Os Rockets terminaram as últimas temporadas mostrando uma evolução evidente dentro da NBA. A equipe de Houston voltou a competir em alto nível, conquistou vitórias importantes e deixou para trás o período de reconstrução mais turbulento. Ainda assim, existe uma discussão que ganhou força nas redes sociais e que levanta uma pergunta interessante: será que o sistema ofensivo do time realmente favorece o desenvolvimento dos seus jogadores?
O debate surgiu após um estudo publicado pelo analista David Lee, que classificou Houston como a equipe com o pior ambiente ofensivo para o desenvolvimento individual nas últimas duas temporadas. Como toda análise baseada em números, ela divide opiniões. Afinal, estatísticas ajudam a explicar o jogo, mas nunca contam toda a história. Ainda assim, quando os números encontram aquilo que os olhos mostram em quadra, vale a pena prestar atenção.
Números dos Rockets contam uma história curiosa
Antes de qualquer crítica mais pesada, é importante contextualizar. A realidade é que o ataque dos Rockets não foi ruim do ponto de vista estatístico.
Na temporada passada, a equipe registrou um Offensive Rating de 117,5 pontos por 100 posses de bola, ocupando a oitava posição da NBA. No campeonato anterior, o índice havia sido de 114,9, suficiente para ficar em 12º lugar na liga. Ou seja, olhando apenas para a eficiência ofensiva, Houston parece estar longe de viver qualquer crise.
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Mas o basquete raramente é tão simples.
Uma estatística positiva não significa, necessariamente, que o sistema ofensivo seja sofisticado ou que maximize o potencial de cada atleta. Em muitos momentos, o ataque dos Rockets dependeu muito mais da capacidade individual dos jogadores e do excelente trabalho nos rebotes ofensivos do que da criação coletiva de jogadas.
Esse detalhe faz bastante diferença quando se pensa em evolução a longo prazo.
Eficiência não significa desenvolvimento
A principal crítica ao trabalho ofensivo comandado por Ime Udoka não é sobre vencer jogos. O treinador mostrou competência ao transformar Houston em uma equipe competitiva, física e extremamente intensa defensivamente.
O problema aparece quando a bola está nas mãos do ataque.
Grande parte das posses termina em situações de isolamento, nas quais um jogador tenta resolver a jogada sozinho. Esse tipo de estratégia funciona quando o elenco possui atletas capazes de criar arremessos difíceis constantemente. Basta lembrar de equipes lideradas por nomes como Kevin Durant, Luka Doncic ou Shai Gilgeous-Alexander.
Só que construir todo um sistema baseado nisso exige jogadores de elite nesse fundamento. E é justamente aí que surge a dúvida sobre os Rockets.
Mesmo com a chegada de Kevin Durant, um dos maiores pontuadores da história da NBA, depender excessivamente de jogadas individuais pode limitar o crescimento dos atletas mais jovens do elenco.
Kevin Durant melhora o presente, mas não resolve tudo
A troca que levou Kevin Durant para Houston naturalmente elevou o nível ofensivo da equipe. Substituir jogadores como Dillon Brooks e Jalen Green por um dos maiores cestinhas da história praticamente garante um salto de qualidade.
Durant continua sendo uma máquina de pontuar em situações de um contra um e aumenta significativamente o teto ofensivo dos Rockets.
Entretanto, o veterano também evidencia um ponto importante: ele talvez seja o único jogador do elenco capaz de sustentar um ataque tão dependente do isolamento durante uma longa temporada.
Na última campanha, Durant produziu mais de um ponto por posse em jogadas desse tipo, desempenho que o colocou entre os melhores da liga. Alperen Sengun e Amen Thompson também apresentaram bons números, mas em um volume bem menor.
Isso mostra que Houston possui talento individual, porém ainda não o suficiente para fazer desse estilo sua identidade definitiva.
Sengun pode ser a chave para um ataque mais criativo
Entre todos os jogadores dos Rockets, talvez ninguém represente melhor o potencial pouco explorado da equipe do que Alperen Sengun.
O pivô turco é muito mais do que um finalizador próximo à cesta. Sua visão de jogo permite atuar como um organizador ofensivo, encontrando companheiros livres e facilitando movimentações sem a bola.
Diversas equipes da NBA utilizam pivôs com esse perfil para construir ataques muito mais dinâmicos. Denver faz isso com Nikola Jokic. Sacramento explorou bastante Domantas Sabonis nesse papel. Até Draymond Green exerce função semelhante no Golden State Warriors.
Houston Rockets possui um jogador com características parecidas, mas ainda utiliza relativamente pouco esse recurso.
Um sistema baseado em mais movimentação, cortes em direção à cesta e circulação rápida da bola poderia gerar arremessos de maior qualidade e, ao mesmo tempo, acelerar o desenvolvimento de jovens talentos como Amen Thompson.
Desafio de Ime Udoka daqui para frente
A discussão não passa por dizer que Ime Udoka faz um trabalho ruim. Muito pelo contrário.
Desde sua chegada, os Rockets recuperaram competitividade, criaram uma identidade defensiva muito forte e voltaram a ser levados a sério dentro da Conferência Oeste.
O próximo passo do Houston Rockets, porém, talvez seja justamente tornar o ataque menos previsível.
Houston pode continuar explorando o talento de Durant nos momentos decisivos, mas também precisa encontrar maneiras de envolver mais seus jovens jogadores dentro de um sistema coletivo. Quanto mais alternativas ofensivas a equipe possuir, menor será a dependência de jogadas individuais e maior será a margem para crescer nos próximos anos.
No fim das contas, os números ajudam a levantar o debate, mas não entregam todas as respostas. Eles apenas reforçam uma impressão que muitos torcedores já tinham assistindo aos jogos: os Rockets são eficientes, competitivos e venceram bastante, mas ainda têm espaço para construir um ataque mais criativo, equilibrado e preparado para disputar o título da NBA de forma consistente.
Foto: Getty Images
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