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Futebol Copa do Mundo

Por que um boicote da UEFA pode mudar a Copa do Mundo

Uli Hoeness, presidente do Bayern de Munique, em sua declaração mais recente delas mexeu diretamente com o futuro da Copa do Mundo. Hoeness, de 74 anos, criticou duramente a decisão da UEFA de ameaçar boicotar todas as competições da FIFA caso o presidente Gianni Infantino avance com o plano de vender participação do torneio a investidores privados.

Para Hoeness, uma Copa do Mundo sem europeus simplesmente não teria valor algum. A frase traz consigo uma pergunta antiga no futebol mundial: o quanto a Europa realmente domina o torneio mais importante do esporte?

A crise que motivou o boicote da UEFA à FIFA

O auge da disputa foi o anúncio da FIFA de criar uma nova empresa, chamada de Fifa Forward Enterprise, que concentraria os direitos comerciais da Copa do Mundo Masculina, da Copa do Mundo Feminina e do Mundial de Clubes. A entidade seria avaliada em torno de US$ 20 bilhões (cerca de R$ 102 bilhões), com a venda de cerca de 20% de participação a investidores externos, movimento que renderia até US$ 4,2 bilhões aos cofres da FIFA (aproximadamente R$ 21,5 bilhões). O grupo de investidores seria liderado por Joshua Kushner, fundador de uma gestora de recursos e irmão de Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump.

Em resposta, as diversas federações filiadas à UEFA decidiram que nenhuma seleção europeia participará de torneios organizados pela FIFA caso o plano avance, a menos que seja completamente abandonado com garantias de que a governança do futebol mundial não voltará a ser colocada à venda. A postura já recebeu apoio inicial de outras confederações, como a CONCACAF e a AFC, aumentando a pressão sobre Infantino, que precisa da aprovação das 211 federações da FIFA até 19 de setembro para seguir com o projeto.

A quantidade de seleções europeias na Copa do Mundo

A declaração de Hoeness ganha força ao se observar os números do torneio. A Espanha se tornou a 13ª seleção europeia campeã mundial, o que significa que mais da metade dos 23 títulos da história da competição pertence a países do continente europeu.

Com a expansão para 48 seleções, 16 delas europeias marcaram presença no torneio, número muito superior ao de qualquer outra confederação, com a CAF em segundo lugar somando dez representantes africanos. Ainda assim, essa vantagem numérica não se traduziu em domínio nas primeiras fases eliminatórias, visto que a UEFA tinha apenas 41% das equipes classificadas às oitavas de final. Foi somente nas quartas de final em que seis das oito seleções classificadas eram europeias, mostrando o domínio na competição.

O domínio europeu é maior durante o século XXI

O padrão observado em 2026 não é exceção. Ao longo de todo o século XXI, nenhuma final de Copa do Mundo aconteceu sem a presença de pelo menos uma seleção europeia, e em três oportunidades, em 2006, 2010 e 2018, a final colocou frente a frente duas equipes do continente.

Os números por fase reforçam essa tendência de crescimento gradual do domínio europeu ao desenrolar do torneio. Enquanto metade das seleções presentes nas oitavas de final, entre 2002 e 2026, eram europeias, essa proporção sobe para 61% nas quartas de final e chega a 71% quando se somam semifinais e finais no mesmo período.

A América do Sul é a melhor alternativa fora da Europa

Entre as confederações não europeias, a CONMEBOL se destaca como a que mais se aproxima do nível competitivo do futebol das seleções da UEFA. Todos os finalistas não europeus deste século vieram da América do Sul, com Brasil em 2002 e Argentina, que chegou nas finais em 2014, 2022 e 2026. Outros casos de outras confederações se classificando para a semifinais são raros, como o Marrocos, primeira seleção africana a chegar nesta fase, em 2022, e a Coreia do Sul, que terminou em quarto lugar em 2002.

Ao analisar os números, fica claro que um boicote efetivo da UEFA atingiria fortemente a Copa do Mundo. Sem a presença europeia, dificilmente a competição manteria o nível técnico e o apelo comercial que o transformaram  em a competição de futebol mais importante do planeta, o que ajuda a explicar tanto a firmeza do discurso de Hoeness quanto a disposição da UEFA em levar a ameaça às últimas consequências caso a FIFA insista no plano de privatização parcial de seus principais ativos.

Créditos da foto de capa: Robert Hradil /Mike Egerton /PA Images / Getty Images