Chelsea e Tottenham começam a nova temporada da Premier League com algo que nenhum dos dois clubes gostaria de ter conquistado: uma temporada sem futebol europeu. Depois de campanhas domésticas abaixo das expectativas, os rivais de Londres ficaram fora das competições da UEFA e agora tentam transformar a ausência no calendário em uma oportunidade de reconstrução.
Para o Chelsea, a mudança é ainda mais profunda. O clube inicia uma nova era sob o comando de Xabi Alonso, depois de uma temporada que terminou com a saída de Enzo Maresca, a passagem de Liam Rosenior e a chegada de Calum McFarlane para o fim da campanha. Além disso, os Blues quebraram o recorde britânico de transferências e apostaram em jogadores mais experientes para equilibrar um dos elencos mais jovens da última Premier League.
Do outro lado, o Tottenham também inicia um novo ciclo. Roberto De Zerbi assumiu a equipe com a missão de implementar uma nova identidade de jogo e, ao mesmo tempo, recebeu maior margem para trabalhar no mercado. Sem a preocupação de dividir atenção entre Premier League e competições continentais, Spurs e Blues terão uma temporada com menos partidas e mais tempo de treinamento. E esse detalhe pode fazer diferença.
Desde 2008/09, 11 temporadas de clubes do chamado “Big Six” (termo usado para definir os seis grandes clubes da Premier League) registraram uma mudança de uma campanha com participação europeia para outra sem competições da UEFA. Em dez desses casos, o time melhorou tanto a pontuação quanto a posição na Premier League. A média foi de 16 pontos conquistados a mais e um salto de quase cinco posições na tabela.
É uma amostra pequena e está longe de provar uma relação direta entre ausência de futebol europeu e melhora de desempenho. Ainda assim, o histórico ajuda a contextualizar o momento de Chelsea e Tottenham.
Chelsea já conhece esse cenário

O exemplo mais significativo talvez seja justamente o Chelsea. Em 2015/16, os Blues viveram uma temporada turbulenta, marcada pela saída de José Mourinho e pela chegada de Guus Hiddink. O time terminou apenas na 10ª colocação e ficou fora das competições europeias.
Na temporada seguinte, Antonio Conte assumiu o comando e transformou completamente o cenário. O Chelsea saltou de 50 para 93 pontos, conquistou a Premier League e terminou sete pontos à frente do Tottenham.
O clube voltou a experimentar algo semelhante mais recentemente. Após uma campanha decepcionante em 2022/23, o Chelsea de Mauricio Pochettino terminou a temporada seguinte em sexto lugar, com 19 pontos a mais e uma vaga na Conference League.
Xabi Alonso terá uma oportunidade parecida de reconstrução
O Chelsea chega à temporada sem o desgaste de jogos europeus e com um elenco diferente daquele encontrado por Maresca no início do último ciclo. A equipe também conta com jogadores mais experientes e algumas peças capazes de elevar o nível competitivo imediatamente.
Isso não significa, porém, que a ausência da Europa coloque automaticamente os Blues na disputa pelo título.
O verdadeiro nível da equipe ainda é difícil de determinar. Uma referência possível é justamente o início do trabalho de Maresca na última temporada. O italiano somou 30 pontos nas primeiras 19 rodadas, desempenho que projetava uma campanha próxima dos 60 pontos. Depois, porém, a equipe perdeu rendimento e venceu apenas uma das últimas sete partidas sob seu comando.
Alonso terá de recuperar justamente aquela versão mais competitiva do Chelsea, mas acrescentando consistência ao longo de uma temporada inteira.
Tottenham também pode aproveitar o calendário
O Tottenham tem um histórico mais recente que ajuda a entender o impacto da ausência europeia. Em 2022/23, os Spurs disputaram a Champions League e chegaram às oitavas de final, mas terminaram apenas em oitavo lugar na Premier League, com 60 pontos. Na temporada seguinte, sem competição europeia, subiram para a quinta posição e terminaram com 66 pontos.
Novamente, não é possível colocar toda a evolução na conta do calendário. Mudanças de treinador, contratações, lesões e o próprio desempenho dos jogadores têm peso muito maior na construção de uma campanha.
Roberto De Zerbi terá mais semanas completas para implementar suas ideias.
A boa notícia é que Roberto De Zerbi poderá trabalhar a equipe sem a necessidade de dividir o elenco entre partidas de Premier League e compromissos continentais, além de reduzir a necessidade de rotações constantes. E isso pode ser especialmente importante para um time que pretende mudar sua forma de jogar.
O italiano também recebeu mais liberdade para reforçar o elenco e terá a missão de encontrar rapidamente uma identidade capaz de afastar o Tottenham do cenário de instabilidade que marcou a última temporada.
A ausência da Europa não resolve os problemas na Premier League

É justamente aqui que Chelsea e Tottenham precisam tomar cuidado. A ausência de competições europeias pode oferecer mais descanso, tempo de treinamento e possibilidade de trabalhar melhor o elenco. Mas ela não corrige automaticamente os problemas que fizeram os dois clubes terminar tão abaixo das expectativas.
No Chelsea, Xabi Alonso terá de equilibrar um elenco jovem com jogadores mais experientes e encontrar uma estrutura que permita aos principais talentos evoluírem sem que o time perca competitividade. Desse modo, o impacto de nomes como Morgan Rogers, Cole Palmer e das novas contratações também será determinante.
No Tottenham, a questão passa pela adaptação ao modelo de De Zerbi, pelo retorno de jogadores importantes e pela capacidade dos novos reforços de elevar o nível da equipe. Ou seja: o calendário oferece uma oportunidade, mas não entrega pontos.
Para efeito de comparação, o próprio Manchester United mostrou isso na última temporada. O clube disputou apenas 40 partidas e o calendário mais enxuto foi apontado como um dos fatores que contribuíram para a melhora significativa de sua campanha e para o retorno à disputa por uma vaga na Champions League. Ainda assim, a ausência europeia foi apenas parte de uma equação muito maior.
Chelsea e Tottenham precisam transformar tempo em evolução
Por isso, a temporada pode representar uma espécie de teste para os dois clubes. Chelsea e Tottenham chegam à Premier League sem a distração do futebol europeu, mas também sem a margem de erro proporcionada por uma campanha continental. O foco estará quase integralmente no campeonato nacional.
Para os Blues, a expectativa passa pela capacidade de Xabi Alonso de transformar um elenco talentoso, mas irregular, em uma equipe capaz de competir na parte de cima da tabela.
Para o Tottenham, De Zerbi terá a missão de dar identidade a um time que precisa recuperar confiança e consistência.
A história recente mostra que clubes do “Big Six” frequentemente aproveitam uma temporada sem Europa para melhorar seus números domésticos. Mas o passado também deixa claro que o calendário, sozinho, não faz uma equipe evoluir.
Chelsea e Tottenham terão mais tempo para treinar, descansar e desenvolver seus projetos. Agora, precisarão provar que conseguem transformar essa vantagem em desempenho.
Depois de uma temporada em que os dois clubes ficaram longe do lugar que imaginavam ocupar, talvez a ausência da Europa seja justamente o espaço que faltava para começar a reconstrução.
Créditos da foto de capa: Reprodução/Chelsea FC



