Futebol Brasileirão

São Paulo vive crise criativa: derrota para o Mirassol escancara problemas recorrentes na temporada

A derrota do São Paulo por 2 a 0 para o Mirassol, no MorumBIS, não foi um acidente de percurso. O revés diante da equipe do interior paulista, pela 10ª rodada do Campeonato Brasileiro, expôs de forma clara problemas que já se tornaram rotina no São Paulo em 2024: a dificuldade crônica na criação ofensiva e a incapacidade de transformar domínio territorial em chances reais de gol.

O jogo contra o Mirassol foi, na prática, um espelho do que tem sido a temporada tricolor até aqui. Um time que controla a posse, ocupa o campo de ataque, mas que pouco consegue produzir de forma efetiva. E, quando perde a bola, se mostra desorganizado na recomposição e vulnerável nas transições defensivas.

Um roteiro conhecido

No duelo contra o Mirassol, o São Paulo até começou tentando se impor, mas encontrou um adversário bem postado defensivamente, que congestionou o meio-campo e forçou o time de Luis Zubeldia a trabalhar pelas laterais.

A estratégia ofensiva do Tricolor se resumiu a cruzamentos e bolas longas. Oscar, Alisson e Pablo Maia, responsáveis pela articulação, foram bem marcados, e o time não conseguiu criar por dentro. A jogada mais perigosa do primeiro tempo surgiu justamente de um cruzamento de Enzo Díaz, que terminou em cabeçada de Luciano, uma das poucas finalizações com real perigo.

Esse roteiro, infelizmente para o torcedor são-paulino, tem se repetido ao longo da temporada. Quando encontra adversários que se fecham bem e bloqueiam o setor central, o São Paulo se torna previsível, dependente de jogadas pelas laterais e de lampejos individuais.

Dependência de cruzamentos e falta de mobilidade

O problema estrutural ficou ainda mais evidente na segunda etapa. Atrás no placar, o São Paulo precisou se lançar ao ataque, mas mostrou uma enorme dificuldade para criar chances claras. As jogadas, mais uma vez, foram baseadas em bolas alçadas na área, sem nenhuma triangulação, infiltração ou combinação pelo meio.

A equipe carece de jogadores que quebrem linhas com condução ou passes verticais. A movimentação dos atacantes também é limitada, o que facilita a vida das defesas adversárias. Contra o Mirassol, ficou nítido que o time não tem um plano claro quando precisa furar bloqueios baixos.

O problema ofensivo também gera reflexos na defesa. Ao se lançar de maneira desorganizada ao ataque, o São Paulo oferece espaços para o adversário contra-atacar. Foi assim que o segundo gol do Mirassol nasceu: um erro na saída de bola, seguido de um pênalti infantil cometido por Enzo Díaz.

O time fica exposto quando não consegue pressionar de forma coordenada na perda da bola. E a falta de organização na fase ofensiva reflete diretamente na vulnerabilidade quando precisa defender as transições.

Um problema que se repete na temporada do São Paulo

A dificuldade criativa não foi exclusividade do jogo contra o Mirassol. Ao longo da temporada, o São Paulo tem mostrado o mesmo padrão, especialmente contra equipes que se defendem em bloco baixo. Em vários momentos, o time dependeu de bolas paradas, erros dos adversários ou jogadas individuais para conseguir furar defesas.

O elenco sente a ausência de um meia de construção clássico — alguém capaz de organizar, acelerar ou desacelerar o jogo, achar passes entre linhas e quebrar marcações bem postadas. Oscar, que poderia ser esse jogador, muitas vezes joga deslocado para as pontas, tentando suprir outras carências do time.

Além disso, as constantes mudanças de peças e de formatação tática, na tentativa de corrigir problemas, acabam gerando ainda mais desequilíbrio e falta de entrosamento.

A derrota para o Mirassol não foi um tropeço isolado. Foi mais um sinal claro de que o São Paulo precisa encontrar soluções urgentes para seu problema de criação ofensiva. A posse de bola estéril, os ataques previsíveis e a dificuldade para gerar superioridade numérica no terço final vêm custando pontos preciosos na temporada.

Se quiser ser competitivo no Brasileirão e nas demais competições, o Tricolor precisará rever seu modelo de jogo, buscar alternativas dentro do elenco — ou até no mercado — e, principalmente, construir uma ideia ofensiva mais eficiente, que vá além dos cruzamentos e das jogadas pelas pontas.

O alerta está mais do que ligado. O São Paulo precisa reagir — e rápido.

(Foto: Marcello Zambrana/AGIF)