Odegaard - futebol pelo Arsenal
Futebol

O passe que as estatísticas ignoram: por que a pré-assistência é tão importante no futebol

No futebol moderno, as discussões sobre os grandes jogadores, principalmente do setor ofensivo, costumam ficar restritas aos números superficiais de gols marcados e assistências distribuídas. Essa métrica tradicional frequentemente ignora o verdadeiro início das jogadas ofensivas. Um ataque bem construído nasce quase sempre um ou dois passes antes do toque final. É o passe que quebra a marcação, a inversão de jogo que desorganiza o bloco defensivo ou a bola enfiada no espaço que permite ao ponta cruzar com facilidade. Podemos chamar estes passes como pré-assistências ou assistências secundárias, sendo uma contribuição importante, mas que raramente aparece nas estatísticas oficiais.

Enquanto esportes como o hóquei no gelo reconhecem formalmente a pré-assistência, atribuindo crédito ao antepenúltimo jogador a tocar no disco, o futebol ficou preso a um sistema binário de avaliação.

Para quem analisa o jogo sob uma perspectiva tática, entender a importância desse passe antes da assistência é fundamental para avaliar o real impacto de jogadores que moldam o comportamento coletivo de suas equipes sem necessariamente dar o último ou o penúltimo toque para o gol.

Os grandes construtores da fase ofensiva

A importância do antepenúltimo passe fica evidente ao analisar o desempenho de diferentes perfis de meio-campistas e laterais na elite do futebol europeu. Bruno Fernandes, do Manchester United, estabeleceu um recorde histórico na Premier League ao efetuar 21 assistências em uma única temporada. Embora esse número por si só já comprove sua capacidade decisiva, o real valor do português para o coletivo está no volume de passes em profundidade e inversões de jogo que desestabilizam a defesa adversária muito antes de a bola chegar à grande área.

Em uma estatística muitas vezes não vista, Odegaard atua como o grande condutor do Arsenal. O norueguês domina o espaço entre as linhas de marcação, utilizando o corpo e a visão de jogo para disfarçar passes e encontrar companheiros em vantagem numérica. Em muitas jogadas características dos Gunners, Odegaard aciona Bukayo Saka no corredor lateral; o ponta atrai a marcação, avança e cruza para a área. O passe decisivo é creditado a Saka, mas a jogada só existiu porque Odegaard quebrou a primeira e a segunda linhas de pressão do adversário.

Outro exemplo claro de alteração na estrutura defensiva rival vem do Trent Alexander-Arnold. Conhecido por sua capacidade de passe de longa distância, o inglês frequentemente inverte o jogo do seu próprio campo defensivo para o ponta oposto. Esse passe longo obriga a defesa adversária a realizar uma recomposição rápida e desordenada. Quando o ponta recebe a bola com espaço e cruza rasteiro para o centroavante finalizar, a estatística oficial registra apenas o passe final. Porém, foi o lançamento diagonal de Alexander-Arnold que desmontou o sistema defensivo rival.

As métricas de impacto no futebol

Graças ao avanço da análise de dados, o futebol começou a valorizar aquilo que os analistas já percebiam. A criação de modelos complexos permitiu o surgimento de métricas avançadas que medem o valor da posse de bola e a progressão do jogo em sequências completas.

Conceitos como xGChain, que mede a participação de um jogador em qualquer fase da posse de bola que termine em uma finalização, e xGBuildup, que mede a contribuição de jogadores na construção de jogadas que terminam em finalização, excluindo o passe final e o chute, revelam a verdadeira importância de volantes e laterais construtores. Através desses novos conceitos no futebol, é possível notar que um passe vertical que coloca o ponta em situação de mano a mano com a defesa muitas vezes possui um valor tático e uma probabilidade de gerar perigo superiores à própria assistência, que pode ser apenas um passe lateral simples para um gol sem goleiro.

A aplicação entre analistas

O entendimento das pré-assistências e da métrica de construção de jogadas transforma o modo como analistas e scoutings avaliam a consistência de um time. Um ataque que depende exclusivamente de lampejos individuais ou de eficiência isolada nas finalizações tende a sofrer oscilações ao longo de uma temporada. Por outro lado, equipes que apresentam elevado volume de ações progressivas e participação constante no xGBuildup demonstram ter uma organização ofensiva consolidada.

Esse conhecimento é importante ao projetar o impacto de lesões no elenco. Quando uma equipe perde o seu principal artilheiro, mas mantém intacta a sua estrutura de criação e os seus passadores secundários, a tendência é que outro atacante consiga fazer parte desse volume de gols. Porém, se a ausência for a do jogador responsável por romper as linhas defensivas, todo o sistema ofensivo corre o risco de estagnar, independentemente da qualidade dos finalizadores.

O reconhecimento da pré-assistência no futebol

Apesar do crescimento do debate é pouco provável que a assistência secundária seja adotada como uma estatística oficial padronizada pelas ligas de futebol a curto prazo. Há uma preocupação justificável de que a distribuição do crédito por um gol possa banalizar o conceito de assistência.

Ainda assim, a importância analítica do penúltimo passe é extremamente importante. O futebol é um esporte coletivo, onde a beleza e a eficiência do gol raramente pertencem apenas à dupla que tocam por último na bola. Reconhecer o papel dos construtores da jogada é o primeiro passo para avaliar o jogo com a profundidade e a precisão que o esporte exige.

Créditos da foto de capa: GLYN KIRK/AFP