Fernando Alonso Renault
Automobilismo Fórmula 1

Renault deixa a Fórmula 1 sem brilho, mas com muita história na categoria

A ausência da Renault no grid da Fórmula 1 a partir de 2026 é o ponto final de uma das histórias mais ricas, influentes e contraditórias do esporte. Poucos fabricantes moldaram tanto a F1 moderna quanto a Renault. E quase nenhum conseguiu desperdiçar tamanho capital histórico da forma como a marca francesa fez na última década.

O último suspiro de um motor Renault, rodando discretamente no fundo do pelotão em Abu Dhabi, foi simbólico. Não houve cerimônia, emoção ou sensação de despedida à altura do legado construído ao longo de décadas. O som abafado do V6 híbrido não carregava nada da identidade que tornou a Renault reconhecível no mundo inteiro. Aquilo não era apenas o fim de um programa esportivo. Era o retrato de uma empresa que, há anos, deixou de tratar a Fórmula 1 como prioridade e passou a enxergá-la apenas como um ativo corporativo incômodo.

A história da Renault na Fórmula 1

A história da Renault na F1 sempre foi marcada por extremos. Quando teve autonomia, fome e clareza de objetivos, dominou o esporte. Quando permitiu que decisões políticas, interferência de conselho e prioridades externas tomassem o controle, afundou. O contraste entre esses dois momentos explica por que um gigante terminou como figurante.

Desde sua primeira equipe relevante, ainda nos anos 1970, a Renault foi uma força de inovação. Foi pioneira ao apostar no turbo quando ninguém acreditava, mesmo pagando o preço do ridículo com o apelido de “chaleira amarela”. Persistiu, desenvolveu tecnologia e mudou para sempre a Fórmula 1. A primeira vitória de um carro turbo, em casa, foi um manifesto técnico.

Os anos seguintes mostraram um padrão que se repetiria ao longo da história da marca: genialidade técnica acompanhada de instabilidade política. Alain Prost saiu campeão moral de um projeto que nunca soube protegê-lo. Críticas internas, decisões precipitadas e uma gestão errática minaram um time que tinha potencial para muito mais. Ainda assim, mesmo nesse período turbulento, a Renault empurrou a F1 para frente em termos de tecnologia.

A verdadeira era dourada veio quando a marca entendeu que não precisava ser protagonista política, mas sim técnica. A parceria com a Williams, no início dos anos 1990, é talvez o maior exemplo disso. A Renault forneceu motores brilhantes a um time que tinha Adrian Newey, organização e liberdade criativa. O resultado foi um domínio quase absoluto. Títulos, vitórias, poles e uma reputação de excelência que parecia inabalável.

Curiosamente, foi no auge que a Renault saiu. Cinco títulos de construtores em seis anos, números que hoje seriam tratados como dinastia histórica, não foram suficientes para convencer a empresa a permanecer. A decisão de deixar a F1 no final de 1997 reforçou um traço recorrente: a Renault nunca foi constante. Sempre entrou, saiu, voltou e saiu de novo, conforme o humor corporativo do momento.

O retorno nos anos 2000

O retorno como equipe de fábrica nos anos 2000, agora em Enstone, seguiu o mesmo roteiro. Um início instável, crescimento gradual e, quando tudo finalmente se encaixou, sucesso absoluto. Os títulos de Fernando Alonso em 2005 e 2006 não foram acidentais. Vieram de um projeto com autonomia total, liderança clara e foco exclusivo em vencer. A Renault novamente mostrou que, quando quer, sabe ganhar.

Mas bastou Alonso sair para o castelo ruir. Sem uma estrela, sem continuidade técnica e com interferências cada vez maiores da cúpula, a equipe voltou ao meio do pelotão, lugar do qual jamais conseguiu escapar em suas encarnações seguintes. A diferença em relação ao passado é que, dessa vez, a Renault parecia menos disposta a lutar.

O capítulo da parceria com a Red Bull salvou momentaneamente a relevância da marca. Mesmo após o desastre moral do Crashgate, os motores Renault voltaram ao topo com Sebastian Vettel. Quatro títulos consecutivos mascararam problemas que já existiam. A dependência de soluções específicas, como o escapamento soprado, escondia fragilidades estruturais que seriam brutalmente expostas com a chegada da era híbrida.

Os problemas que acabaram com uma gigante

A partir de 2014, a Renault simplesmente errou. Subestimou a revolução tecnológica, atrasou desenvolvimento, falhou em confiabilidade e perdeu credibilidade. Enquanto Mercedes e, depois, Ferrari e Honda avançavam, a Renault insistia em discursos internos, justificativas políticas e promessas futuras. O resultado foi devastador: clientes insatisfeitos, nenhuma equipe interessada em seus motores e uma reputação técnica arruinada.

O fato de a Renault ter se tornado o único fabricante sem clientes no grid é o retrato mais cruel desse fracasso. Na Fórmula 1 moderna, isso é sentença de morte. Sem relevância esportiva, sem vitórias e sem influência política, a marca tornou-se descartável. A decisão de fechar Viry-Chatillon e abandonar os motores próprios foi o último ato de um processo de esvaziamento que já durava anos.

O que fica é um paradoxo difícil de ignorar. A Renault é uma das maiores potências da história da Fórmula 1. Venceu com Williams, Benetton, Red Bull e consigo mesma. Mudou a tecnologia do esporte mais de uma vez. Criou memórias icônicas, sons inesquecíveis e campeões lendários. E, ainda assim, sai pela porta dos fundos, sem honra, sem protagonismo e sem deixar saudade no presente.

O silêncio do grid em 2026 não será apenas mecânico. Será simbólico. Representará o fim de uma era em que fabricantes entravam na Fórmula 1 para vencer, não apenas para justificar planilhas. A Renault não morreu por falta de capacidade técnica. Morreu por falta de convicção. E essa talvez seja a maior derrota que um gigante pode sofrer.

(Foto: Getty Images)