O futebol sempre passa por transformações, surgindo novas tendências no esporte que, só se tornam evidentes quando os números são colocados à mesa. Na Copa do Mundo de 2026, um fundamento não muito utilizado e muitas vezes tratado como mera formalidade para reiniciar o jogo assumiu o papel de arma tática letal. Os arremessos laterais mudaram de patamar. Embora o volume total tenha caído para as marcas mais baixas do século, a eficiência e a agressividade com que os times cobram essas bolas transformaram a linha lateral em um complemento da linha de fundo.
O fenômeno que já vinha ganhando força nos gramados europeus ficou de vez nos gramados norte-americanos. Até o momento, o torneio já registrou seis gols vindos diretamente de cobranças de lateral, uma marca impressionante que iguala a soma de tudo o que foi produzido nas edições de 2010, 2014, 2018 e 2022 juntas. A última vez que a Copa do Mundo testemunhou um momento semelhante de gols a partir da linha lateral foi em 1994, justamente na última vez em que os Estados Unidos sediaram a competição, sugerindo que o ambiente dos estádios projetados para o futebol americano parece inspirar os atletas a buscarem o jogo aéreo por vias pouco convencionais.
A eficiência dos laterais na área na Copa do Mundo
A análise detalhada dos gols mostra que os lançamentos de longa distância para a área se tornaram um recurso padrão de desestabilização defensiva. A já eliminada Tchéquia se despediu como a equipe mais eficiente do torneio nesse quesito, gerando duas jogadas de gol a partir dos braços de Vladimír Coufal. Outro exemplo prático veio da Tunísia, que explorou a jogada para balançar as redes da Suécia com Omar Rekik, mostrando que cruzar a bola com as mãos passou a ser uma jogada ensaiada, treinada exaustivamente pelas comissões técnicas durante o período de preparação.
Em termos de volume, o Canadá de Jesse Marsch adotou essa estratégia como pilar das jogadas ofensivas, registrando 20 arremessos longos direcionados à área adversária apenas na fase de grupos, quase o dobro da segunda colocada, a Nova Zelândia. O ápice desse comportamento ocorreu quando três gols saíram de jogadas laterais no mesmo dia. Na partida entre Turquia e Estados Unidos, os americanos chegaram ao empate após um lançamento lateral de Mark McKenzie que a defesa turca não conseguiu afastar, permitindo o chute de Sebastian Berhalter. No fim, a Turquia fez o mesmo com uma cobrança rápida e curta que pegou a zaga adversária desatenta e selou a vitória por 3 a 2.
O fim da cera
O grande ponto para entender por que os laterais ficaram mais perigosos não reside apenas na evolução técnica dos batedores, mas sim em uma mudança drástica no regulamento. Em fevereiro, a FIFA introduziu uma regra experimental para a Copa do Mundo que, se o árbitro considerar que um atleta está retardando a cobrança, uma contagem regressiva visual de cinco segundos é iniciada. Caso a bola não seja colocada em jogo a tempo, a posse é revertida para o adversário. A medida reduziu o tempo médio de execução de um lateral de 15,7 segundos no Catar para apenas 13 segundos em 2026.
Essa medida imposta pela arbitragem acabou jogando a favor dos ataques durante a Copa do Mundo. Ao retirar dos defensores os segundos que utilizavam para recompor as linhas e organizar a marcação por encaixe dentro da área, a regra forçou as equipes a cobrarem o lateral de forma rápida e instintiva. O resultado é o caos defensivo. Com menos tempo para se preparar, os zagueiros são pegos de surpresa por cobranças velozes, transformando o que antes era um momento de calma e cera em um ataque rápido.
A tendência atual da Copa do Mundo mostra que conceder um lateral perto da própria área já não é a alternativa mais segura para aliviar a pressão, fazendo que as defesas das equipes fiquem atentas com este tipo de jogada.
Créditos da foto de capa: Michael Regan/FIFA/Getty Images