Mastantuono Real Madrid West Ham
Futebol Copa do Mundo

Real Madrid tem mais um fora da Copa e perde protagonismo no maior evento do mundo

Durante décadas, o Real Madrid acostumou o futebol a enxergar a Copa do Mundo como uma extensão natural do próprio clube. Em praticamente toda edição do torneio, o gigante espanhol entrava em campo de maneira indireta através de protagonistas espalhados pelas principais seleções do planeta.

Foi assim com Zidane, Ronaldo, Casillas, Sergio Ramos, Modric, Kroos e Cristiano Ronaldo. O Mundial sempre serviu também como vitrine do domínio madridista no futebol global. Em 2026, porém, o cenário é diferente. E talvez pela primeira vez em muitos anos o clube espanhol atravesse uma Copa do Mundo mais como espectador privilegiado do que como centro gravitacional do torneio.

A confirmação de que Franco Mastantuono ficou fora da lista da Argentina simboliza perfeitamente esse momento. O jovem meia, tratado internamente como um dos grandes projetos esportivos do Real Madrid para o futuro, vinha sendo apontado na imprensa europeia como uma possível surpresa de Lionel Scaloni para a Copa. A expectativa em Madri era enorme. Não apenas pela qualidade técnica do jogador, mas porque a competição poderia servir como apresentação definitiva do argentino ao planeta antes mesmo de sua consolidação no Santiago Bernabéu.

No entanto, Scaloni optou pela cautela. A Argentina chega ao Mundial com uma base extremamente consolidada desde o título no Catar e priorizou jogadores mais experientes e já inseridos na dinâmica do elenco. Mastantuono acabou vítima justamente da profundidade técnica argentina. O meia segue sendo visto como joia geracional, mas terá de esperar mais quatro anos para disputar o principal torneio do futebol mundial.

A ausência do argentino ganha ainda mais peso quando observada dentro de um contexto maior: o Real Madrid chega à Copa com menos protagonistas absolutos do que em outras gerações. E isso não acontece apenas pela situação de Mastantuono.

Seleção espanhola vai para a Copa sem nenhum jogador do Real Madrid

A seleção espanhola também virou exemplo claro dessa perda de influência. O caso mais emblemático é o de Dean Huijsen. Contratado junto ao Bournemouth por cifras altíssimas e tratado como um investimento estratégico para liderar a renovação defensiva do clube, o zagueiro era visto em Valdebebas como potencial titular da Espanha nos próximos anos. A diretoria madridista enxergava na Copa uma oportunidade de acelerar sua consolidação internacional e transformá-lo rapidamente em uma referência europeia.

Só que Huijsen ficou fora da convocação espanhola. Luis de la Fuente preferiu apostar em atletas mais consolidados e já integrados ao sistema da seleção. Para o Real Madrid, a ausência representa um duro golpe de imagem. Afinal, o clube investiu pesado justamente na ideia de construir uma nova geração de protagonistas globais. Ver um dos seus principais projetos sequer participar do maior evento do futebol mundial evidencia como essa transição ainda está distante de ser concluída.

Assim, com Huijsen fora da Copa, a Espanha vai para a Copa do Mundo pela primeira vez sem nenhum jogador do Real Madrid, o que simboliza exatamente a falta de protagonismo merengue na seleção. Além disso, o maior problema para o Real é que os nomes que efetivamente estarão na Copa chegam cercados de dúvidas.

As dúvidas que cercam os principais jogadores do Real Madrid na Copa

Kylian Mbappé, por exemplo, desembarca no torneio vivendo um momento muito diferente daquele imaginado quando finalmente assinou com o clube espanhol. Durante anos, o francês foi tratado como sucessor natural de Cristiano Ronaldo no imaginário madridista. O jogador capaz de carregar sozinho o peso simbólico do Real Madrid no futebol mundial. Só que sua temporada em Madri foi marcada por turbulências, pressão excessiva e questionamentos sobre encaixe coletivo.

Mbappé segue sendo um dos melhores jogadores do planeta, evidentemente, mas já não chega à Copa envolto naquela sensação de inevitabilidade que carregava em 2022. Existe hoje um debate legítimo sobre sua capacidade de liderança em e sobre como ele se encaixa dentro do vestiário. A França continua fortíssima, mas o atacante entra no torneio tentando recuperar uma aura que parece menos dominante do que há alguns anos.

Jude Bellingham vive situação semelhante, embora por motivos diferentes. O inglês talvez seja o jogador do Real Madrid que mais simbolize o presente esportivo do clube. Talentoso, competitivo e com personalidade, tornou-se rapidamente peça central em Madri. Mas sua posição dentro da seleção inglesa ainda parece depender de um processo de afirmação definitiva com Thomas Tuchel.

A Inglaterra chega à Copa cercada de expectativa, mas também de dúvidas táticas. Tuchel busca construir um time mais equilibrado e menos dependente de individualidades, e isso exige adaptações de jogadores acostumados a protagonismo absoluto nos clubes. Bellingham ainda é visto como peça importante, mas precisará transformar talento em liderança incontestável. Isso quer dizer marcar mais e tentar se equilibrar dentro de um contexto. O Mundial aparece como grande teste para confirmar se ele já está pronto para assumir esse papel em nível global.

Já Vinicius Junior talvez represente o caso mais complexo de todos. O brasileiro continua sendo um dos rostos mais importantes do Real Madrid e provavelmente o jogador mais decisivo do clube nas últimas temporadas. Porém, sua seleção chega ao Mundial longe de ser considerada favorita absoluta.

O Brasil vive processo de reconstrução, mudança de identidade e tentativa de retomada de protagonismo internacional. A chegada de Carlo Ancelotti ao comando técnico trouxe esperança, mas também escancarou o tamanho do trabalho necessário. A seleção brasileira ainda parece distante da solidez apresentada por equipes como Espanha, França ou até Inglaterra.

Isso afeta diretamente Vinicius Jr. No Real Madrid, ele atua dentro de uma estrutura desenhada para potencializar suas virtudes. Na seleção, ainda busca consistência, continuidade e protagonismo emocional em partidas decisivas. A Copa surge como oportunidade gigantesca para mudar essa narrativa, mas também como risco esportivo importante caso o Brasil novamente fique abaixo das expectativas.

No fim das contas, o Real Madrid chega ao maior evento do futebol mundial vivendo algo raro: uma Copa sem domínio. O clube continuará representado, naturalmente. Ainda terá estrelas espalhadas entre as principais seleções. Mas falta aquele sentimento de centralidade absoluta que historicamente acompanhava o escudo madridista em torneios internacionais.

Talvez isso seja apenas parte inevitável de uma transição geracional. Talvez seja o reflexo de um futebol global mais pulverizado, em que o protagonismo já não pertence de forma tão clara a um único clube. Ou talvez seja simplesmente o preço pago por apostar em projetos de longo prazo que ainda precisam amadurecer.

O fato é que, desta vez, o Real Madrid verá a Copa do Mundo mais pelas bordas do que pelo centro. E para um clube acostumado a transformar qualquer grande palco em extensão do Bernabéu, isso por si só já representa uma mudança histórica.

Foto: Angel Martinez/Getty Images.