A saída de Rodri parecia deixar um buraco praticamente impossível de preencher no Manchester City. Afinal, durante anos, o espanhol foi o jogador responsável por organizar o ritmo da equipe e funcionar como uma espécie de ponto de equilíbrio entre defesa e ataque. Só que, após um investimento pesado no mercado, Enzo Maresca começa a mostrar que talvez não esteja procurando um novo Rodri, mas sim uma maneira diferente de montar o meio-campo dos Citizens.
A vitória por 2 a 0 sobre o Porto, na última terça-feira, pela Champions League, reforçou essa impressão. O desempenho do Manchester City teve momentos irregulares, algo reconhecido pelo próprio treinador, mas a equipe conseguiu controlar o adversário e saiu de Portugal sem sofrer gols.
O resultado foi construído com dois gols de Erling Haaland, mas um dos grandes destaques da noite foi Ayyoub Bouaddi.
Aos 18 anos, o jovem contratado junto ao Lille por cerca de 86 milhões de libras fez sua primeira partida como titular pelo Manchester City e mostrou personalidade de sobra para atuar em um dos setores mais importantes da equipe.
Bouaddi impressiona em sua primeira chance
O jovem meio-campista não precisou de muito tempo para demonstrar por que o Manchester City decidiu fazer um investimento tão alto em sua contratação.
Contra o Porto, Bouaddi apresentou calma, qualidade técnica e segurança com a bola nos pés. Mesmo pressionado em diversos momentos, o jogador parecia confortável para receber a bola e participar da construção das jogadas.
Sua atuação chamou atenção até de Haaland.
Após a partida, o atacante revelou ter conversado com o presidente Khaldoon Al Mubarak sobre o companheiro de equipe e classificou o jovem como uma verdadeira “joia”. Segundo o norueguês, Bouaddi também vem impressionando nos treinamentos.
Os números ajudam a explicar a segurança demonstrada pelo meio-campista. Contra o Porto, Bouaddi terminou a partida com 98% de precisão nos passes, um aproveitamento impressionante para alguém que fazia sua primeira partida como titular pelo clube.
A comparação com Rodri surgiu naturalmente. Mas é justamente aí que o Manchester City precisa ter cuidado.
Manchester City não precisa criar um “novo Rodri”
Rodri foi um jogador único dentro do sistema construído por Pep Guardiola. Durante anos, o espanhol funcionou como o grande controlador do meio-campo, ditando o ritmo das partidas e dando equilíbrio para uma equipe que constantemente jogava com muitos jogadores no campo ofensivo.
Depois da grave lesão sofrida em 2024, porém, o cenário mudou.
O espanhol já não conseguia manter a mesma regularidade física e passou a enfrentar dificuldades para atuar em uma sequência intensa de jogos. Com sua saída no último mercado, o Manchester City perdeu uma referência, mas também ganhou a oportunidade de reconstruir o setor de outra maneira.
Bouaddi não precisa carregar o peso de ser chamado de “novo Rodri”.
O apelido de “Baby Rodri”, inclusive, já mostrou no passado como esse tipo de comparação pode se tornar um problema. Nico González, quando esteve no clube, precisou lidar com expectativas enormes por causa da associação com o espanhol.
Bouaddi tem características que podem lembrar Rodri, especialmente pela tranquilidade na posse de bola e pela capacidade de controlar o ritmo do jogo. Mas o Manchester City parece ter encontrado uma solução diferente.
Em vez de buscar um único jogador para fazer tudo, Maresca agora possui três meio-campistas capazes de dividir essa responsabilidade.
Anderson, Enzo Fernandez e Bouaddi formam novo trio
A reformulação do Manchester City foi cara. Muito cara. Somando os investimentos em Elliot Anderson, Enzo Fernandez e Ayyoub Bouaddi, o clube desembolsou cerca de 326 milhões de libras para transformar seu meio-campo.
Por esse valor, obviamente, a expectativa é enorme. Mas o início da nova formação tem sido promissor.
Elliot Anderson é considerado uma das peças mais importantes desse processo. O meio-campista já vinha apresentando números impressionantes quando atuava pelo Nottingham Forest e, na temporada passada, superou Rodri em diferentes métricas de posse de bola.
Agora no Manchester City, Anderson surge como o jogador mais preparado para ocupar uma função mais próxima da posição de volante.
Contra o Porto, ele começou no banco de reservas, mas entrou na partida e demonstrou segurança tanto com quanto sem a bola.
A diferença para Bouaddi está principalmente na experiência. Anderson já conhece melhor a Premier League e tem mais rodagem no futebol inglês, enquanto o jovem francês ainda está dando seus primeiros passos em um dos maiores clubes da Europa.
Isso não significa, porém, que exista uma disputa simples entre os dois. Maresca pode utilizar os dois juntos.
Meio-campo com funções flexíveis
A principal vantagem do novo Manchester City é justamente a variedade de características disponíveis.
Bouaddi é, naturalmente, o jogador mais próximo de um camisa 6. Anderson e Enzo Fernandez possuem características mais associadas à função de camisa 8, mas os três apresentam mobilidade suficiente para ocupar diferentes espaços dentro do campo.
Essa flexibilidade é fundamental para o modelo de jogo de Maresca. O treinador gosta de jogadores capazes de trocar posições e participar de diferentes momentos da construção das jogadas. Não se trata apenas de colocar três bons meio-campistas em campo e esperar que o talento individual resolva tudo.
A conexão entre eles é o ponto mais importante. E, até agora, o Manchester City parece estar encontrando essa química rapidamente. Enzo Fernandez adiciona outro elemento importante ao trio: capacidade ofensiva.
Além de ajudar na construção, o argentino consegue atuar em posições mais avançadas e oferece uma ameaça maior perto da área adversária. Sua chegada pode ajudar o clube a recuperar uma característica que, em alguns momentos, ficou menos presente no meio-campo após a saída de Ilkay Gündogan.
O alemão costumava aparecer constantemente na área e marcar gols importantes, principalmente durante os melhores anos da era Guardiola. Encontrar alguém com esse perfil não é simples. Mas Enzo pode oferecer uma versão diferente dessa função.
Vitória contra o Porto mostrou evolução
Maresca reconheceu que o Manchester City complicou mais do que deveria uma partida que terminou com vitória por 2 a 0. A análise não é totalmente errada.
O City demorou para matar o jogo e teve momentos em que não conseguiu apresentar o domínio ofensivo esperado. Mesmo assim, existe uma diferença importante entre uma atuação irregular e uma partida em que a equipe realmente corre perigo.
O Porto praticamente não ameaçou.
Jogando em casa e sem ter perdido no Estádio do Dragão durante todo o ano de 2026, o clube português encontrou enormes dificuldades para criar oportunidades. Não conseguiu sequer acertar uma finalização no alvo. E muito disso passa pelo controle exercido pelo meio-campo do Manchester City.
A equipe ainda está distante daquele futebol extremamente sincronizado visto durante os melhores momentos de Guardiola. Naquela época, tudo parecia funcionar automaticamente, com Rodri como o grande organizador do sistema.
Agora, Maresca está construindo algo diferente. Talvez menos dependente de um único jogador.
Bouaddi ganha confiança dentro do elenco
Um dos aspectos mais interessantes da atuação de Bouaddi contra o Porto foi a confiança demonstrada pelos próprios companheiros.
Mesmo sendo um adolescente e fazendo sua primeira partida como titular, o meio-campista recebeu a bola constantemente em situações de pressão. Rayan Cherki, por exemplo, utilizou Bouaddi diversas vezes como apoio para manter a posse e acelerar a movimentação ofensiva.
Isso demonstra algo importante. No Manchester City, ninguém parece estar tratando o jovem como apenas um projeto para o futuro. Bouaddi já é visto como uma opção capaz de ajudar no presente.
Sua personalidade também chamou atenção. O francês não tentou aparecer com jogadas desnecessárias ou transformar cada posse de bola em um momento individual. Pelo contrário, apresentou controle e maturidade para entender o ritmo da partida.
Para um jogador de 18 anos, esse tipo de tranquilidade vale muito.
Ainda é cedo para criar comparações definitivas ou imaginar que o jovem será o próximo grande nome da história do Manchester City. Duas ou três boas atuações não são suficientes para colocar alguém no mesmo patamar de Rodri. Mas o potencial está claramente ali.
Clássico contra o Manchester United será o grande teste
Depois da vitória sobre o Porto, o Manchester City terá agora um desafio ainda maior. O clássico contra o Manchester United, em Old Trafford, será o principal teste da nova configuração do meio-campo até agora.
Elliot Anderson pode retornar à equipe titular para ocupar uma função mais defensiva, enquanto Enzo Fernandez deve atuar em uma posição mais avançada. Bouaddi também deve ter participação, mesmo que comece a partida no banco de reservas.
O confronto promete ser especialmente importante porque os dois clubes passaram por mudanças significativas em seus respectivos meios-campos. Controlar o centro do campo em um clássico de Manchester pode definir praticamente tudo.
A equipe que conseguir ter mais posse, recuperar a bola rapidamente e controlar o ritmo da partida terá uma vantagem enorme. Para Maresca, será mais uma oportunidade de testar a nova identidade do Manchester City.
Resposta para Rodri pode estar no coletivo
Durante muito tempo, parecia impossível imaginar o Manchester City sem Rodri.
O espanhol era tão importante que a simples ausência em uma partida já provocava debates sobre como a equipe conseguiria manter seu nível. Encontrar um substituto com as mesmas características parecia uma missão quase impossível.
Talvez porque realmente fosse. Nenhum jogador pode simplesmente aparecer e ser uma cópia perfeita de Rodri. Mas o Manchester City pode não precisar disso.
Com Elliot Anderson, Enzo Fernandez e Ayyoub Bouaddi, Maresca encontrou diferentes perfis capazes de dividir responsabilidades. Um oferece maior controle e experiência, outro acrescenta qualidade ofensiva e criatividade, enquanto o jovem francês surge como uma promessa com características ideais para organizar o jogo.
O investimento de 326 milhões de libras ajuda, é claro. Por esse valor, seria justo esperar um meio-campo de respeito. Mas dinheiro não garante entrosamento imediato.
O Manchester City ainda está no início desse processo, mas os primeiros sinais são positivos. A atuação contra o Porto mostrou que a equipe pode encontrar equilíbrio sem depender de um único jogador para comandar tudo.
Rodri foi embora deixando um espaço gigantesco. A resposta de Maresca, porém, parece clara: em vez de procurar um novo Rodri, o Manchester City decidiu construir um meio-campo inteiro para ocupar esse vazio.
Foto: Getty Images



