Cuca Santos
Futebol Copa Sul-Americana

Santos paga caro por Cuca abandonar evolução para acomodar convicções e teimosias

O Santos tinha encontrado um caminho e decidiu sair dele

O futebol tem uma regra cruel: evolução não significa chegar a uma fórmula perfeita, mas reconhecer aquilo que está funcionando e saber repetir. O Santos vinha fazendo exatamente isso.

Nas últimas semanas, Cuca conseguiu reorganizar a equipe em meio a desfalques, encontrou espaço para jogadores que precisavam de confiança e montou um time capaz de competir sem depender exclusivamente de Neymar ou Gabigol. A vitória por 2 a 1 sobre o Cruzeiro, poucos dias antes da decisão, era uma das maiores demonstrações disso.

Naquele jogo, o Santos atuou com três defensores, povoou o meio-campo e encontrou em Rollheiser, Gabriel Bontempo, Rodinei e Everton Cebolinha soluções para um time mais intenso e agressivo. Foi uma das melhores atuações da equipe na temporada.

O problema é que, quando chegou a partida que realmente poderia mudar o rumo do ano, Cuca pareceu abandonar parte dessas escolhas que estavam funcionando.

E o Santos pagou caro.

A vantagem de 2 a 0 não poderia ter sido desperdiçada dessa maneira

Perder para o Atlético-MG na Arena MRV não seria, por si só, um absurdo. O adversário tinha força, precisava buscar o resultado e jogava diante de sua torcida.

O problema foi a maneira como o Santos permitiu que a partida saísse do controle.

O time sofreu o primeiro gol com apenas 18 segundos. A partir dali, passou a jogar sob uma pressão que poderia ter sido evitada. O Atlético encontrou confiança, aumentou a intensidade e conseguiu transformar uma vantagem que parecia confortável em um confronto completamente aberto.

O Santos ainda conseguiu reagir. Marcou duas vezes, chegou a empatar o confronto no agregado e teve momentos em que poderia ter retomado o controle. Mas não conseguiu.

O quarto gol do Atlético, já aos 47 minutos do segundo tempo, levou a decisão para os pênaltis. Nas cobranças, o Santos perdeu três vezes e acabou eliminado. É difícil olhar para esse roteiro sem lembrar que o Peixe havia chegado a Belo Horizonte com uma vantagem de dois gols.

A eliminação não aconteceu em um único lance. Ela foi construída ao longo de 90 minutos em que o Santos deixou de ser a equipe que vinha crescendo.

Cuca voltou a apostar em soluções que já tinham sido questionadas

É aqui que a responsabilidade de Cuca precisa ser discutida. Não porque toda escolha que dá errado seja automaticamente uma escolha ruim. Futebol não funciona dessa maneira. Um treinador pode tomar uma decisão coerente e perder o jogo.

Mas existe diferença entre errar uma estratégia e abandonar uma evolução que estava diante dos próprios olhos.

Contra o Cruzeiro, Cuca havia encontrado um Santos compacto, com mais jogadores participando da construção e capacidade para pressionar o adversário. A equipe venceu, criou oportunidades e confirmou uma sequência de bons resultados no Brasileirão.

Na decisão, porém, o time voltou a apresentar dificuldades que pareciam estar sendo superadas. O Santos passou boa parte do primeiro tempo preocupado em resistir, sofreu cedo e precisou correr atrás de um jogo que poderia ter sido administrado com muito mais inteligência.

O treinador tem suas convicções, naturalmente. O problema aparece quando a convicção deixa de ser uma ferramenta e passa a impedir a continuidade de uma evolução.

O Santos mostrou que tinha alternativas, mas não conseguiu aproveitá-las

Outro ponto que pesa é que o elenco passou a oferecer mais possibilidades justamente depois da chegada dos reforços. Everton Cebolinha havia estreado bem contra o Cruzeiro. Rodinei ganhou importância. Bontempo vinha crescendo. Rollheiser assumiu mais responsabilidade. O Santos encontrou uma estrutura capaz de competir mesmo sem Neymar.

Tudo isso indicava que Cuca tinha conseguido ampliar o repertório da equipe.Na Arena MRV, porém, faltou transformar esse repertório em uma estratégia capaz de proteger a vantagem.

O Santos precisava entender que não era obrigado a jogar como se estivesse perdendo por dois gols. Também não precisava simplesmente se retrancar.

Havia um meio-termo: controlar o ritmo, ocupar melhor os espaços, diminuir a velocidade do Atlético e aproveitar os espaços que inevitavelmente apareceriam. Não foi isso que aconteceu.

O gol sofrido no início desmontou parte do planejamento, mas uma equipe que chega a uma decisão com 2 a 0 de vantagem precisa conseguir sobreviver a esse tipo de adversidade.

O Santos não conseguiu.

A eliminação não apaga a evolução, mas mostra que ela ainda era frágil

É importante não cair no outro extremo. O Santos realmente havia melhorado.

A sequência recente no Campeonato Brasileiro não foi acaso. A equipe chegou à partida contra o Atlético com quatro vitórias e um empate nos cinco jogos anteriores da competição, além de ter vencido o próprio Galo por 2 a 0 na ida da Sul-Americana.

Cuca encontrou respostas em um momento em que o Santos precisava delas.

Mas uma evolução só se transforma em mudança de patamar quando consegue sobreviver também aos momentos de maior pressão.Foi justamente aí que o Santos falhou.

A equipe ainda parece vulnerável quando precisa administrar um cenário favorável. E isso é especialmente preocupante porque a eliminação aconteceu depois de o Peixe construir uma vantagem confortável no primeiro confronto.

O Santos teve condições de jogar a decisão em outro cenário. Não conseguiu aproveitá-las.

Agora Cuca terá de provar que a evolução não dependia apenas do cenário

A temporada do Santos não acabou. O problema é que, depois da eliminação, a margem para erro diminuiu. A Sul-Americana era uma oportunidade de transformar a recuperação recente em algo maior. Agora, resta ao Santos concentrar forças no Campeonato Brasileiro.

E Cuca terá uma tarefa ainda mais importante: mostrar que o time que cresceu nas últimas semanas não foi apenas uma versão passageira criada por circunstâncias específicas. Porque os sinais estavam ali.

O Santos encontrou uma estrutura. Encontrou jogadores capazes de assumir protagonismo. Encontrou alternativas sem Neymar. Encontrou intensidade, pressão e uma maneira mais coletiva de jogar.

Na decisão contra o Atlético-MG, porém, tudo isso pareceu ficar em segundo plano justamente quando mais importava. É por isso que a eliminação dói mais do que uma simples derrota.

O Santos não perdeu apenas uma classificação. Perdeu uma oportunidade de confirmar que havia realmente mudado de patamar. Cuca ajudou a construir essa evolução, mas também será cobrado por ter abandonado parte dela quando o jogo mais exigia convicção.

No futebol, convicção é necessária. Teimosia, não. E o Santos descobriu isso da pior maneira possível.

Foto: Reinaldo Campos/ Santos F.C./ Divulgação