O Palmeiras perdeu para o Cerro Porteño dentro de casa e viu uma das marcas mais impressionantes da era Abel Ferreira simplesmente acabar. Pela primeira vez desde 2021, o Verdão foi derrotado como mandante na Copa Libertadores. E talvez o mais preocupante para o torcedor nem seja apenas o resultado.
Porque olhando o cenário de forma mais ampla, a sensação é de que várias das grandes “blindagens históricas” construídas por Abel Ferreira começaram a desaparecer desde 2025. Aos poucos, números que antes pareciam intocáveis começaram a cair. Aproveitamento em clássicos diminuiu, desempenho em mata-matas perdeu força e até a aura de invencibilidade dentro de casa parece menos assustadora.
O Palmeiras continua competitivo? Sim.
Ainda é um dos times mais fortes do continente? Sem dúvida.
Mas aquele Palmeiras quase robótico, que parecia inevitável nos jogos grandes, já não aparece com a mesma frequência. Dá para dizer inclusive, que o pacto nunca esteve tão fraco quanto o momento apresenta.
A derrota para o Cerro escancarou um Palmeiras mais vulnerável
A derrota para o Cerro Porteño teve um peso simbólico enorme justamente porque o Allianz Parque ou até os jogos em Barueri em determinados períodos, virou praticamente um território amaldiçoado para adversários na Libertadores durante a era Abel.
Desde 2021, ninguém conseguia sair dali vencendo pela competição continental.
Era uma sequência que misturava pressão absurda, intensidade física e uma confiança quase automática do elenco. Muitos jogos pareciam decididos antes mesmo da bola rolar. O Palmeiras pressionava, controlava o ritmo e dava a impressão de que uma hora o gol sairia inevitavelmente.
Só que contra o Cerro, a história foi diferente. O time paraguaio conseguiu competir fisicamente, suportou os momentos de pressão e aproveitou um Palmeiras menos agressivo e mais desconfortável emocionalmente durante a partida. E isso não vem sendo exatamente novidade.
Nos últimos meses, o Verdão tem apresentado dificuldades em jogos onde precisa acelerar o ritmo ou furar defesas mais organizadas. Em alguns momentos, o time parece previsível ofensivamente, muito dependente de bolas paradas ou de jogadas individuais.
O empate contra o Cruzeiro recentemente já havia deixado alguns sinais nesse sentido.
O Palmeiras controlou partes do jogo, mas novamente encontrou dificuldades para transformar domínio territorial em volume real de chances claras. É aquele tipo de atuação que não parece desastrosa olhando superficialmente, mas que acende um alerta quando começa a se repetir.
Os números da era Abel Ferreira já não são tão assustadores
E talvez o ponto mais importante dessa discussão esteja justamente nos números.
Porque durante muito tempo, os resultados de Abel Ferreira com o Palmerias eram praticamente blindados por estatísticas absurdas. Aproveitamento elevadíssimo, títulos constantes, desempenho forte em clássicos e uma consistência quase inacreditável em mata-matas.
Só que desde 2025, parte dessas marcas começou a cair.
O Palmeiras viveu uma temporada sem títulos em 2025, algo que parecia quase impossível alguns anos atrás. Além disso, Abel sofreu naquele período a pior derrota de toda sua passagem pelo clube, um choque que ajudou a aumentar a sensação de desgaste no projeto.
E os números recentes em confrontos grandes também mostram uma queda importante.
O aproveitamento do treinador em clássicos e jogos eliminatórios caiu para 57,14% desde a última temporada. Para muitos técnicos, isso ainda seria um número excelente. O problema é que Abel elevou tanto o padrão do Palmeiras que qualquer queda mais perceptível vira assunto imediatamente.
E honestamente? Talvez isso seja inevitável.
Manter um time no topo durante tantos anos seguidos é quase desumano no futebol sul-americano. Principalmente quando o adversário já conhece seu modelo de jogo, estuda seus padrões e entra em campo preparado para neutralizar exatamente aquilo que antes parecia imparável.
O futebol brasileiro mastiga ciclos rapidamente. O que parecia revolucionário em 2022 começa a precisar de ajustes em 2026.
Existe desgaste ou apenas uma mudança natural de cenário?
Essa talvez seja a pergunta mais importante hoje dentro do Palmeiras. Porque existe uma linha muito tênue entre “fim de ciclo” e “readequação competitiva”. E talvez parte da torcida esteja começando a confundir as coisas.
O Palmeiras ainda possui elenco forte, estrutura absurda e um dos melhores treinadores da história do clube. Isso não desaparece por causa de alguns resultados ruins. Ao mesmo tempo, também é impossível ignorar certos sinais.
O time já não sufoca adversários da mesma forma. Os jogos grandes parecem mais equilibrados. A intensidade emocional diminuiu em alguns momentos. E principalmente: a sensação de inevitabilidade desapareceu.
Antes, quando o Palmeiras entrava em um mata-mata, muita gente já considerava o time favorito quase automaticamente. Hoje, existe mais dúvida. E isso muda completamente a percepção externa.
Além disso, existe um fator psicológico importante. O elenco vencedor envelheceu junto. Alguns jogadores perderam explosão física, outros atravessam momentos técnicos menos dominantes, e o próprio Abel parece conviver mais frequentemente com desgaste emocional nas entrevistas e no ambiente ao redor do clube.
A pressão também aumentou. Quando você ganha tudo, o “normal” deixa de ser suficiente.
O maior desafio de Abel talvez seja reinventar o Palmeiras
Curiosamente, o maior adversário de Abel Ferreira hoje talvez não seja Flamengo, Fluminense ou qualquer rival direto. Talvez seja a própria versão histórica do Palmeiras que ele criou. Porque o sarrafo foi colocado em um nível absurdo.
A torcida se acostumou com finais, títulos e atuações dominantes. Qualquer sequência menos brilhante imediatamente vira crise, debate sobre ciclo e questionamentos sobre desgaste.
Só que talvez o momento atual exija justamente algo que os grandes técnicos costumam precisar fazer para sobreviver no topo: reinvenção.
O Palmeiras parece precisar de novas dinâmicas ofensivas, novos protagonistas e talvez até uma mudança emocional no ambiente competitivo. Não porque o trabalho acabou, mas porque o futebol exige atualização constante.
Ainda existe talento, organização e qualidade suficiente para voltar a ganhar títulos importantes. Mas pela primeira vez em muito tempo, o Palmeiras de Abel Ferreira parece mais humano. E talvez seja exatamente isso que esteja assustando parte da torcida.
Foto: Cesar Greco/Palmeiras


