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Análise: Rodri não será um novo Busquets, mas pode ser o jogador que interrompe o caos no meio-campo do Barcelona

Durante anos, o Barcelona procurou uma resposta para uma pergunta que parecia impossível de responder: como substituir Sergio Busquets? O clube tentou diferentes soluções, alternou jogadores de características distintas e, em alguns momentos, simplesmente aceitou conviver com a ausência de um volante capaz de organizar o time a partir da frente da defesa.

A chegada de Rodri não significa que essa procura terminou. O espanhol não é um novo Busquets, e tentar transformá-lo nisso seria reduzir justamente aquilo que faz dele um dos melhores meio-campistas do futebol mundial. Mas sua contratação pode resolver um problema mais urgente do Barcelona: dar ordem a um setor que passou boa parte da última temporada alternando controle e caos.

O Barça oficializou a contratação do jogador de 30 anos junto ao Manchester City por cerca de €60 milhões fixos, com possibilidade de chegar a €76,5 milhões em bônus. Rodri assinou até 2030 e chega depois de conquistar a Copa do Mundo de 2026 com a Espanha, sendo eleito o melhor jogador do torneio.

O problema do Barcelona não era apenas encontrar um volante

A comparação com Busquets é inevitável. O antigo camisa 5 era muito mais do que um jogador posicionado à frente dos zagueiros. Ele interpretava o espaço, oferecia uma linha de passe constantemente, sabia quando acelerar e quando congelar uma jogada e, sobretudo, fazia o Barcelona parecer ter sempre um jogador a mais.

Rodri possui algumas dessas características, mas chega com um repertório diferente. É mais físico, mais agressivo na disputa, mais perigoso atacando a área e possui uma presença defensiva que pode ser ainda mais importante para o modelo de Hansi Flick.

Isso interessa especialmente porque o Barcelona passou por momentos de instabilidade no meio-campo na última temporada. A equipe precisou lidar com diferentes combinações em razão das lesões e ausências de jogadores importantes. Frenkie de Jong, por exemplo, sofreu problemas físicos em momentos decisivos, enquanto Pedri também teve períodos afastado. Em fevereiro, Flick chegou a testar Marc Casadó como primeiro volante, com Dani Olmo e Fermín López à frente dele.

O resultado foi um meio-campo que muitas vezes dependia demais da disponibilidade de Pedri e De Jong para funcionar. Quando os dois estavam bem, o Barcelona conseguia controlar o jogo, acelerar a circulação e encontrar os espaços que o sistema de Flick exige. Quando um deles desaparecia, entretanto, a estrutura ficava muito mais vulnerável. E é justamente aí que Rodri pode fazer diferença.

Rodri pode ser o ponto de equilíbrio que faltava

O Barcelona de Flick gosta de jogar em ritmo alto. A pressão começa no campo adversário, a linha defensiva fica adiantada e os laterais participam agressivamente da construção. É uma equipe que assume riscos porque precisa recuperar a bola rapidamente quando perde a posse.

O problema desse modelo é óbvio: quando a pressão é quebrada, alguém precisa proteger o espaço que ficou para trás. Rodri é provavelmente um dos melhores jogadores do mundo nessa tarefa.

No Manchester City, sua importância não estava apenas nos passes. Ele funcionava como mecanismo de segurança para todo o sistema de Pep Guardiola. Quando um lateral avançava, Rodri podia ocupar o espaço deixado. Quando um meia perdia a bola, ele tinha leitura suficiente para interromper a transição. Quando o adversário recuava, ele também tinha qualidade para comandar a circulação.

É por isso que a contratação pode representar uma mudança estrutural no Barcelona. Em vez de pedir que Pedri ou De Jong sejam simultaneamente organizadores, construtores e responsáveis por proteger a defesa, Flick passa a ter um jogador especializado em dar sustentação para os demais.

Pedri pode ser o grande beneficiado

Existe uma consequência da chegada de Rodri que pode ser mais importante do que qualquer estatística individual: Pedri poderá jogar mais perto daquilo que faz melhor.

O espanhol é um dos grandes talentos da geração atual, mas frequentemente precisa assumir responsabilidades demais na construção. Com Rodri atrás, Pedri pode receber em zonas mais avançadas, combinar com Lamine Yamal e Dani Olmo e atacar espaços sem precisar pensar constantemente em como proteger a defesa depois da perda da bola.

A mesma lógica vale para De Jong. Em determinadas partidas, Flick poderá utilizar Rodri como primeiro volante e deixar o holandês atuar alguns metros à frente, aproveitando sua condução e sua capacidade de quebrar linhas. Em outras, De Jong poderá formar a dupla de meio-campo com Rodri, oferecendo ao Barcelona uma saída extremamente segura.

Essa flexibilidade é especialmente importante porque a chegada do espanhol não obriga Flick a abandonar o 4-2-3-1 que utilizou com frequência. Ao mesmo tempo, oferece ao treinador a possibilidade de experimentar um 4-3-3 com Rodri como referência defensiva e Pedri mais à frente.

Ou seja: Rodri não chega apenas para ocupar uma posição. Ele chega para aumentar o número de sistemas que o Barcelona pode utilizar sem perder equilíbrio.

O Barcelona passou por momentos em que o problema não era criar futebol, mas controlar aquilo que acontecia depois que o jogo saía do roteiro.nSem um volante dominante, o Barcelona muitas vezes precisava compensar a falta de proteção através do posicionamento coletivo. Quando o time conseguia pressionar alto, parecia irresistível. Quando o adversário conseguia escapar da primeira pressão, porém, surgiam espaços para explorar.

A grave lesão de De Jong antes do início da nova temporada tornou essa questão ainda mais evidente. O holandês sofreu uma lesão no ligamento colateral medial do joelho direito e deverá ficar fora por meses, aumentando a necessidade de uma solução para o setor.

Rodri não elimina o problema das lesões. Mas oferece algo que o Barcelona não tinha em abundância: uma referência clara para organizar o meio-campo independentemente de quem esteja ao seu lado.

Não é Busquets, e isso pode ser justamente o melhor

A tentação será comparar cada partida de Rodri com o que Busquets fazia. É uma comparação inevitável, mas pouco útil. Busquets era o cérebro de um modelo de futebol específico. Rodri é outro tipo de jogador, desenvolvido em outra escola e acostumado a outra dinâmica de jogo. Ele não precisa reproduzir Busquets para resolver o problema que o Barcelona enfrenta.

Na realidade, o Barça talvez não precise de um novo Busquets. Precisa de um jogador que interrompa o caos. Rodri pode ser esse jogador porque combina controle técnico, força física, leitura defensiva e experiência em equipes que passam a maior parte do tempo tentando dominar o adversário. No City, ele foi o ponto de equilíbrio entre a obsessão pelo controle de Guardiola e a necessidade de proteger uma defesa constantemente exposta.

Agora, terá de fazer algo semelhante em um Barcelona que quer jogar de maneira agressiva com Flick. O desafio será descobrir quanto desse jogador ainda existe aos 30 anos, especialmente depois de uma sequência de problemas físicos que incluiu uma lesão de ligamento cruzado anterior e uma cirurgia recente nas costas.

Mas, se estiver fisicamente inteiro, a contratação pode representar muito mais do que a chegada de uma estrela. Pode ser a peça que faltava para que Pedri deixe de carregar o meio-campo sozinho, para que Flick tenha mais liberdade tática e para que o Barcelona consiga transformar seu futebol ofensivo em algo mais sustentável.

Rodri não precisa ser o novo Busquets. Basta ser o primeiro Rodri do Barcelona. E, para um time que passou tanto tempo procurando equilíbrio entre talento e controle, isso já pode significar uma enorme diferença.

(Foto: Divulgação/Barcelona)