações, de ideias que não fluem, de um time que parece carregar o peso do próprio sucesso sem conseguir renovar sua identidade.
Abel ainda é o técnico certo para o Palmeiras. Mas ele precisa, urgentemente, parar de terceirizar a culpa e começar a trabalhar para mudar o que está errado. O tempo da blindagem já passou. O momento agora é de responsabilidade, e de ação.
(Foto: Ettore Chiereguini/AGIF)