A volta de Dorival Júnior ao São Paulo acontece em um cenário muito diferente daquele encontrado em 2023, quando o treinador conseguiu estabilizar o ambiente, conquistar a Copa do Brasil e recuperar competitividade rapidamente. Agora, o contexto é mais turbulento. O clube vive desgaste interno, convive com problemas físicos importantes no elenco e ainda apresenta forte dependência de poucos jogadores no setor ofensivo.
Além da pressão natural por resultados imediatos, Dorival também chega com a responsabilidade de reorganizar emocionalmente um elenco que acumulou instabilidade dentro e fora de campo nos últimos meses. E alguns problemas parecem ser prioritários logo neste início de trabalho.
O caso Arboleda virou problema esportivo, político e interno

O primeiro grande desafio envolve Robert Arboleda. E o problema vai muito além da questão técnica.
O zagueiro passou cerca de um mês no Equador durante a temporada sem manter comunicação considerada adequada com o clube, o que gerou enorme desgaste interno no São Paulo. Em alguns momentos, a situação chegou a ficar tão delicada que surgiram discussões internas sobre possíveis punições mais severas ao jogador.
O impacto disso foi grande porque Arboleda não é apenas mais um atleta do elenco. Durante anos, o equatoriano foi tratado como uma das principais lideranças defensivas do São Paulo, além de ser um dos jogadores mais identificados com o clube dentro do atual grupo.
Sem ele, a defesa perdeu estabilidade em diversos momentos da temporada.
Mas talvez o principal problema esteja justamente no ambiente criado após o episódio. Grande parte da torcida não aprovou a possível volta imediata do zagueiro ao elenco, principalmente pela sensação de desgaste acumulado após outros episódios extracampo envolvendo o jogador em temporadas anteriores. Muitos torcedores enxergaram a viagem ao Equador sem grandes explicações como uma falta de comprometimento com o clube em um momento delicado da temporada, aumentando ainda mais a pressão sobre a diretoria para uma punição mais dura.
Mesmo assim, internamente, o cenário parece menos definitivo.
O elenco adotou postura cautelosa sobre a situação e preferiu deixar o caso nas mãos da diretoria, mas sem descartar completamente uma possível reintegração do defensor ao grupo. Aparentemente, Dorival Júnior também deseja trabalhar novamente com Arboleda, principalmente pela importância técnica e experiência do jogador dentro do elenco.
Isso transforma a situação em um problema muito mais profundo do que apenas futebol.
Dorival precisará administrar a relação entre clube, torcida, diretoria e elenco ao mesmo tempo. Porque recuperar Arboleda esportivamente talvez seja mais fácil do que reconstruir a confiança em torno do jogador fora de campo.
Lesões e falta de sequência desmontaram o São Paulo

Outro enorme problema está na condição física do elenco.
O São Paulo chegou recentemente ao maior número de lesionados da temporada, convivendo simultaneamente com ausências importantes em praticamente todos os setores do time. Jogadores como Pablo Maia, Lucas Moura, Marcos Antônio e Alan Franco passaram por problemas físicos em diferentes momentos.
Isso afetou diretamente a sequência tática da equipe.
O São Paulo alternou constantemente formações, perdeu estabilidade defensiva e encontrou enorme dificuldade para manter intensidade durante os jogos. Em muitos momentos, o time até conseguia competir bem durante parte das partidas, mas sofria fisicamente conforme o ritmo diminuía.
Dorival agora terá uma missão importante: reconstruir a estabilidade física e competitiva do elenco sem aumentar ainda mais o desgaste.
E isso é particularmente complicado em um calendário brasileiro extremamente apertado. O treinador precisará encontrar rapidamente um equilíbrio entre recuperação física, manutenção de intensidade e gestão de minutos dos principais jogadores.
Além disso, existe outro detalhe importante.
Boa parte dos atletas mais decisivos do São Paulo já acumulam histórico recente de problemas físicos. Isso significa que Dorival provavelmente precisará rodar mais o elenco ao longo da temporada, aumentando também a necessidade de recuperação técnica de jogadores que vinham perdendo espaço.
Em outras palavras: não basta apenas recuperar os lesionados. O treinador precisará reconstruir profundidade competitiva dentro do grupo.
Ataque ainda depende demais de poucos nomes

O terceiro problema talvez seja o mais perceptível dentro de campo.
O São Paulo segue extremamente dependente de poucos jogadores para criar e decidir ofensivamente. Em diferentes momentos da temporada, o time concentrou praticamente toda sua produção ofensiva em nomes como Jonathan Calleri, Luciano e Lucas Moura.
E justamente aí aparece um dos maiores desafios para Dorival. Lucas está lesionado e a expectativa interna é que seu retorno aconteça apenas bem depois da Copa, o que aumenta ainda mais a responsabilidade ofensiva sobre Calleri e Luciano neste período. A ausência pesa porque Lucas era justamente um dos poucos jogadores do elenco capazes de quebrar linhas individualmente, acelerar transições e criar desequilíbrios em jogos travados.
Quando esses jogadores conseguem atuar em alto nível, o São Paulo normalmente cresce competitivamente. O problema aparece justamente quando algum deles vive queda física, técnica ou ausência por lesão.
Calleri, por exemplo, voltou recentemente de um problema importante no joelho e mesmo assim continuou sendo uma das principais referências ofensivas da equipe. Isso evidencia como o elenco ainda possui poucas alternativas realmente confiáveis para assumir protagonismo ofensivo.
O impacto coletivo disso é grande.
O São Paulo muitas vezes cria volume ofensivo, controla posse de bola e consegue ocupar o campo rival, mas encontra dificuldades para transformar esse domínio em chances realmente perigosas. Em jogos contra equipes mais fechadas, a dependência de jogadas individuais fica ainda mais evidente.
Dorival precisará resolver justamente esse problema.
O treinador historicamente gosta de equipes mais associativas, com circulação rápida e participação ofensiva coletiva maior. Para isso funcionar, ele precisará encontrar novas formas de dividir responsabilidade criativa dentro do elenco.
E talvez esse seja um dos pontos mais importantes para o restante da temporada.
Porque o São Paulo atual até possui jogadores capazes de competir em alto nível, mas ainda parece um time excessivamente dependente emocional e tecnicamente de poucas figuras centrais. Resolver isso pode acabar sendo determinante para o sucesso, ou fracasso da nova passagem de Dorival pelo clube.
(Foto de capa: Robson Mafra/AGIF)