Fórmula 1 Automobilismo

Carlos Sainz também passa por problema que FIA precisa resolver

Imagens não televisionadas da equipe transmitidas pelo rádio durante o Grande Prêmio da Itália revelaram um momento em que Carlos Sainz foi ignorado pelo muro dos boxes da Williams durante um desentendimento sobre as ordens da equipe.

Sainz e seu companheiro de equipe, Alex Albon, estavam em oitavo e nono, respectivamente, no início da corrida, quando o primeiro começou a ter dificuldades com pneus médios.

Com Albon usando pneus duros, a Williams pediu a Sainz para trocar de lugar com seu companheiro de equipe logo após o espanhol cometer um erro e cortar a área de escape na segunda chicane.

O pedido da Williams foi inicialmente recebido com resistência por Sainz, que implorou ao seu engenheiro de corrida, Gaetan Jego, que o colocasse nos boxes no final da volta 24 para evitar que perdesse tempo de corrida, diminuindo o ritmo para realizar a troca.

A conversa completa, da qual apenas um trecho foi ao ar durante a cobertura global do Grande Prêmio da Itália, foi a seguinte.

Jego: “Então, instrução: deixe o Alex passar na Curva 4. Mantenha a trajetória de corrida e permaneça no DRS dele.”

Sainz: “É, mas por que não paramos nesse caso? Me colocamos no final desta volta. Me coloque no box. E aí eu não preciso perder tempo de corrida.”

Jego: “Ok, então instrução: Levante na Curva 4, levante na Curva 4. Você ainda está progredindo em comparação com os carros [atrás]. Queremos estender. Então, na Curva 4, mantenha a linha de corrida. Instrução nesta volta, por favor.”

Sainz: “Acho que tem mais a ganhar… pessoal, eu discordo. Por favor.”

Jego: “Ok, a situação se você colocar no box agora, você estará atrás de cinco carros em um trem DRS e vai ficar preso em um trem DRS. O ritmo deles não é bom o suficiente, então você ainda está se afastando deles. Acho que precisamos ficar na frente e seguir a instrução.”

Sainz: “Entendido. Vamos ver se o Alex consegue me puxar junto com o DRS. Ok.”

Jego: “É, porque se o Alex for mais rápido, ele vai te puxar. Então vamos tentar isso, ok? Na Curva 4, nesta volta.”

Sainz seguiu as instruções da equipe na volta 25, mantendo a linha interna na Curva Grande para permitir que Albon passasse na segunda chicane. Falando após a corrida, o espanhol explicou que buscava um entendimento completo da situação da corrida antes de se comprometer com a troca: “Eu precisava de perspectiva e de uma visão geral da corrida, do que estava acontecendo, antes de fazermos a troca.” E continuou: “E assim que me explicaram, eu o deixei passar.”.

Carlos Sainz acabou deixando Alexander Albon ultrapassa-lo no GP da Itália
Carlos Sainz acabou deixando Alexander Albon ultrapassa-lo no GP da Itália (Imagem: Williams Racing)

Além do caso de Carlos Sainz com a Williams, o Grande Prêmio da Itália foi definido pelas ordens da equipe, com o pedido da McLaren para que Oscar Piastri trocasse de posição com o companheiro de equipe Lando Norris se tornando o maior assunto da corrida.

Os casos de Carlos Sainz e da McLaren mostram que algo precisa ser feito sobre troca de posições

A Fórmula 1 precisa urgentemente refletir sobre o uso e o abuso das ordens de equipe. Elas não são, por si só, ilegítimas, fazem parte da dinâmica estratégica do esporte. Mas quando se tornam ferramentas para proteger interesses internos à custa da competição justa, comprometem a credibilidade da categoria.

O que vimos em Monza foi um retrato preocupante de um campeonato onde, por vezes, quem vence não é o mais rápido, mas o mais favorecido pelo fone de ouvido. E isso, para quem ama corridas, é simplesmente inaceitável.

Além disso, há um impacto direto no ambiente interno das equipes. Quando pilotos passam a desconfiar das intenções por trás das decisões estratégicas, o clima de cooperação se fragiliza. E isso pode ter consequências duradouras.

As justificativas dadas pelas equipes, como “ser justo com quem estava à frente”, soam vazias quando aplicadas de forma seletiva, em especial quando há uma clara diferença de desempenho ou quando um piloto está melhor posicionado no campeonato.

Em última instância, ordens como as vistas em Monza desrespeitam o público também. O fã quer ver disputa real, ultrapassagens autênticas, decisões corajosas. Ver pilotos abrindo caminho por rádio, contrariando sua vontade e seu instinto competitivo, é frustrante para quem acompanha a categoria esperando justamente o contrário: imprevisibilidade, superação e justiça na pista.

A Fórmula 1 está vivendo um momento de aumento de interesse, mas situações como essa podem afastar novos que ainda não estão fidelizados e colocar a lisura das corridas em cheque. A FIA precisa se movimentar.

(Imagem de capa: Reprodução F1)