Lutas UFC

Ronda Rousey e Jake Paul tentam promover evento diminuindo o UFC

As declarações dadas por Ronda Rousey e Jake Paul na coletiva desta terça-feira (11) para promover o evento de MMA da Most Valuable Promotions seguem uma lógica bastante conhecida no mundo dos esportes de combate: a construção de narrativas para vender um espetáculo.

As críticas ao UFC foram duras, chamaram atenção e repercutiram, mas quando analisadas com mais calma, parecem muito mais parte de uma estratégia promocional do que um retrato fiel da realidade atual do MMA.

O evento da MVP será encabeçado por Ronda Rousey x Gina Carano, além de Francis Ngannou x Philipe Lins, e marca a entrada definitiva da empresa de Jake Paul no MMA. Durante a coletiva, Paul afirmou que o UFC está “morrendo” e que a MVP veio para assumir o lugar, defendendo que novas plataformas estão oferecendo mais dinheiro e oportunidades aos lutadores.

Já Rousey foi além e atacou diretamente o modelo financeiro da organização, dizendo que o UFC deixou de ser um bom lugar para ganhar a vida e que muitos atletas vivem próximos da linha da pobreza. Ela também criticou a mudança para um modelo mais voltado ao streaming e aos interesses corporativos, afirmando que a companhia hoje prioriza acionistas em vez dos lutadores.

Entre as falas mais polêmicas, Rousey citou a campeã Valentina Shevchenko, dizendo que atletas precisam recorrer a plataformas como OnlyFans para complementar renda, comentário que gerou resposta imediata da própria lutadora, que rebateu publicamente e disse que o uso dessas plataformas não significa dificuldade financeira.

Além disso, tanto Rousey quanto Paul criticaram o card do UFC Freedom 250, programado para acontecer na Casa Branca, classificando o evento como decepcionante e abaixo das expectativas, apesar de ainda ter poucos combates confirmados.

Esse tipo de discurso não é novidade. Sempre que surge uma nova promotora tentando competir com o UFC, a estratégia costuma ser a mesma: apontar falhas da organização dominante, amplificar problemas reais e sugerir que uma nova alternativa representa o futuro do esporte.

Jake Paul já utilizou essa abordagem no boxe, promovendo eventos como se fossem uma revolução contra o sistema tradicional, e agora repete a fórmula no MMA. Ao dizer que o UFC está morrendo, ele cria um contraste direto entre o evento da MVP e a maior organização do mundo, aumentando automaticamente o interesse do público.

Rousey, por sua vez, tem histórico pessoal com o UFC e sabe que qualquer crítica feita por ela ganha enorme repercussão. Como ex-campeã e uma das figuras mais importantes da história da organização, suas palavras têm peso, o que torna a estratégia ainda mais eficaz do ponto de vista promocional.

Isso não significa que as críticas sejam totalmente inventadas. A discussão sobre pagamento de lutadores no UFC é antiga e recorrente, e já foi levantada por vários atletas ao longo dos anos. No entanto, afirmar que muitos estão na pobreza ou que a organização deixou de ser viável financeiramente é um exagero que ajuda a criar impacto midiático, mas não descreve com precisão a realidade atual do esporte.

Ataques de Ronda Rousey e Jake Paul ao card da Casa Branca são prematuros

Ronda Rousey definiu o card do UFC Freedom 250 como frustrante
Ronda Rousey definiu o card do UFC Freedom 250 como frustrante (Imagem: Divulgação UFC)

Outro ponto que reforça o caráter promocional das declarações é a crítica ao card do UFC Freedom 250. Até o momento, apenas parte das lutas foi anunciada, e eventos desse porte costumam ser completados gradualmente, conforme negociações avançam.

Mesmo com questionamentos sobre nomes e expectativas, ainda é cedo para classificar o evento como fraco ou decepcionante. Cards grandes do UFC frequentemente passam por mudanças, e a própria organização já mostrou várias vezes capacidade de montar atrações fortes mesmo perto da data do evento.

Além disso, criticar diretamente um evento concorrente no momento em que se promove outro é uma tática clássica de marketing em esportes de combate. O objetivo não é apenas defender o próprio show, mas também diminuir o valor percebido do rival.

No fim das contas, as falas de Ronda Rousey e Jake Paul se encaixam perfeitamente na lógica do entretenimento esportivo. Criar rivalidade, provocar a maior organização do mundo e levantar debates sobre dinheiro, justiça e qualidade de eventos ajuda a atrair atenção, e esse é o principal combustível para vender lutas.

A MVP precisa que seu primeiro grande card de MMA seja visto como algo histórico, revolucionário e superior ao que já existe. Para isso, atacar o UFC e ter nomes de impacto é a fórmula mais correta. Independente da criação de narrativas verdadeiras ou não.

As críticas podem ter um fundo de verdade, mas também fazem parte de um jogo de narrativas típico do mundo das lutas, onde a promoção começa muito antes do primeiro soco ser dado. E, no caso do evento da Casa Branca, qualquer julgamento definitivo ainda parece precipitado, já que o card está longe de estar completo.

(Imagem de capa: Melina Pizano/Getty Images for Netflix)