O Morumbis viveu uma noite de tensão e explosão de sentimentos nesta quarta-feira. Diante de mais de 57 mil torcedores, o São Paulo sofreu, lutou e contou com a estrela do goleiro Rafael para eliminar o Atlético Nacional nos pênaltis e garantir vaga nas quartas de final da Libertadores. O Tricolor abriu o placar logo cedo, levou o empate na etapa final e não conseguiu definir no tempo regulamentar, mas confirmou a classificação com frieza na marca da cal.
O jogo
O São Paulo começou em ritmo avassalador. Antes mesmo de o relógio marcar dois minutos, o Tricolor já havia criado duas grandes oportunidades. Primeiro, Bobadilla e Rodriguinho pararam na defesa colombiana em cima da linha. No escanteio subsequente, Cédric Soares cruzou, Alan Franco desviou e André Silva, livre, completou de cabeça para abrir o placar e incendiar o Morumbis.
Com a vantagem, o time de Hernán Crespo adotou uma postura mais cautelosa, recuando as linhas e entregando a posse ao Atlético Nacional. Os colombianos, porém, encontraram enorme dificuldade para criar contra a defesa bem postada do São Paulo. A exceção foi um chute perigoso de Morelos, de fora da área, aos 37 minutos, que levou perigo ao gol de Rafael.
Na volta do intervalo, o Atlético Nacional subiu o ritmo. Logo no início, Enzo Díaz finalizou por cima, assustando a torcida tricolor. Pouco depois, Hinestroza cruzou na medida, mas Morelos não alcançou a bola por centímetros. O São Paulo, até então controlado, começou a ceder espaços.
Aos 17 minutos, Rafael quase complicou o jogo ao rebater nos pés de Morelos um chute de fora da área. O atacante, contudo, bateu fraco e permitiu a recuperação do goleiro. O lance foi um prenúncio do que viria. Aos 25, Enzo Díaz derrubou Morelos dentro da área. O árbitro inicialmente mandou seguir, mas, após revisão no VAR, assinalou pênalti. O centroavante bateu firme, no canto, e empatou o jogo. Na comemoração, a tensão aumentou com empurra-empurra entre os jogadores, que terminou com a expulsão de Cardona.
Com um jogador a mais, o São Paulo partiu para o tudo ou nada. Ferreirinha quase marcou em chute cruzado que raspou a trave. Luciano também teve chances: uma em finalização de fora da área e outra em lance bizarro dentro da área, quando a bola rebateu nele e só não entrou porque Ospina fez defesa espetacular com a ponta dos dedos. Apesar da pressão e dos oito minutos de acréscimos, o gol da classificação não saiu.
Na disputa por pênaltis, brilhou a estrela de Rafael. O goleiro tricolor defendeu uma das cobranças do Atlético Nacional e deu confiança aos companheiros. Cédric Soares converteu o último chute e decretou a vitória por 4 a 3, levando o Morumbis ao delírio.
São Paulo mostra eficiência e inconstância em batalha no Morumbis
A classificação do São Paulo mostrou duas faces distintas do time de Crespo. Por um lado, a equipe demonstrou poder de decisão logo no início e grande organização defensiva durante boa parte do primeiro tempo. Por outro, voltou a apresentar dificuldades para controlar a posse quando recua demais e sofre para reagir diante de adversários que encontram brechas no meio de campo.
O pênalti de Morelos expôs novamente uma vulnerabilidade tricolor: a tendência de perder intensidade após abrir o placar. O São Paulo teve condições de matar o jogo no primeiro tempo, mas reduziu o ritmo e chamou o Atlético Nacional para o campo de ataque. Contra equipes mais qualificadas, esse tipo de postura pode ser fatal.
Outro ponto que merece destaque é a dificuldade de transformar posse e volume em efetividade ofensiva. No segundo tempo, mesmo com um a mais, o Tricolor pecou na finalização e esbarrou em Ospina. Luciano e Ferreirinha foram incansáveis, mas não conseguiram dar ao torcedor o gol da tranquilidade.
Ainda assim, o São Paulo mostrou resiliência. Nos momentos de maior pressão, a equipe não se desorganizou completamente e soube administrar a tensão até os pênaltis. Nesse cenário, Rafael foi o herói da noite, justificando porque é considerado um dos goleiros mais decisivos do futebol brasileiro. Sua defesa foi determinante para manter vivo o sonho continental.
O técnico Crespo terá muito trabalho pela frente. O São Paulo avança às quartas, mas com lições claras: precisa ser mais agressivo quando tem vantagem, não pode abrir mão da posse de bola tão cedo e deve trabalhar melhor suas jogadas de infiltração para não depender apenas de cruzamentos.
O futuro adversário sairá do duelo entre LDU e Botafogo, e, seja qual for o rival, a exigência será ainda maior. O Tricolor terá que evoluir, especialmente na transição ofensiva, se quiser seguir sonhando com a taça da Libertadores.
No fim, ficou a sensação de alívio e de festa no Morumbis, mas também o alerta de que a caminhada continental exigirá muito mais consistência. A vaga veio com drama, suor e sofrimento — marcas de uma Libertadores que não perdoa vacilos.
(Foto: Nelson Almeida/AFP)