Rodri Espanha Real Madrid
Futebol La Liga UEFA Champions League

Real Madrid perde Rodri, mas aceita que não dá para vencer todas

O Real Madrid viu Rodri numa festa, trocou olhares com o jogador, chegou no espanhol, mas no final, ele quis ficar com outro. No fim das contas, o volante escolheu o Barcelona. E, por mais que perder um jogador desse calibre para o maior rival nunca será interessante, ou legal, o clube merengue não pretende transformar o episódio em uma novela, simplesmente vai aceitar o chapéu.

Rodri optou pelo Barça principalmente por uma questão de identificação com o estilo de jogo e com o ambiente que deve encontrar no clube catalão. Desta vez, portanto, não houve uma disputa vencida pelo Real Madrid nos detalhes. O espanhol simplesmente tomou outra direção, deixando Florentino Pérez e companhia com aquela famosa mão estendida que não encontrou aperto.

Não é algo a que o Real Madrid esteja particularmente acostumado. Nos últimos mercados, o clube conseguiu convencer jogadores que também tinham outras possibilidades importantes na mesa. Cucurella, Bernardo Silva e Dumfries, por exemplo, acabaram escolhendo o Santiago Bernabéu mesmo podendo olhar para o outro lado da rivalidade.

Agora, as coisas mudaram de lado. E, em Valdebebas, a sensação é de que faz parte do jogo.

Real Madrid nunca chegou a formalizar proposta por Rodri

É importante colocar a história em seu devido tamanho. Apesar do interesse, o Real Madrid nunca chegou a apresentar uma proposta oficial ao Manchester City por Rodri.

A situação começou a ganhar força em abril, quando o clube inglês apresentou ao meio-campista uma proposta de renovação. Rodri, naquele momento, estudava a possibilidade de não aceitar o novo contrato e deixou em aberto a possibilidade de buscar novos caminhos.

Meses depois, o Real Madrid recebeu autorização para conversar com o jogador e seu entorno. Foi então que o clube espanhol começou a avaliar de maneira mais concreta quanto custaria a operação.

A avaliação interna era de que um valor na casa dos 60 milhões de euros seria razoável para a negociação. O número ficou bem abaixo dos 100 milhões de euros que chegaram a ser especulados em alguns momentos e, em tese, tornaria a operação bastante interessante para os madridistas.

Havia, entretanto, uma condição fundamental: o jogador precisava querer ir para Madrid. E esse “sim” nunca chegou.

Sem a aprovação definitiva de Rodri ao projeto do Real Madrid, o clube decidiu não avançar para uma negociação formal com o Manchester City. A diretoria preferiu não entrar em uma disputa financeira por um jogador que ainda não havia demonstrado vontade de vestir a camisa branca.

Rodri preferiu o Barcelona

As conversas entre as partes, apesar do desfecho, deixaram uma impressão positiva dentro do Real Madrid. O clube ficou satisfeito com a postura de Rodri e de seu entorno durante todo o processo.

O espanhol simplesmente entendeu que o Barcelona oferecia um projeto mais alinhado às suas características. A identificação com o estilo de jogo do clube catalão e com o próprio ambiente do vestiário pesou bastante na decisão. E esse é justamente um dos motivos pelos quais o Real Madrid não pretende fazer grande drama.

Rodri não teria escolhido o Barcelona por uma questão financeira, segundo a avaliação feita em Madrid. Foi uma decisão esportiva e pessoal, baseada principalmente na maneira como o jogador enxerga o futebol e no papel que pretende desempenhar.

Para o Real, é uma derrota no mercado. Sem maquiagem. Só que perder uma negociação não significa necessariamente perder a temporada.

Real Madrid já tinha um plano B

A principal razão para o clube não entrar em pânico é simples: Rodri nunca foi tratado como uma peça indispensável para que o projeto funcionasse.

Na ideia inicial de planejamento, a função que o espanhol poderia desempenhar no meio-campo já estava reservada a Bernardo Silva. Rodri seria, nesse cenário, a cereja do bolo, e não necessariamente o ingrediente que impediria a receita de funcionar sem ele.

A chegada do espanhol também teria consequências importantes no elenco. Com Rodri no grupo, alguém provavelmente precisaria deixar o clube para abrir espaço em uma região do campo que já conta com diversas alternativas.

Aurélien Tchouaméni despertava interesse de clubes da Premier League, enquanto Eduardo Camavinga também era observado por equipes inglesas. Federico Valverde, por outro lado, fechou imediatamente qualquer possibilidade de saída.

Sem Rodri, o cenário ficou mais simples. O Real Madrid não precisa fazer uma venda às pressas, nem precisa buscar outro jogador de última hora apenas para preencher uma lacuna criada pelo fracasso de uma negociação.

Elenco está fechado em 95%

A avaliação interna é de que o elenco do Real Madrid está praticamente fechado, cerca de 95%.

A única possibilidade capaz de mudar esse planejamento seria o surgimento de uma proposta astronômica por algum jogador importante. Nesse caso, a diretoria poderia precisar voltar ao mercado para repor uma saída inesperada.

Fora isso, a tendência é que o grupo permaneça como está.

É uma postura bastante diferente daquela que poderia ser adotada caso Rodri fosse tratado como uma necessidade absoluta. O clube identificou o jogador como uma grande oportunidade, tentou entender a possibilidade de contratação e, ao perceber que o meio-campista preferia outro projeto, simplesmente seguiu em frente.

Não houve leilão. Não houve desespero. E, principalmente, não houve uma contratação alternativa feita apenas para dar uma resposta ao Barcelona.

Mourinho muda o ambiente do vestiário

Se Rodri não chegou, outra mudança importante já aconteceu no Real Madrid: o ambiente do vestiário.

A chegada de José Mourinho provocou uma transformação significativa dentro do grupo. Depois de um último período marcado por problemas internos e certa toxicidade no ambiente, o treinador português conseguiu estabelecer uma atmosfera diferente nos primeiros momentos da temporada.

A palavra de ordem é harmonia, mas sem confundir tranquilidade com acomodação.

Mourinho trabalha para criar um ambiente competitivo, no qual os jogadores disputem espaço de maneira saudável e entendam que ninguém tem lugar garantido simplesmente pelo nome ou pelo histórico.

Essa talvez seja uma das maiores armas do Real Madrid para a temporada.

Porque um elenco pode ter estrelas, grandes contratações e jogadores capazes de decidir partidas. Mas, se o vestiário estiver rachado, todo esse talento pode virar uma coleção de problemas.

A missão de Mourinho, portanto, vai muito além da escalação.

Ausência de um organizador continua sendo o problema

Apesar do clima positivo, existe uma questão que o Real Madrid não pode ignorar: Rodri era justamente o tipo de jogador que o clube procura há algum tempo.

O espanhol oferece controle, leitura de jogo, qualidade na saída de bola e capacidade para organizar o time a partir de uma posição mais recuada. Não é simplesmente um volante que protege a defesa. É um jogador que dita o ritmo. E essa característica faz falta.

O Real Madrid terá de encontrar uma maneira de sobreviver mais uma temporada sem um organizador desse nível. Tchouaméni pode exercer funções importantes, Camavinga oferece dinâmica e Valverde acrescenta intensidade, mas nenhum deles reproduz exatamente aquilo que Rodri entrega.

Essa é uma das grandes incógnitas do projeto.

O clube pode até considerar o elenco 95% fechado, mas os 5% restantes representam justamente uma das discussões táticas mais interessantes da temporada.

Perder para o Barcelona também faz parte

Para o Real Madrid, a contratação de Rodri pelo Barcelona certamente não passa despercebida. Ver um dos melhores meio-campistas do mundo escolher o maior rival sempre incomoda. Mas o clube também sabe que o mercado da bola funciona assim.

Durante anos, o Real Madrid ganhou disputas que pareciam destinadas ao Barcelona. Agora, perdeu uma. Não é o fim do mundo, muito menos motivo para mudar todo o planejamento.

O mais importante é que a diretoria não permitiu que a negativa de Rodri alterasse a estratégia. O espanhol escolheu o Barcelona por afinidade. O Real Madrid aceitou a decisão e seguiu trabalhando. Agora, a resposta terá de ser dada dentro de campo.

Se Mourinho conseguir manter o novo ambiente do vestiário, organizar o meio-campo com as peças disponíveis e fazer o time funcionar sem o tão desejado organizador, a ausência de Rodri pode rapidamente deixar de ser assunto.

Porque, no fim das contas, o Real Madrid pode até ter perdido uma batalha no mercado. Mas ainda acredita que não perdeu a guerra.

Foto: AFP