O encerramento da janela de transferências deixou alguns clubes da Premier League com elencos reduzidos e poucas alternativas para lidar com lesões. Em determinadas equipes, um único problema físico pode comprometer o planejamento de toda a temporada, principalmente em posições nas quais não existe um substituto direto.
Liverpool e Everton são dois exemplos claros dessa situação. Os clubes têm apenas um centroavante de origem disponível no elenco principal. O Liverpool ainda não conta com Hugo Ekitike, que está lesionado, enquanto o Everton não conseguiu concluir a contratação de Folarin Balogun no último dia da janela.
A situação do Everton é ainda mais delicada. David Moyes possui somente 18 jogadores de linha à disposição. O número reduzido limita as opções para montar o time, administrar o desgaste físico e enfrentar uma sequência de partidas. No Liverpool, o problema está concentrado principalmente na lateral direita, posição que também ficou sem muitas alternativas.
Outros grandes clubes enfrentam dificuldades semelhantes. O Manchester City negociou Omar Marmoush com o Tottenham e ficou com Erling Haaland como único centroavante de origem. Manchester United e Newcastle podem sofrer bastante caso percam um lateral esquerdo por lesão, enquanto o Arsenal tem poucas opções para atuar pelo lado esquerdo do ataque.
Regra atual limita alternativas após o fechamento da janela

A crítica mais óbvia é que os clubes deveriam ter se planejado melhor durante os dois meses de mercado. De fato, todas as equipes tiveram tempo para contratar e equilibrar seus elencos. No entanto, o futebol apresenta situações que não podem ser totalmente previstas, como lesões graves, problemas contratuais e negociações que fracassam nos últimos minutos.
Depois do fechamento da janela, os clubes da Premier League ficam praticamente limitados a duas alternativas. A primeira é promover jogadores das categorias de base. A segunda é contratar atletas livres no mercado. O problema é que os jogadores disponíveis geralmente estão em fim de carreira ou não atuam em partidas oficiais há bastante tempo.
A legislação inglesa possui uma regra específica para emergências envolvendo goleiros. Caso um clube não tenha nenhum goleiro experiente registrado disponível, pode solicitar uma autorização especial para fazer um empréstimo de curto prazo. Para jogadores de linha, não existe uma solução semelhante.
Esse cenário é diferente do encontrado em outras competições europeias. A Ligue 1, por exemplo, possui a chamada regra do “joker”. Assim que a janela de verão é encerrada, os clubes franceses podem fazer uma contratação nacional adicional, desde que cumpram determinadas condições. Essa possibilidade permanece aberta até o dia anterior ao início da janela de janeiro.
A regra é utilizada com frequência. Quase todos os anos, pelo menos um clube da Ligue 1 recorre ao mecanismo para reforçar o elenco. Nice e Le Havre são citados como equipes que avaliam utilizar essa alternativa para contratar mais um jogador.
O “joker” tradicional não deve ser confundido com o “joker médico”. Essa segunda modalidade permite contratações em situações ainda mais específicas, como quando um goleiro sofre uma lesão grave, quando um jogador fica afastado por mais de três meses durante um compromisso com a seleção francesa ou em caso de falecimento de um atleta.
O exemplo de Valentin Rongier e o risco da antiga regra espanhola

A regra francesa também apresenta uma característica importante: não existem cláusulas de rescisão nos contratos dos jogadores. Dessa forma, os clubes não são obrigados a aceitar propostas por atletas que poderiam ser contratados como “jokers”.
Na prática, isso faz com que as transferências sejam direcionadas principalmente a jogadores que não conseguiram mudar de clube antes do encerramento da janela. Foi o que aconteceu com Valentin Rongier em 2019.
O meio-campista estava prestes a deixar o Nantes para defender o Marseille, mas os dois clubes não conseguiram concluir toda a documentação dentro do prazo. No dia seguinte, o Marseille utilizou a regra do “joker” para finalizar a contratação. Rongier, portanto, conseguiu atuar pelo novo clube mesmo depois do fechamento oficial da janela.
A situação era diferente na Espanha, onde a La Liga possuía uma regra de emergência mais aberta. Até o verão de 2020, os clubes podiam contratar um jogador para substituir outro que tivesse sofrido uma lesão grave. O problema é que a regra permitia o acionamento de cláusulas de rescisão, algo comum nos contratos dos atletas espanhóis.
O caso mais polêmico aconteceu em fevereiro de 2020, quando o Barcelona contratou Martin Braithwaite, do Leganés, após a lesão de longa duração de Ousmane Dembélé. O Barcelona pagou os 18 milhões de euros da cláusula de rescisão do atacante dinamarquês e conseguiu tirá-lo do Leganés contra a vontade do clube.
A equipe de Leganés não teve poder para impedir a transferência e também não recebeu autorização para contratar um substituto. No fim daquela temporada, o clube foi rebaixado sem seu principal atacante. O episódio provocou tanta revolta que a regra acabou sendo abandonada.
Nos Estados Unidos, a MLS possui outro modelo. Os clubes podem fazer contratações de curto prazo caso se enquadrem na regra de “Extreme Hardship”. Para isso, precisam ter menos de 16 jogadores de linha ou menos de dois goleiros disponíveis.
Uma regra semelhante na Premier League poderia criar uma solução para casos como o de Richarlison. O atacante não foi registrado pelo Tottenham na competição e poderia ser emprestado a outro clube que estivesse precisando de um centroavante. A operação seria positiva para todas as partes, já que o brasileiro teria a oportunidade de jogar, enquanto o Tottenham preservaria seu valor de mercado para uma futura negociação.
Atualmente, porém, essa alternativa não existe. Richarlison está envolvido em uma disputa judicial com o Tottenham por causa de uma rescisão contratual de alto custo. Um sistema inspirado na Ligue 1 poderia evitar situações desse tipo e dar aos clubes uma maneira de corrigir problemas inesperados sem permitir que os times mais poderosos simplesmente retirem jogadores importantes de adversários diretos.


