Quillan Salkilld poderia ter escolhido um caminho mais confortável para seu primeiro main event no UFC. Poderia ter esperado uma luta em um grande evento, diante de uma arena lotada e, quem sabe, contra um adversário teoricamente mais acessível. O australiano, porém, parece não ter muita paciência para esse tipo de cálculo.
Aos 26 anos, Salkilld vai liderar um card do UFC no Apex, em Las Vegas, contra Mateusz Gamrot, um dos grapplers mais difíceis da divisão dos leves. E, se a escolha surpreende quem olha de fora, para o próprio lutador ela faz todo sentido.
Quando recebeu a ligação de sua equipe avisando que teria pela frente o polonês em um combate principal, Salkilld sequer esperou a frase terminar para aceitar. O local pouco importava. O tamanho da arena também. O que realmente interessava era o adversário.
“Eu disse sim antes mesmo de minha empresária terminar”, contou o australiano.
Essa postura ajuda a explicar a velocidade com que Quillan Salkilld vem subindo no UFC. Em apenas 18 meses na organização, o lutador deixou de ser uma promessa que precisava provar seu valor para se tornar um dos nomes mais interessantes da nova geração dos leves.
Agora, terá pela frente talvez o teste mais completo de sua jovem carreira.
Salkilld não se importa com o tamanho do palco
A escolha do Apex como palco do primeiro main event de Salkilld pode parecer estranha.
O australiano acabou de nocautear Beneil Dariush em uma arena lotada em seu país natal, vivendo um dos momentos mais importantes de sua trajetória. Em vez de voltar imediatamente para um grande evento, acabou escalado para o principal combate de uma noite no centro de treinamento do UFC, diante de um público muito menor.
Para Salkilld, entretanto, isso não diminui absolutamente nada.
O lutador acredita que ser o protagonista de um main event no Apex tem tanto valor quanto ocupar posições importantes em um card de pay-per-view. E existe uma lógica por trás disso: pela primeira vez, ele terá cinco rounds à disposição e a responsabilidade de comandar um evento inteiro.
Mais do que o local, o que importa é o nível do adversário. E Gamrot está longe de ser uma escolha confortável.
Gamrot é o tipo de adversário que pode tirar Salkilld da zona de conforto
Mateusz Gamrot construiu sua reputação justamente em cima da capacidade de transformar lutas em verdadeiros testes de resistência mental e física.
O polonês é um dos principais wrestlers da categoria e tem como especialidade controlar os adversários durante longos períodos no chão. Contra Esteban Ribovics, conseguiu quatro quedas e manteve o argentino sob controle por quase sete minutos antes de finalizar a luta com um triângulo de braço.
Contra Ludovit Klein, repetiu a receita. Foram seis quedas e longos minutos controlando o adversário no solo.
Não é exatamente o tipo de currículo que alguém procura quando quer uma noite tranquila em Las Vegas.
Gamrot também já venceu Arman Tsarukyan, atualmente considerado um dos principais nomes da divisão. Ou seja, Salkilld não está enfrentando apenas um wrestler competente. Está enfrentando um lutador que já provou que consegue impor seu estilo contra alguns dos melhores leves do planeta.
E o australiano sabe disso.
“Não vou escolher adversários fáceis”
A atitude de Salkilld fica ainda mais clara quando se lembra que foi ele próprio quem pediu a luta contra Gamrot.
Depois de vencer Dariush em maio, o australiano aproveitou a entrevista para chamar o polonês. Não foi uma provocação aleatória ou uma tentativa de escolher um adversário conveniente.
Era justamente o contrário.
Salkilld quer enfrentar os nomes que podem colocá-lo em situações difíceis.
“Não vou chamar ninguém que eu ache que vai ser fácil. Não sou covarde. Quero essas lutas difíceis”, afirmou.
A declaração combina com o caminho que o australiano vem construindo no UFC. Até aqui, ele não parece interessado em fazer contas para chegar ao topo. Seu objetivo é enfrentar os melhores e descobrir até onde consegue chegar.
Para um lutador de apenas 26 anos, isso pode ser uma qualidade enorme. Ou uma receita para acelerar demais o processo.
Ascensão de Salkilld foi meteórica
A trajetória de Quillan Salkilld no UFC começou oficialmente com uma vitória devastadora.
Em sua estreia, o australiano precisou de apenas 19 segundos para nocautear Anshul Jubli. O resultado provocou uma grande festa entre os fãs australianos e colocou seu nome imediatamente no radar.
Depois, Yanal Ashmouz conseguiu levá-lo até o fim dos três rounds, mas a luta mostrou outra faceta de Salkilld.
Em vez de simplesmente buscar o nocaute, o australiano utilizou seu wrestling para derrubar o israelense oito vezes e neutralizar boa parte de sua ofensiva.
Foi uma demonstração importante de que ele não depende exclusivamente do poder de suas mãos. Mas foi contra Nasrat Haqparast que Salkilld realmente pareceu chegar a outro patamar.
O combate aconteceu no UFC 321 e foi aceito com apenas dez dias de antecedência. Mesmo sem um camp tradicional, o australiano encontrou um chute alto perfeito no meio do primeiro round e conseguiu um nocaute espetacular.
A vitória serviu como cartão de visitas definitivo para a divisão dos leves. Ele tinha apenas 25 anos.
Perigo de crescer rápido demais
O problema de uma ascensão tão acelerada é que as expectativas acompanham o ritmo.
Salkilld chegou ao UFC há apenas 18 meses e já está em seu primeiro main event. Uma vitória sobre Gamrot pode colocá-lo muito perto do grupo de elite da divisão, justamente quando ele ainda está construindo experiência. Mas o australiano parece lidar bem com essa pressão.
Ele atribui parte disso à mentalidade australiana de não levar situações sérias tão a sério. Em momentos de pressão, prefere se divertir e não transformar a luta em algo maior do que realmente é.
É uma postura interessante para alguém que está começando a enfrentar adversários cada vez mais perigosos. E também combina perfeitamente com sua personalidade.
Salkilld admite que ainda se sente jovem e até imaturo em algumas situações, especialmente no humor e na maneira de agir. Ao mesmo tempo, garante que sempre imaginou viver momentos como este.
Segundo ele, passou cerca de oito anos se preparando mentalmente para as grandes oportunidades que agora começam a aparecer.
Quillan Salkilld quer fazer Vegas virar festa
Existe ainda uma segunda parte do plano. Salkilld não quer apenas vencer Gamrot. Ele já imaginou como pretende comemorar depois da luta.
O pai do australiano está em Las Vegas e levou uma garrafa de rum Bundaberg, tradicionalmente associada à Austrália. O plano do lutador é simples: vencer Gamrot, abrir a garrafa, acabar com ela em poucos minutos e depois sair pela cidade para aproveitar a noite.
A confiança é tanta que a comemoração já parece ter sido marcada antes mesmo de a luta acontecer. Mas existe uma pequena questão no caminho. Gamrot.
Maior teste até aqui
Pela primeira vez, Salkilld entra em uma luta do UFC como favorito por uma margem pequena, e não como o grande favorito que vinha sendo em seus combates anteriores.
Também será sua primeira luta a 9.500 milhas de distância de casa.
Em vez do apoio de uma arena australiana lotada, ele estará no deserto de Nevada. Em vez de um adversário que pode aceitar a trocação, terá pela frente um especialista em wrestling que pode tentar transformar cada segundo da luta em uma disputa física.
É justamente por isso que esse combate é tão importante.
Uma vitória mostrará que Salkilld não é apenas um nocauteador empolgante. Mostrará que ele consegue lidar com um adversário capaz de atacar diretamente sua principal arma: a capacidade de lutar em pé e encontrar finalizações rápidas.
Uma derrota, por outro lado, não apagará sua ascensão. Mas poderá revelar que ainda existe um caminho a percorrer antes de o australiano estar pronto para os nomes que ocupam o topo da categoria.
Salkilld já escolheu o caminho mais difícil
Aos 26 anos, Quillan Salkilld está diante de uma oportunidade que pode acelerar ainda mais sua carreira.
Ele já venceu Dariush, Haqparast e outros adversários importantes. Já mostrou poder de nocaute, wrestling e capacidade de atuar sob pressão. Agora, terá cinco rounds para provar que também consegue sobreviver a um dos melhores especialistas em grappling da divisão.
E o mais curioso é que ninguém obrigou Salkilld a aceitar esse desafio.
Ele pediu. O australiano poderia ter escolhido um caminho mais seguro, mas prefere descobrir rapidamente até onde seu talento pode levá-lo. Contra Gamrot, terá exatamente esse teste.
Se conseguir manter a luta em pé, seu poder de nocaute pode transformar a noite em poucos segundos. Se for levado ao chão, precisará mostrar que evoluiu o suficiente para não ficar preso ao jogo do polonês.
O desafio é enorme. Mas Salkilld parece gostar justamente disso.
Agora resta saber se, depois de cinco rounds ou alguns segundos de explosão, ele realmente conseguirá abrir aquela garrafa de Bundaberg, sair pelas ruas de Las Vegas e comemorar como já imaginou.
Porque, para o australiano, aparentemente, vencer a luta é apenas a primeira parte da noite.
Foto: Ed Mulholland/Zuffa LLC



