Martin Donnelly, piloto britânico que inspirou a história de Sonny Hayes em ‘F1: O Filme’, vivido por Brad Pitt, terá a oportunidade de fechar o capítulo inacabado de sua carreira. Em 1990, ele sofreu um gravíssimo acidente durante os treinos do GP da Espanha, que encerrou sua trajetória na Fórmula 1 e, por pouco, não tirou sua vida. Agora, ele guiará um carro da categoria em Adelaide, palco da etapa de encerramento daquele ano.
Algumas imagens do acidente de Donnelly são exibidas no início do filme para contextualizar a história de Hayes, personagem que teve a carreira interrompida por um grave acidente na década de 1990 e, na trama, retorna à Fórmula 1 para tentar salvar a pequena equipe APX GP da falência.
Donnelly terá chance de encerrar simbolicamente a temporada de 1990

O retorno de Donnelly ao assento de um Fórmula 1 ocorrerá no festival de automobilismo de Adelaide, que ocorre na pista australiana de mesmo nome e que seria a 16ª e última prova do campeonato de 1990. Quando o britânico se acidentou, faltavam apenas duas etapas para concluir a campanha, que teve como ponto alto o sétimo lugar conquistado no Hungaroring — à época, apenas os seis melhores somavam pontos — pela equipe Lotus.
Aos 61 anos, o piloto estará a bordo do Hesketh 308, carro da temporada 1975 responsável pela primeira vitória de James Hunt — que também teve a história contada em uma obra cinematográfica, o filme ‘Rush: No Limite da Emoção’ — no GP dos Países Baixos.
“Era para estar em Adelaide em 1990 e nunca consegui. Minha carreira terminou antes de eu ter a chance. Isso é algo que te marca”, disse Donnelly.
Em 1993, ele realizou um teste com a Jordan no circuito de Silverstone. Sua readaptação foi classificada como rápida, mas um vazamento de óleo limitou seu retorno a apenas algumas voltas. Embora fisicamente conseguisse pilotar, naquele ponto, sua carreira na Fórmula 1 já havia terminado.
Fora da categoria máxima do automobilismo, ele seguiu no esporte competindo em outros campeonatos menores, como a Fórmula Classic e o Campeonato Britânico de Carros de Turismo (BTCC). Voltou a pilotar um carro da Lotus, um modelo similar àquele que quase tirou sua vida, no Festival de Goodwood de 2011.
A batida que chocou a Fórmula 1 e quase matou Donnelly

Era sexta-feira, dia 28 de setembro de 1990, e os holofotes do automobilismo se voltavam para Jerez de la Frontera. A Fórmula 1 chegava ao circuito espanhol para sua 14ª rodada do campeonato mundial, àquela altura ainda em aberto, com a disputa entre o líder Ayrton Senna e o vice-líder Alain Prost. A rivalidade entre os dois teria, na prova seguinte, um de seus momentos mais marcantes e polêmicos, com a batida entre ambos na largada do GP do Japão.
Nos treinos livres, Donnelly perdeu o controle da Lotus 102 na curva 14, trecho de alta velocidade, e foi reto no muro a 283 km/h. O carro se partiu ao meio, e o piloto foi arremessado para o meio da pista, em uma imagem fortíssima que foi exibida pela transmissão oficial do evento para o mundo inteiro ver.
Seu corpo ainda estava preso ao assento e apresentava lesões visíveis, principalmente nas pernas. Imediatamente após o acidente, Nelson Piquet estacionou sua Bennetton no traçado, em uma tentativa de impedir que outros pilotos atropelassem Donnelly.
A equipe médica da Fórmula 1 agiu rapidamente e socorreu o britânico, que teve uma parada cardíaca ali mesmo e foi reanimado pelo Dr. Sid Watkins. Entre as principais contusões, estavam traumatismo craniano, fraturas na clavícula direita, na tíbia, na fíbula e no fêmur da perna esquerda, além de lesões nos pulmões e no pescoço.
A recuperação não foi fácil, e uma infecção na perna deixou o membro em risco de amputação. Porém, Donnelly sobreviveu para contar a história e, em tom bem-humorado, brincou sobre a situação após sofrer um acidente de moto em um evento beneficente em 2019.
“É irônico, não é? Você bateu em uma barreira a 283 km/h, passou por [um impacto de] 44g e tem todo esse dano, então você cai de uma moto a 32 km/h e a dor e tudo são exatamente os mesmos. Se alguém lhe dissesse, você não acreditaria.”
Outras inspirações da vida real na trama de ‘F1: O Filme’

A obra do produtor Jerry Bruckheimer, famoso por trabalhos como ‘Top Gun: Maverick’ e ‘Piratas do Caribe’, conta com outras referências a acidentes que aconteceram de fato na Fórmula 1 e em outras categorias de automobilismo.
Por exemplo, a cena em que Hayes decola no GP de Monza, embora tenha sofrido certa dramatização no filme, foi baseada em um acidente que ocorreu na Fórmula 3, em 2019. Na ocasião, o australiano Alexander Peroni decolou, capotou três vezes no ar e aterrissou nas barreiras de proteção após passar por uma zebra salsicha defeituosa na última curva do mesmo circuito italiano da produção.
O piloto, à época correndo pela Campos, saiu do carro andando após a cena impressionante. Mais tarde, constatou-se que ele havia fraturado uma vértebra, o que o tirou da corrida seguinte, mas felizmente não comprometeu a continuação de sua carreira.
Já as cenas em que Hayes causa safety cars propositais para ajudar seu companheiro de equipe Joshua Pearce, de acordo com Brad Pitt, tiveram inspiração no ‘Singapuragate’. O escândalo, que rendeu punições severas aos envolvidos, foi protagonizado pela Renault e pelo piloto Nelson Piquet Jr., que premeditaram uma batida no GP de Singapura de 2008 para ajudar o outro carro do time, pilotado por Fernando Alonso, a vencer a corrida.
Por fim, no final do filme, quando a APX GP chega ao GP de Abu Dhabi precisando de uma vitória para evitar a falência, pode-se traçar um paralelo com a corrida final da temporada 2021 da Fórmula 1 no mesmo circuito.
Hayes colide com George Russell e causa uma bandeira vermelha a poucas voltas do fim, em um cenário alternativo ao que ocorreu na vida real. Na ocasião, Lewis Hamilton, que contribuiu na produção do filme, e Max Verstappen chegaram empatados na decisão, e o inglês liderava com tranquilidade rumo ao seu oitavo título mundial. Até que, no final da prova, Nicholas Latifi bateu e causou um safety car, que acabou prejudicando Hamilton.
Verstappen, diferentemente do rival, parou nos boxes logo que a bandeira amarela veio. Então, veio a polêmica ordem da direção de prova para que apenas os cinco retardatários que estavam entre os dois ultrapassassem e fossem para o fim do grid. Isso deixou o holandês livre para ir à caça de Hamilton e, com uma ultrapassagem na penúltima volta, ele se sagrou campeão pela primeira vez.
Muito se discute até hoje se o correto teria sido uma bandeira vermelha seguida de uma relargada, o que daria condições iguais de disputa, já que ambos poderiam trocar de pneus.
(Foto principal: Reprodução / Fórmula 1)



