Coutinho lamenta a chance desperdiçada. Foto: Marlon Costa/AGIF — Reprodução.
Futebol Brasileirão

Saída de Philippe Coutinho é tão ruim assim para o Vasco?

Na noite desta terça-feira (17), foi revelado que o meia Philippe Coutinho pediu a rescisão amigável de seu contrato com o Vasco. Coutinho retornou ao clube no meio de 2024 e tinha vínculo até a metade deste ano. No entanto, segundo informações, o jogador ficou insatisfeito com as duras críticas que vem sofrendo e solicitou o encerramento de sua segunda passagem por São Januário.

Um dos pilares técnicos do time comandado por Fernando Diniz, Coutinho viu sua relação com a torcida e com o clube se deteriorar nas últimas semanas. Após atuação abaixo do esperado contra o Bahia, ele foi substituído e reagiu com um sorriso irônico, gesto que não foi bem recebido pela torcida. Diante do Volta Redonda, voltou a ser substituído — dessa vez no intervalo — e sequer retornou ao banco de reservas.

Apesar do contexto, Diniz ainda considerava o jogador uma peça importante da equipe e tentou mantê-lo no elenco. Mesmo com o esforço do treinador, a saída de Coutinho parece iminente. Mas essa decisão é realmente tão prejudicial para o clube e para o atleta?

A passagem de Coutinho pelo Vasco

Desde que voltou a São Januário, Coutinho soma mais de 80 partidas disputadas, com 11 gols e cinco assistências apenas na temporada de 2025. Ao longo de sua atual passagem, acumulou 17 gols e sete assistências. Uma de suas atuações mais marcantes ocorreu na temporada passada, quando liderou o Vasco em uma vitória contundente por 6 a 0 sobre o Santos.

Mais do que os números absolutos, o impacto de Coutinho aparece na forma como o Vasco estrutura seu jogo. Com alto índice de acerto nos passes e presença constante entrelinhas, ele se tornou peça-chave na criação, contribuindo também com finalizações de média distância e bolas paradas. Em competições como o Campeonato Brasileiro, a Copa do Brasil e a Copa Sul-Americana, sua capacidade de decidir em momentos específicos ajudou o time a somar pontos importantes e manter competitividade em diferentes frentes.

A volta ao clube que o revelou também teve peso simbólico. Formado na base vascaína, Coutinho reassumiu protagonismo em um momento de reconstrução institucional e esportiva. No entanto, a falta de regularidade foi um problema, especialmente nas fases decisivas da Copa do Brasil, incluindo uma atuação apagada na final contra o Corinthians.

Sua importância, porém, vai além dos números. No estilo de jogo de Diniz, ele é um dos poucos jogadores capazes de manter a posse e participar da construção desde o campo defensivo, embora não seja um atleta de grande intensidade. A seguir, é possível analisar os principais prós e contras de sua possível saída.

A perda de um construtor

Desde a chegada de Diniz, o Vasco passou a valorizar mais a posse de bola. A média de posse da equipe aumentou consideravelmente, e Coutinho foi peça fundamental nesse processo. O meia atuava como um facilitador no meio-campo, recuando para buscar a bola na defesa e abrindo espaços para que os companheiros avançassem. Isso foi especialmente relevante quando o principal reforço de 2025, Thiago Mendes, demorou a se adaptar.

Sua liderança técnica também ajudava a atrair marcação. A movimentação de Coutinho abriu espaços para Rayan na temporada passada, enquanto sua capacidade de atuar entrelinhas facilitava as triangulações tão características do modelo de Diniz. Contudo, havia um impasse: o treinador esperava que ele desempenhasse função semelhante à de Paulo Henrique Ganso nos tempos de Fluminense, mas o camisa 10 vascaíno é menos cerebral e mais condutor da bola do que o meia tricolor.

Outro ponto de crítica era a intensidade sem a bola. Coutinho não conseguia pressionar a saída adversária no ritmo exigido por Diniz. Em 2025, Cauan Barros compensava essa lacuna ao ocupar os espaços deixados pelo meia durante a pressão. Em 2026, porém, Barros não manteve o mesmo nível, o que impactou diretamente o funcionamento do esquema cruz-maltino.

Também pesou nas críticas a ascensão de Johan Rojas. Mais intenso e com boas entradas nas partidas em que atuou, o colombiano de 23 anos passou a ganhar apoio da torcida, que pedia sua titularidade no lugar de Coutinho.

A saída de mais uma liderança do elenco

Após as despedidas de Pablo Vegetti e Rayan, o Vasco vê se desfazer a espinha dorsal que sustentou sua competitividade recente. Não se trata apenas de números, mas de hierarquia, influência e protagonismo em campo.

Vegetti representava a liderança mais visível: a do gol e da imposição física. Capitão em diversos momentos, foi referência ofensiva e emocional, especialmente nas fases mais turbulentas. Sua saída para o Cerro Porteño encerrou um ciclo de protagonismo direto na área adversária. Ele não apenas finalizava jogadas, mas organizava o setor ofensivo, pressionava zagueiros e funcionava como válvula de escape quando o time precisava recorrer ao jogo direto. Sem ele, o Vasco perdeu presença, experiência e um ponto de apoio claro no último terço.

Rayan simbolizava a liderança emergente. Jovem, formado no clube e decisivo em 2025, assumiu papel de desequilíbrio pelos lados do campo. Seus gols e arrancadas ajudaram a reduzir a dependência de Vegetti e deram profundidade ao modelo de jogo. A venda para o futebol inglês representou importante receita financeira, mas também retirou do elenco a peça mais explosiva e imprevisível do ataque.

Coutinho completava esse tripé sob outra perspectiva: a da construção. A saída quase simultânea dessas três peças deixa o Vasco diante de um vazio estrutural. Perde-se o finalizador experiente, o talento jovem de ruptura e o articulador central. Mais do que substituir jogadores, o clube precisará reconstruir lideranças.

O desafio agora não é apenas tático, mas simbólico: redefinir quem assume a responsabilidade nos momentos decisivos, quem organiza o jogo sob pressão e quem transforma desempenho coletivo em resultado concreto. Em pouco tempo, o Vasco deixou de ter três referências claras em campo e passa a precisar redesenhar sua identidade competitiva.

Foto: Marlon Costa/AGIF