Dorival comandando a Seleção Brasileira diante do Uruguai, em novembro de 2024. Grêmio
Futebol Seleção Brasileira

Por que Dorival Júnior não deu certo na seleção brasileira?

Dorival Júnior não é mais técnico da Seleção Brasileira, após a CBF confirmar o desligamento do treinador na tarde desta sexta-feira (28). Em quase dois anos à frente da equipe, o técnico, campeão da Libertadores pelo Flamengo em 2022 e da Copa do Brasil pelo São Paulo em 2023, não obteve sucesso, apesar de um início animador, com a vitória sobre a Inglaterra em Wembley e o empate contra a Espanha no Santiago Bernabéu, ambos em 2024.

Porém, quando os jogos passaram a valer três pontos, o Brasil de Dorival Júnior não rendeu. Atuações fracas e uma eliminação melancólica para o Uruguai na Copa América já indicavam o que seria sua passagem pela Seleção, algo que se confirmou com outras apresentações decepcionantes nas Eliminatórias. A goleada histórica sofrida para a Argentina por 4 a 1, em Buenos Aires, na última terça-feira (25), foi o último “prego no caixão” e praticamente sacramentou a demissão de Dorival.

Nesta análise, buscamos entender por que o trabalho do técnico, que era considerado por muitos da imprensa como o melhor treinador brasileiro da atualidade, não deu certo à frente da Seleção Canarinho.

O contexto conturbado da CBF

Antes de entrar na parte tática e técnica, é fundamental abordar o contexto de crise que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tem vivido. A entidade atravessa uma guerra política envolvendo o atual presidente, Ednaldo Rodrigues, e opositores que tentaram destituí-lo da presidência por meio da Justiça comum em 2023. Esse cenário caótico reflete diretamente no futebol brasileiro.

Em meio a essa instabilidade, a Seleção foi a mais prejudicada. Primeiro, Ednaldo Rodrigues insistiu publicamente que Carlo Ancelotti assumiria o Brasil, mesmo quando o treinador do Real Madrid sempre evitava o assunto.

Durante esse período de incerteza, Fernando Diniz assumiu a Seleção como técnico interino, enquanto ainda comandava o Fluminense. No início de 2024, Ednaldo Rodrigues conseguiu recuperar seu cargo na presidência da CBF, demitiu Diniz e contratou Dorival Júnior, depois que Ancelotti renovou com o Real Madrid.

Falta de liderança: um dos problemas de Dorival Júnior

Como mencionado anteriormente, o trabalho de Dorival Júnior começou bem, com bons resultados nos amistosos contra Inglaterra e Espanha. No entanto, já na Copa América surgiram os primeiros sinais de que sua passagem pela Seleção poderia não dar certo. Mas a questão tática será abordada mais adiante.

Um episódio emblemático ocorreu antes das cobranças de pênaltis entre Brasil e Uruguai, em Las Vegas, pelas quartas de final. Na tradicional roda antes das penalidades, Dorival parecia perdido e fora do círculo dos jogadores, aparentando confusão e até precisando pedir para falar. Pode parecer um detalhe, mas isso demonstrou uma clara falta de liderança, sugerindo que os jogadores tinham mais voz e comando na equipe do que o próprio treinador.

Esse cenário refletiu dentro de campo, com uma equipe apática e sem personalidade. Os melhores momentos da Seleção ocorriam apenas sob pressão, sem organização tática e dependendo da individualidade de jogadores como Vinícius Júnior, Rodrygo, Raphinha e Luiz Henrique.

Um time sem identidade

Sob o comando de Dorival Júnior, não ficou claro qual era a identidade da Seleção. A equipe queria ser ofensiva e criativa, explorando o talento dos seus principais jogadores, ou mais pragmática, baseada em transição e marcação? A escalação montada pelo treinador contra a Argentina foi um grande exemplo de como ele estava perdido no cargo.

Mesmo na vitória contra a Colômbia, em Brasília, a Seleção não convenceu. A equipe foi dominada pelo time colombiano, que foi superior durante boa parte do jogo. O mesmo já havia acontecido na Copa América, no empate por 1 a 1 em Santa Clara, quando o meio de campo formado por Jhon Arias, Richard Ríos e James Rodríguez “engoliu” o Brasil.

No jogo contra a Argentina, Dorival escalou um bizarro 4-2-4, com apenas Joelinton e André no meio-campo, enquanto Rodrygo, Raphinha, Vinícius Júnior e Matheus Cunha formavam o ataque. A estratégia foi facilmente neutralizada por Lionel Scaloni, que reforçou o meio-campo e colocou a Seleção no bolso.

A tentativa frustrada de resgatar o “futebol bonito” com Fernando Diniz acabou reforçando ainda mais a valorização do pragmatismo e a exaltação de técnicos limitados no Brasil. Atualmente, com exceção de Filipe Luís, do Flamengo, os treinadores brasileiros são praticamente os mesmos de sempre, e isso inevitavelmente reflete na Seleção.

Além disso, a crise do futebol brasileiro também passa pela saída cada vez mais precoce dos jogadores para a Europa. Lá, eles perdem parte de sua identidade original e são “doutrinados” (ainda que eu deteste essa palavra) a jogar de maneira mais posicional e sistemática, o que limita a criatividade e a autonomia em campo.

Nosso maior rival, a Argentina, encontrou uma forma de evitar esse eurocentrismo tático e já colhe os frutos dessa estratégia. Agora, cabe ao Brasil aprender com eles ou continuar na mesma mesmice que tem manchado a história do futebol pentacampeão do mundo.

Antes de escolher o substituto de Dorival Júnior, a CBF precisa, primeiro, definir o que quer para a Seleção Brasileira. Sem essa questão resolvida, não adianta contratar Ancelotti, Jorge Jesus ou qualquer outro treinador — o fracasso será inevitável.

(Foto: Pedro Vilela/Getty Images)