A divisão dos médios do UFC vive um momento curioso e confuso no topo do ranking. O francês Nassourdine Imavov, que parecia ser o desafiante natural ao cinturão, acabou perdendo sua oportunidade de disputar o título contra Khamzat Chimaev. Em vez disso, o UFC optou por marcar uma luta entre o campeão e o ex-detentor do cinturão Sean Strickland, decisão que deixou Imavov em uma posição incerta na corrida pelo título.
A situação envolve uma combinação de fatores esportivos, circunstâncias pessoais e até elementos culturais que acabaram influenciando o cenário da divisão.
A sequência que colocou Imavov na disputa pelo título
Durante boa parte de 2025 e início de 2026, Imavov parecia ser o próximo desafiante lógico ao cinturão dos médios. O lutador vinha de uma sequência impressionante de vitórias, incluindo triunfos sobre nomes relevantes da divisão como Israel Adesanya, Jared Cannonier, Brendan Allen e Caio Borralho.
Especialmente a vitória sobre Borralho em Paris reforçou sua candidatura ao title shot. Lutando diante do público francês, Imavov dominou a luta com striking preciso e controle do ritmo ao longo de cinco rounds, encerrando o combate por decisão unânime e ampliando sua sequência positiva para cinco vitórias consecutivas. Com esse retrospecto, o cenário parecia claro: o próximo passo seria enfrentar Chimaev pelo cinturão.
Inclusive, segundo o próprio Imavov, o UFC chegou a discutir oficialmente essa luta para duas datas diferentes, inicialmente em dezembro de 2025 e depois em fevereiro de 2026. No entanto, a luta acabou não acontecendo por causa de uma lesão no pé sofrida por Chimaev, que precisou passar por cirurgia.
A questão cultural e a influência da família
Embora fatores esportivos expliquem parte da situação, existe também um elemento pessoal importante envolvendo o próprio Imavov.
O lutador nasceu no Daguestão e compartilha origens culturais e religiosas semelhantes às de Chimaev, que é checheno. Dentro da cultura da região do Cáucaso, confrontos entre atletas que compartilham essas origens podem ser vistos como problemáticos, especialmente quando existe respeito mútuo entre os envolvidos.
Imavov chegou a revelar publicamente que sua própria mãe se mostrou contra a ideia de ele enfrentar Chimaev. Segundo o lutador, ela acredita que uma luta entre os dois seria inadequada, pois os vê como “irmãos”. Embora Imavov tenha deixado claro que entende a importância profissional da luta, esse contexto acabou criando um ambiente menos favorável para a realização imediata do confronto.
Enquanto o cenário permanecia indefinido, outro fator mudou completamente o panorama da divisão. O ex-campeão Sean Strickland voltou a ganhar força na corrida pelo título após derrotar Anthony Hernandez por nocaute, resultado que recolocou seu nome entre os principais candidatos ao cinturão.
Além disso, Strickland possui uma vantagem narrativa importante: ele já derrotou Imavov anteriormente, em uma luta disputada em 2023. Esse detalhe pesa bastante na lógica de matchmaking do UFC, já que uma revanche imediata pelo título entre Chimaev e Strickland pode ser vendida com mais facilidade ao público.
Por causa disso, o UFC decidiu priorizar o confronto entre Chimaev e Strickland como próxima disputa de cinturão.
O paradoxo de Imavov na divisão
A consequência é um cenário curioso: mesmo sendo considerado por muitos analistas o desafiante mais merecedor do ranking, Imavov acabou ficando temporariamente fora da disputa direta pelo título. O próprio lutador demonstrou frustração com a situação. Em entrevistas recentes, ele criticou a possibilidade de Strickland “furar a fila”, argumentando que seu desempenho recente dentro do octógono deveria ter garantido a ele a próxima oportunidade pelo cinturão.
Esse tipo de situação não é incomum no UFC. A organização frequentemente equilibra mérito esportivo com fatores comerciais e narrativos ao decidir lutas pelo título.
A situação de Imavov pode se tornar ainda mais complexa dependendo do resultado da próxima defesa de título. Se Chimaev vencer Strickland, existe uma possibilidade real de que o campeão decida subir de divisão em busca de um segundo cinturão. O checheno já manifestou interesse em explorar desafios em outras categorias no futuro.
Nesse cenário, Imavov poderia acabar disputando o título apenas se o cinturão ficasse vago, ou se Chimaev deixasse a categoria. Ou seja, paradoxalmente, o francês pode precisar torcer para que o campeão abandone a divisão para finalmente receber a oportunidade que parecia garantida meses atrás.
O futuro da divisão
Independentemente do desfecho imediato, a situação de Imavov mostra como a divisão dos médios vive um momento de transição.
Entre o domínio emergente de Chimaev, o retorno competitivo de Strickland e a ascensão de novos nomes, o cinturão da categoria pode passar por mudanças importantes nos próximos meses. E mesmo tendo perdido temporariamente sua chance direta pelo título, Imavov continua sendo um dos protagonistas inevitáveis dessa história.
(Foto: Zuffa LLC)



