Aston Martin F1
Automobilismo Fórmula 1

Pré-temporada desastrosa da Aston Martin é presságio de mais um ano decepcionante

O pesadelo da Aston Martin nos testes de pré-temporada da Fórmula 1 no Bahrein terminou antes do previsto, mas não por bons motivos. Com cerca de duas horas restantes na última sessão, o time britânico precisou encerrar suas atividades devido a falhas de confiabilidade no câmbio e na unidade de potência da Honda, terminando o dia sem cronometrar tempos de volta.

Agora sob o comando técnico de Adrian Newey, a Aston Martin vive o início de uma nova era que, até aqui, é no mínimo preocupante. A quilometragem acumulada por Fernando Alonso e Lance Stroll, somando o shakedown em Barcelona aos testes em Sakhir, é a menor entre todas as equipes e não chega à metade das voltas completadas pela Mercedes.

O investimento pesado feito para tirar o renomado projetista da Red Bull, além da contratação de outros nomes importantes e da construção de uma fábrica de ponta em Silverstone, ainda não produziu resultados concretos. Em vez de dar um passo adiante após temporadas consistentes no meio do pelotão, com destaque para os pódios conquistados em 2023, a equipe regrediu e surge como uma das francas candidatas ao fundo do grid em 2026, ao lado de projetos menos experientes como Cadillac e Audi.

Honda volta a assombrar Alonso

Fernando Alonso Aston Martin
Foto: Race Pictures

Os problemas com a unidade de potência japonesa são o principal imbróglio enfrentado pela Aston Martin. O acordo marcou o retorno da parceria entre Honda e Alonso, encerrada de forma conturbada anos antes. Juntos na McLaren em 2015, no primeiro ciclo entre piloto e fabricante, o espanhol abriu o rádio para chamar a unidade publicamente de “motor de GP2”, durante o GP do Japão, em referência à atual Fórmula 2.

Mais de uma década depois, o trauma parece ressurgir. Além da aparente falta de potência, a unidade simplesmente falhou durante uma das sessões enquanto Alonso testava, limitando o programa da equipe e comprometendo a coleta de dados. A própria Honda admitiu frustração com o desempenho inicial e assumiu responsabilidade pelas limitações do AMR26.

O impacto disso tudo é significativo. A equipe chegará à abertura do campeonato, em Melbourne, sem completar o programa planejado para a pré-temporada, o que compromete não apenas o início, mas também o desenvolvimento ao longo do ano.

Segundo Stroll, o carro da Aston Martin está cerca de quatro segundos e meio mais lento que os líderes. Ainda que a afirmação possa conter exagero, os resultados reforçam a preocupação: o time passou a maior parte das sessões nas últimas posições e, na última delas, sequer conseguiu registrar tempos.

Investir sem mentalidade vencedora é ineficaz para a Aston Martin

Desde sua entrada na F1 em 2021, após adquirir a estrutura da Racing Point (ex-Force India), recursos financeiros nunca foram um obstáculo para a Aston Martin. Sob o controle do bilionário Lawrence Stroll (pai de Lance), o time rapidamente contratou o tetracampeão mundial Sebastian Vettel para sua estreia no mundial. Ainda assim, a chegada do alemão teve impacto mais simbólico do que esportivo.

Já distante do auge, Vettel vinha de temporadas irregulares, muito abaixo do auge vivido entre 2008 e 2013, e demonstrava prioridades diferentes àquela altura, como seu apoio a causas sociais. O pódio no GP do Azerbaijão de 2021 foi um último lampejo de um piloto que, embora ainda talentoso, já não apresentava a mesma motivação dos anos anteriores.

Com Alonso, o cenário mudou drasticamente. Seu desempenho consistente, após retorno competitivo pela Alpine, elevou o patamar da equipe. Os pódios frequentes e a quase pole no GP de Mônaco de 2023 indicaram potencial real de crescimento, mas também expuseram uma fragilidade estrutural: o segundo carro, pilotado pelo filho do dono da equipe, terminava longe das posições de cima e pouco ajudava no campeonato de construtores.

Lance Stroll Aston Martin
Foto: Rudy Carezzevoli / Getty Images

Stroll não é o responsável direto pelas deficiências técnicas atuais da Aston Martin e da Honda, mas simboliza uma limitação de mentalidade. Desde seu início pela Williams, em 2017, construiu uma carreira marcada por inconsistência, ainda que com momentos relevantes, como o pódio no GP do Azerbaijão em seu ano de estreia e a pole na Turquia, em 2020. Comparado a outros pilotos pagantes recentes, como Nicholas Latifi e Nikita Mazepin, seu desempenho é consideravelmente superior.

No entanto, suas limitações ficaram mais evidentes com o tempo. Rumores sobre possível aposentadoria visando se tornar tenista (posteriormente desmentidos) e sua postura frequentemente apática contribuem para a percepção de falta de urgência competitiva. Em um ambiente onde sua posição nunca esteve verdadeiramente ameaçada, a pressão e motivação por evolução individual ficam naturalmente menores.

Os três pódios e a pole position montam um currículo aceitável para pilotos da parte inferior do grid, mas insuficiente para uma equipe que almeja disputar na frente. O salto definitivo ao topo exige mais do que infraestrutura e investimento. Requer uma ruptura com a lógica de “equipe dos Stroll e a consolidação de uma cultura realmente competitiva. Sem isso, a Aston Martin está fadada a permanecer no status de eterna promessa: ambiciosa no discurso, mas limitada na prática.

(Foto principal: Reprodução / Fórmula 1)