O São Paulo terminou a derrota para o Athletico na volta do Brasileirão com um número que, à primeira vista, costuma indicar domínio: 70% de posse de bola. Durante boa parte da partida, o time controlou a circulação, trocou passes e permaneceu instalado no campo ofensivo. No entanto, quando a análise vai além da estatística mais tradicional e observa a qualidade das oportunidades criadas, o cenário muda completamente.
Os números de Expected Goals (xG) escancaram essa diferença. Enquanto o São Paulo produziu apenas 0,90 xG, o Athletico chegou a 2,05 xG, mesmo tendo apenas 31% da posse de bola. Mais do que uma vitória baseada na eficiência, foi uma partida que mostrou como controlar a bola e controlar o jogo são conceitos cada vez mais diferentes no futebol moderno.
O Tricolor teve a posse, mas não conseguiu transformá-la em ataques realmente perigosos.
Posse de bola sem profundidade
O grande problema do São Paulo não foi a quantidade de posse, mas a maneira como ela foi utilizada. Durante praticamente toda a partida, a equipe conseguiu trocar passes entre defesa e meio-campo, empurrando o Athletico para trás. Porém, essa circulação raramente acelerava o suficiente para desmontar a estrutura defensiva adversária.
A posse acabou se tornando previsível. Com pouca movimentação entre linhas e dificuldade para encontrar passes verticais, o São Paulo manteve a bola distante da área durante longos períodos. O domínio territorial existiu, mas quase nunca se converteu em situações claras de finalização.
É justamente isso que o xG evidencia. Produzir apenas 0,90 gols esperados em uma partida com quase 70% de posse mostra que a equipe passou muito tempo com a bola, mas pouco tempo criando chances reais de marcar.
O Athletico abriu mão da bola para controlar os espaços
Do outro lado, o Athletico apresentou um plano completamente diferente. A equipe paranaense aceitou defender em bloco mais baixo, diminuiu os espaços entre suas linhas e praticamente convidou o São Paulo a circular a bola nas zonas menos perigosas do campo.
Foi uma estratégia baseada em paciência. Em vez de disputar a posse, o Furacão escolheu disputar os espaços. Sempre que recuperava a bola, atacava um São Paulo desorganizado, aproveitando os momentos em que a equipe paulista já havia avançado seus laterais e seus meio-campistas.
O resultado aparece imediatamente nos números. Mesmo ficando menos com a posse, o Athletico produziu, quase três vezes mais xG que o adversário. Isso significa que criou oportunidades muito mais limpas, próximas ao gol e com maior probabilidade de terminar em bola na rede.
Quantidade de posse de bola não é nada sem a agressividade para atacar
Durante muitos anos, a posse de bola foi tratada quase como sinônimo de superioridade. Hoje, isso mudou. Cada vez mais equipes aceitam ficar sem a bola desde que consigam controlar os espaços defensivos e atacar de maneira objetiva quando recuperam a posse.
Foi exatamente isso que aconteceu. Enquanto o São Paulo acumulava passes, o Athletico acumulava situações perigosas. Em outras palavras, o Athletico produziu mais futebol ofensivo utilizando muito menos tempo com a bola.
Um aspecto que ajuda a explicar a dificuldade do São Paulo foi a pouca capacidade de atacar o espaço entre os setores defensivos do Athletico. Grande parte da circulação aconteceu pelos lados ou entre os zagueiros e volantes, sem conseguir encontrar jogadores livres entre o meio-campo e a defesa adversária.
Sem passes verticais constantes, o Athletico conseguiu manter sua linha defensiva organizada praticamente durante todo o confronto. Quando o São Paulo finalmente chegava à entrada da área, encontrava um bloco compacto, com pouco espaço para infiltrações e finalizações em boas condições.
Isso acabou obrigando o time a recorrer a cruzamentos ou chutes de menor qualidade, justamente as ações que pouco impactam o xG.
Mais do que posse, é preciso transformar domínio em perigo
A partida reforça uma tendência cada vez mais presente no futebol. Controlar a posse continua sendo importante, mas apenas quando ela gera desequilíbrios defensivos, infiltrações e finalizações de alta qualidade.
Sem isso, a bola passa a ser apenas um instrumento de controle territorial, e não de criação ofensiva. Foi exatamente esse o cenário da derrota para o Athletico.
O São Paulo terminou a partida com ampla superioridade na posse de bola, mas pouca criatividade para desmontar a defesa adversária. Enquanto isso, o Athletico mostrou que eficiência ofensiva não depende da quantidade de ataques, mas da qualidade deles. Ao transformar poucas posses em chances claras e limitar o rival a um xG de apenas 0,75, a equipe paranaense provou que, no futebol atual, a objetividade vale muito mais do que simplesmente ficar com a bola.
(Foto: Anderson Romão/AGIF)