Se você é torcedor do Corinthians, provavelmente já sabe que este texto não será uma resenha de enaltecimento do atleta Rodrigo Garro. O argentino que já era alcunhado de “diferente” desde seu tempo de Talleres, parece não ter mudado seus trejeitos de influenciar exponencialmente uma partida de futebol – mas diferente do que vimos em 2024 e parte de 2025, Garro, no momento, aparenta influenciar negativamente uma equipe que ainda tem muito a provar nesta temporada.
Alguém que era para ser uma esperança de mudar o cenário conturbado, o argentino parece ter se tornado apenas mais uma peça comum em meio a um elenco que consegue cada vez mais se beneficiar de sua ausência em campo.
A “montanha-russa” na temporada alvinegra
A temporada de 2026 do Corinthians, até o momento, tem sido uma desilusão para a torcida alvinegra. Mesmo com o título da Supercopa Rei diante de uma equipe mais qualificada como o Flamengo, o trabalho de Dorival Júnior é contestável em dois aspectos: numericamente, o Timão soma 8 vitórias, 6 empates e 5 derrotas no ano, incluindo uma eliminação para o Novorizontino nas semifinais do Paulistão e cinco jogos sem vencer no Brasileirão.

Já no outro aspecto, de desempenho, o panorama é bem caótico. O time de Dorival, apesar de ter inúmeros problemas em diversos setores, apresenta padrões interessantes, principalmente na fase de construção – algo enfatizado com a chegada de atletas técnicos como Matheus Pereira e Allan, além das caras já conhecidas como Breno Bidon, Memphis Depay, Matheus Bidu e André Carrillo.
E perceba-se que, nesta relação de atletas, um nome que até pouco tempo era visto como o verdadeiro “craque” e “camisa 10” desta equipe, não foi citado. De certa forma, os problemas do Corinthians na temporada parecem estar centrados neste jogador específico, mesmo que de forma indireta.
O fim do GYM
Colocando em evidência os atletas com maior responsabilidade no plantel do Timão, é impossível não citar o trio GYM. Memphis tem, de fato, deixado a desejar em 2026, mas esta discussão aparenta ter um grau a mais de complexidade, como sua questão física ou seu encaixe no esquema tático. Yuri Alberto pode ser irritante por vezes, mas é de longe, o jogador mais produtivo e mais empenhado em honrar o espírito “raçudo” que a torcida tanto exige de seus atletas.
E no que parece ser uma junção de todos os pontos negativos destes dois atletas, trazemos à tona o ponto principal desta análise: Rodrigo Garro.

Desde o momento em que pisou em Itaquera, dava para perceber: não se tratava de um meia comum ou especialista na finalização longa e bola parada como tantos outros “gringos” que vestiram a camisa alvinegra nos últimos anos (Sornoza, Otero, Cazares, Rojas, entre outros). Garro era um jogador diferente. E para muitos torcedores, um dos últimos atletas capazes de receberem a alcunha do “camisa 10 clássico”.
Mesmo deixando o futebol argentino em um contexto quase que “apocalíptico” da liga local, Garro não sentiu em nada o ritmo do futebol brasileiro. Impressionava não apenas sua habilidade com o drible curto, de sair da pressão rapidamente e abrir a jogada, mas principalmente, de ser o “arco” para a “flecha” que era Yuri Alberto. Quando se trata de um atacante explosivo e de muita velocidade, é necessário ter alguém que consegue acioná-lo em espaços específicos – e Garro conseguia com certa tranquilidade.
O argentino desempenhava bem todas as características positivas esperadas de um meia-armador, mesmo que dentro dos padrões do futebol brasileiro. Outro ponto que conquistou a torcida alvinegra foi justamente sua capacidade de correr mais do que o necessário: o argentino sempre foi bem nas transições defensivas e nunca se absteve de dar carrinhos quando preciso.
E apenas dois anos depois da sua excelente temporada de estreia, o argentino tem sido um dos jogadores mais decepcionantes no que muitos esperavam ser uma temporada de amadurecimento de um time cercado e afetado por uma das maiores crises já vistas no cenário futebolístico.
De camisa 10 para 8, de um jogador 10 para 5
Seu rebaixamento de camisa 10 para 8 parece ser mais simbólico do que uma simples mudança numérica – e mesmo assim, Garro sequer consegue ser um jogador “nota 8” para um Corinthians em meio a um início conturbado de temporada. Quando olhamos para o lado estatístico, o argentino até aparenta ter um bom nível de contribuição, com três assistências e um gol marcado no ano. Mas em termos de desempenho, sua dificuldade em atingir um bom e consistente nível é notória.
É importante destacar que, obviamente, sua séria lesão no joelho e seu envolvimento em um acidente fatal na Argentina durante a pré-temporada de 2025 são fatores que indiscutivelmente influenciaram na sua queda de rendimento nos últimos dois anos. E claro, quando colocamos um olhar analítico sobre seu contexto na atual temporada e seu desempenho em campo, estes fatores serão sim levados em consideração.

Independente das circunstâncias de sua queda de desempenho, é possível afirmar que Garro fez somente dois bons jogos no ano de 2026: o primeiro, contra o Athletico Paranaense no Brasileirão, onde marcou o gol da vitória alvinegra. O segundo, no empate em 0 a 0 contra a Chapecoense, partida em que ainda terminou como “vilão” por não aproveitar chances claras de gol. Por outro lado, podemos elencar diversas partidas onde o argentino teve um desempenho abaixo do esperado: Santos, Velo Clube, Palmeiras, São Bernardo, Portuguesa (sua pior atuação na temporada) e Novorizontino pelo Paulistão e duelos contra Cruzeiro, Santos e Flamengo no Campeonato Brasileiro.
Quando colocamos um olhar minucioso no que é objetivamente sua pior partida no ano, diante da Portuguesa pelo mata-mata do campeonato estadual, é possível identificar gestos, movimentos e decisões que causam espanto quando comparamos seu momento com o que vimos no ano de 2024. Na ocasião, o argentino atuou durante toda a segunda etapa.
A falta de entendimento de espaços
Avaliando o perfil característico de um camisa 10 no futebol moderno, uma de suas principais qualidades é o mapeamento dos espaços deixados pela defesa adversária. Neste cenário, colocando Rodrigo Garro em evidência, é impossível definir se a questão física é um fator definitivo na ausência desta valência em seu jogo. Uma lesão grave no joelho diminuiu consideravelmente a mobilidade de um atleta – mas independente do motivo, a falta de profundidade do meia é um fator que atrapalha e muito o estilo de jogo de Dorival Júnior.
Em um breve e inofensivo exemplo mas que determina bem o comportamento do argentino na atual temporada, podemos ver Garro, em um movimento ofensivo do time alvinegro, estático no setor da intermediária. Existe um enorme espaço onde o meia poderia atacar nas costas do marcador lateral – alternativamente, ele poderia segurar sua posição, dando opção para Allan ou Matheuzinho, caso o lateral fosse acionado em profundidade.
No entanto, o argentino acaba com qualquer possibilidade de participação ou evolução da jogada fazendo um movimento contrário à direção da posse do Corinthians, recuando na tentativa de ser uma opção segura de reconstrução da jogada para Allan, mas falhando em perceber a movimentação da marcação adversária, que impedia qualquer tipo de passe de ser realizado em sua direção.
Pode parecer algo simples e de pouca influência, mas este é um comportamento que se repete inúmeras vezes em diferentes jogos no ano de 2026. Observe-se que não é uma situação onde Garro tem de ser a “flecha” no ataque alvinegro, mas sim, de se posicionar da maneira mais inteligente para conseguir gerar progressão no ataque. No duelo diante do Novorizontino, também é possível observar esta questão.
Em uma boa roubada de bola na saída do Novorizontino, Matheus Bidu tem em Garro a melhor opção de passe – o argentino está centralizado, longe de qualquer marcação. Porém, mais uma vez o meio-campista falha em conseguir identificar o espaço que está atacando, e se desloca exatamente para onde Memphis Depay está se locomovendo, congestionando um espaço onde já contava com dois jogadores alvinegros e deixando o meio-campo totalmente vazio. Quando Bidu toca para André próximo a linha lateral, Garro percebe o erro em seu movimento e se desloca para a marca do pênalti, como se fosse um centroavante – é como se nesta jogada, o argentino fosse um “repelente” de possibilidades onde ele conseguiria influenciar positivamente as ações em campo.
Pouco depois, vemos um lance semelhante. Bidon tem a posse e faz um passe “quadrado” para Memphis Depay, que domina de costas para a intermediária. Mesmo com a falha técnica de continuação, o lance era promissor – Garro estava centralizado e era o homem mais avançado da equipe no setor.
Se entendemos que seu problema está dentro de um contexto de limitação física, é notório que sua movimentação nesta jogada causa confusão. Com a possibilidade de se deslocar para a esquerda, causar a dúvida no marcador que estava próximo de Bidon e gerar uma opção de passe para Depay, o argentino tenta vencer seu marcador na corrida em um movimento de infiltração na grande área, quando era nítido que o atacante holandês não tinha condições de realizar um lançamento longo.
O pêndulo constante entre a pressa e o preciosismo
O segundo fator que representa o mau desempenho de Rodrigo Garro em 2026 é o constante conflito do atleta entre tentar ter pressa e/ou preciosismo na definição de jogadas. Esta provavelmente é a característica mais visível em seu futebol na atual temporada. Para um espectador que acompanha a performance do argentino em campo, a impressão é de que Garro acelera quando deveria acalmar uma jogada e acalma quando deveria acelerar. O exemplo mais claro disso é o seu gol perdido no duelo diante da Chapecoense – Yuri Alberto fez uma linda jogada e deu um passe na medida para o camisa 8, que recebeu na entrada da área, completamente livre de marcação.
Garro tinha tempo e condição de tentar a finalização com sua perna esquerda de primeira, ou até mesmo de fazer um domínio rápido e curto com a direita para o chute com sua perna forte. No entanto, o erro aparece já no gesto técnico do argentino, que atrasa sua corrida e faz um domínio “puxando” a bola para sua perna esquerda e tirando o defensor da jogada. Apesar do drible, o movimento desequilibrou o camisa 8, que novamente com muito tempo e espaço, finalizou com pouquíssima força contra o gol adversário.
Outro trejeito marcante da atual fase do atleta é o passe “desesperado” na tentativa de ligar o meio-campo com o ataque. Em muitas ocasiões, Garro recebe um bom passe no espaço entre a grande área e o círculo central, com bastante espaço para realizar o domínio e dar progressão na jogada de maneira inteligente e planejada. Porém, é de costume do argentino tentar um passe de primeira ou uma “enfiada genial” rapidamente, algo que, neste momento de sua passagem pelo Corinthians, passa longe de encontrar qualquer resquício de acerto.
“É de um protagonista que o Time do Povo precisa?”
Talvez, seja hora do argentino se reinventar. Seja por questões físicas ou psicológicas, no momento, Rodrigo Garro atua de uma forma que potencializa seus defeitos e esconde suas qualidades. É hora de dar um passo atrás e entender não só seu momento individual, mas também o contexto do time em que veste a camisa. O Corinthians precisa de soluções, e um dos jogadores mais qualificados e caros da equipe, aparece como um dos principais problemas. Se o Time do Povo precisa de um protagonista, Garro tem que entender que não há mais vagas disponíveis para esta função.
Foto principal: Marcello Zambrana/AGIF