Futebol Brasileirão

São Paulo repete erros e vê crise agravar; Dorival já deve balançar no cargo?

O São Paulo voltou a apresentar um roteiro conhecido, e cada vez mais preocupante, no Brasileirão. Depois de abrir o placar contra o Grêmio, no sábado, o time de Dorival Júnior não conseguiu sustentar a vantagem, sofreu a virada e perdeu por 2 a 1. O resultado amplia para oito jogos a sequência sem vitórias e transforma aquilo que poderia ser apenas uma fase ruim em uma crise que já exige respostas mais profundas.

O problema é que a derrota não pode ser explicada apenas por um lance ou por uma noite ruim. O São Paulo voltou a apresentar dificuldades para criar, mostrou vulnerabilidade defensiva e, principalmente, repetiu o comportamento de uma equipe que parece perder o controle das partidas quando o adversário encontra uma maneira de pressioná-la.

Foi assim contra o Athletico-PR. Foi assim contra o Grêmio. E esse padrão precisa preocupar Dorival. O treinador afirmou que faltam “detalhes” para o São Paulo voltar a vencer. A palavra, no plural, talvez seja justamente a melhor definição para o momento. Não existe um único problema a ser corrigido. São várias pequenas deficiências que, somadas, transformam jogos equilibrados em derrotas.

A ausência de Artur expôs uma dependência ofensiva

A escalação contra o Grêmio deixou evidente uma questão importante do modelo de Dorival: a dependência de Artur para dar amplitude e profundidade ao ataque. Sem o jogador, lesionado, o treinador optou por Ferreirinha. A mudança parece simples, mas alterou significativamente a estrutura ofensiva. Em vez de utilizar dois jogadores abertos, Dorival manteve apenas um ponta de origem, com Ferreirinha atuando pelo lado esquerdo.

A alternativa até trouxe uma consequência positiva: Marcos Antônio ganhou mais liberdade para alternar posições com Danielzinho e ocupar espaços pelo lado direito. O São Paulo conseguiu, em alguns momentos, ter uma distribuição interessante dos jogadores.

Mas faltou algo fundamental: produção ofensiva. Ferreirinha não conseguiu oferecer a mesma qualidade que Artur normalmente entrega. Calleri teve apenas uma finalização, enquanto Luciano, novamente pouco participativo, chutou duas vezes. O São Paulo terminou dependendo de uma jogada construída a partir de um erro do Grêmio para encontrar seu gol.

Esse é um problema maior do que a ausência de um jogador. Se o funcionamento ofensivo de uma equipe cai drasticamente quando um único ponta não está disponível, significa que faltam alternativas suficientemente consolidadas. Dorival precisa encontrar maneiras de fazer o São Paulo atacar sem depender exclusivamente da característica de Artur.

O ataque cria pouco e transforma menos ainda

A dificuldade de criação talvez seja o principal sintoma da crise. O São Paulo até consegue ocupar determinadas regiões do campo, mas tem encontrado dificuldades para transformar essa presença territorial em oportunidades claras. O time circula, troca passes e consegue chegar próximo da área, mas falta agressividade no último terço.

A consequência é evidente: Calleri, que deveria ser uma das principais referências ofensivas, participa pouco das partidas. Contra o Grêmio, o centroavante praticamente não conseguiu entrar no jogo. Quando o atacante de referência passa uma partida inteira sem receber bolas em condições de finalizar, o problema não está necessariamente nele. Muitas vezes, está na forma como o time chega até ele.

O São Paulo precisa encontrar maneiras de aproximar seus homens de ataque, criar superioridades pelos lados e, principalmente, colocar mais jogadores dentro da área. Sem isso, qualquer vantagem construída se torna frágil.

A defesa voltou a desmoronar depois do intervalo

Se o ataque não consegue matar os jogos, a defesa também não tem conseguido proteger o resultado. O empate do Grêmio aconteceu logo no começo do segundo tempo, em uma cobrança de escanteio na qual Carlos Vinícius apareceu completamente livre na segunda trave para cabecear.

É um tipo de gol que aumenta ainda mais a preocupação porque não depende de uma grande construção ofensiva do adversário. É uma falha de concentração e organização defensiva. Arboleda e Osório tiveram uma atuação abaixo do esperado, especialmente o equatoriano, que acumulou erros durante a partida.

Mais uma vez, portanto, o São Paulo sofreu justamente no momento em que precisava demonstrar maturidade para controlar a vantagem. Esse é talvez o aspecto mais preocupante da sequência atual: o time não está apenas perdendo; está repetindo a maneira como perde.

Abre o placar, não consegue ampliar, sofre um golpe e passa a jogar sob pressão. Contra equipes capazes de aproveitar as oportunidades, isso costuma ser fatal.

No entanto, Dorival encontrou respostas interessantes quando mexeu na equipe. Bobadilla entrou no lugar de Danielzinho, enquanto Cauly substituiu Ferreirinha. A presença de Cauly pelo lado esquerdo, atuando mais por dentro, ajudou o São Paulo a circular melhor a bola e reduziu a quantidade de erros na construção.

O meia ainda participou diretamente da tentativa de reação no fim, criando duas boas oportunidades em cobranças de escanteio. O problema é que essas soluções apareceram quando o São Paulo já estava atrás no placar.

Isso abre uma discussão importante sobre o planejamento das partidas. O treinador parece ter alternativas no banco, mas precisa encontrar maneiras de utilizá-las antes que a situação fique desfavorável.

Não necessariamente significa mudar a escalação inteira. Significa reconhecer mais rapidamente quando determinado desenho não está funcionando.

O São Paulo precisa parar de tratar cada derrota como um acidente

A sequência de oito partidas sem vencer já não permite que os resultados sejam analisados individualmente. A derrota para o Grêmio não é apenas uma derrota. Ela é mais um capítulo de um roteiro que já apareceu anteriormente.

O São Paulo precisa recuperar confiança, mas confiança não será reconstruída apenas com discursos. Será necessário encontrar uma estrutura que ofereça segurança defensiva e, ao mesmo tempo, produza mais futebol no ataque.

Dorival ainda tem crédito e conhece profundamente o elenco, mas a crise exige decisões. Artur é importante? Evidentemente. Mas o time precisa sobreviver à ausência dele.

Calleri precisa voltar a participar mais? Sim. Mas a equipe também precisa criar condições para que isso aconteça. A defesa precisa corrigir as bolas paradas? Sem dúvida. Mas a melhor maneira de proteger uma vantagem também é manter o adversário ocupado e ameaçado no campo ofensivo.

São esses os “detalhes” aos quais Dorival se referiu. Isoladamente, nenhum deles explica oito jogos sem vencer. Juntos, porém, ajudam a entender por que o São Paulo continua preso em um ciclo de boas intenções, vantagens desperdiçadas e derrotas que parecem cada vez menos acidentais.

O desafio agora é interromper esse ciclo antes que a crise deixe de ser apenas uma sequência ruim e passe a comprometer definitivamente os objetivos do clube no Brasileirão.

(Foto: Rubens Chiri/São Paulo)