O Liverpool já gastou bastante dinheiro na primeira janela da temporada, e não pensou diferente na segunda oportunidade. Quando costuma abrir o cofre, normalmente é porque tem convicção ou porque vê algo que o mercado ainda não percebeu totalmente. E a decisão de investir até €70 milhões em Jeremy Jacquet, zagueiro de apenas 20 anos do Rennes, entra exatamente nessa categoria: ousada, estratégica e cheia de camadas.
A negociação prevê €60 milhões fixos, mais €10 milhões em bônus, e já chama atenção por vários motivos. O primeiro deles é óbvio: Jacquet tem apenas uma temporada de Ligue 1, nunca disputou competições europeias e não tem experiência internacional, simplesmente um diamante dos mais brutos. Ainda assim, o Liverpool não só foi ao ataque como superou o Chelsea na corrida pela assinatura do francês. Não é pouca coisa.
Um preço alto… para quem olha só o presente
Se você olhar apenas para o agora, o valor parece inflado, um jogador que ainda não foi capaz de demonstrar constância, principalmente por ter passado apenas uma campanha no alto nível francês. O valor estimado de Jacquet é de €17,8 milhões, bem distante da cifra que o Liverpool aceitou pagar. Mas o futebol moderno não compra apenas desempenho atual, compra projeção, perfil e encaixe em modelo de jogo.
E é aí que o nome de Arne Slot entra forte na equação.
O técnico holandês já deixou claro que quer um Liverpool mais agressivo sem a bola, intenso na pressão e sólido na defesa alta. Para isso, precisa de zagueiros que sejam rápidos, fortes fisicamente, inteligentes na leitura do jogo e confortáveis atuando longe da própria área. Jacquet encaixa nesse molde quase como uma luva, sem contar que, pode ser moldado pelos pensamentos de Slot.
Substituto natural de Konaté?
Nos bastidores de Anfield, a leitura é direta: Jeremy Jacquet é o sucessor de Ibrahima Konaté. O francês, que tem contrato até o fim da temporada, caminha para sair de graça no verão europeu, caso não ocorra nenhuma movimentação inesperada, ou se encaminhe da mesma forma que Salah e Van Djik. Perder um zagueiro desse nível sem reposição seria um tiro no pé, e o Liverpool decidiu agir antes do problema explodir.
Fisicamente, Jacquet lembra muito Konaté: mais de 1,85m de altura, passada larga, explosão para cobrir espaço e imposição nos duelos. Em termos estatísticos, os números da atual temporada também mostram semelhanças importantes, especialmente nos indicadores defensivos por jogo.
Segundo dados analisados pela SciSports, o estilo de Jacquet também se aproxima de nomes como William Saliba e Gabriel, dupla do Arsenal que vem sendo referência de solidez defensiva na Premier League. Ou seja, não é só força: há leitura, posicionamento e consistência.
No Rennes, a evolução do jovem zagueiro foi rápida e notada. O técnico Habib Beye foi direto ao falar sobre o crescimento do atleta:
“Ele deu um salto. Foi receptivo e entendeu o que precisava melhorar. Ganhou confiança, mas também agressividade. Hoje, ele entende que ser zagueiro não é só jogar com a bola, mas ser impactante quando o time sofre.”
Esse detalhe é crucial. O Liverpool não quer apenas um zagueiro “bonito”, que sai jogando bem. Quer alguém que aguente pancada, pressão e ritmo de Premier League. E Jacquet mostrou que aprende rápido, além de ter uma mente aberta sobre o mundo do futebol, algo que pode ser interessantíssimo num local em que ego, orgulho e entre outros fatores, falam bem alto.
O “monstro” aéreo que quase não é testado
À primeira vista, os números de Jacquet pelo alto podem assustar quem olha apenas o volume. Em jogadas aéreas defensivas em jogo aberto, ele aparece com 2,45 ações por partida, abaixo da média da Ligue 1 e bem distante das 5,85 de Konaté.
Mas aí entra o contexto: ninguém quer testar o novo jogador do Liverpool pelo alto.
O francês venceu quase 69% dos duelos aéreos, a segunda melhor marca da Ligue 1, e dentro da própria área esse índice sobe para impressionantes 83,33%. Ou seja, o baixo volume não indica fraqueza, indica respeito. Os adversários simplesmente evitam o caminho, não tem porque tentar, se as chances são altas de perder.
Autocrítica rara para alguém de 20 anos
Se tem algo que agrada (e muito) à comissão técnica do Liverpool é o fato de Jacquet saber exatamente onde precisa evoluir. Em entrevista ao Ouest France, ele apontou a concentração como seu principal ponto de atenção.
“Dizem que sou casual nos passes, mas isso é da minha personalidade. Preciso manter o nível de concentração durante 90 minutos, em cada duelo.”
Esse tipo de autocrítica, especialmente em um jogador tão jovem, pesa bastante em decisões desse porte. Talento sem consciência costuma dar errado. Talento com mentalidade aberta, o Liverpool costuma lapidar bem.
Jeremy Jacquet será o segundo zagueiro mais caro da história do Liverpool, atrás apenas de Virgil van Dijk, contratado por €85 milhões em 2018. A comparação é pesada, e talvez injusta neste momento, mas ajuda a entender o tamanho da aposta.
O Liverpool sabe que está pagando pelo futuro, não pelo currículo. Sabe também que a curva de aprendizado será íngreme, complicadíssima talvez, só que só vivendo para saber, essas que são as famosas apostas. Mas, dentro do projeto de Arne Slot, Jacquet representa algo raro: um zagueiro jovem, pronto fisicamente, com leitura tática avançada e margem enorme de crescimento.
Se os €70 milhões vão se justificar? Isso só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: o Liverpool não gastou por impulso. Gastou por convicção. E quando o clube age assim, o mercado costuma prestar atenção.
Foto: IMAGO