Brasileirão Futebol

São Paulo mostra mais uma vez que é o time mais pragmático do Brasil

A vitória por 1 a 0 sobre o Mirassol, longe de ser apenas mais um resultado magro no Campeonato Brasileiro, reforça uma identidade que vem se consolidando jogo após jogo: o São Paulo de Roger Machado é, hoje, o retrato mais fiel do pragmatismo no futebol brasileiro. Não é um time que encanta pela exuberância constante, tampouco pela imposição estética. Mas é, acima de tudo, uma equipe que entende o que cada jogo pede e age de acordo com isso.

O triunfo em Campinas é emblemático. Em um primeiro tempo travado, com poucas chances claras para ambos os lados, o São Paulo não se desesperou nem forçou situações inexistentes. Preferiu controlar riscos, manter o jogo sob relativa segurança e esperar o momento certo para atacar. Esse momento veio apenas na segunda etapa, quando Luciano decidiu em uma jogada precisa, eficiente e quase cirúrgica para garantir os três pontos .

Esse padrão não é acidental. Após a partida, o próprio Roger Machado destacou que a atuação foi construída com base em “estratégia e disciplina tática”, além de um volume ofensivo consistente, com 18 finalizações ao longo do jogo. Ou seja, há uma diferença clara entre jogar bonito e jogar bem: o São Paulo pode não dominar visualmente todos os aspectos, mas produz o suficiente para vencer e isso, no contexto de pontos corridos, é ouro.

São Paulo coloca o pragmatismo como identidade

Quando se analisa o recorte mais recente da equipe, fica evidente que o São Paulo não busca o controle absoluto das partidas como um objetivo principal. Em alguns jogos, inclusive, aceita ser reativo. Em outros, quando encontra espaço, acelera. Essa capacidade de adaptação é a essência do pragmatismo.

Mesmo em momentos de oscilação, o time manteve uma característica: raramente se expõe de forma irresponsável. Ainda que tenha enfrentado críticas e pressão da torcida, Roger nunca abriu mão da estrutura defensiva e da organização coletiva, pilares que sustentam esse modelo.

Roger Machado está imprimindo pragmatismo no São Paulo
Roger Machado está imprimindo pragmatismo no São Paulo (Imagem: REUTERS/Amanda Perobelli)

Esse comportamento dialoga com uma tradição histórica do futebol brasileiro que já foi extremamente vitoriosa. Treinadores como Muricy Ramalho construíram títulos baseados justamente nesse equilíbrio entre solidez e eficiência. Não se trata de abdicar do talento, o São Paulo tem nomes como Calleri e Luciano capazes de decidir, mas de criar um sistema que potencialize esses jogadores nos momentos certos.

Entretanto, o pragmatismo só se sustenta se vier acompanhado de resultados e, até aqui, eles estão presentes. O São Paulo chegou a figurar entre os primeiros colocados do Brasileirão nas rodadas iniciais e, mesmo com oscilações, voltou ao G4 após a vitória sobre o Mirassol. Em um campeonato longo e extremamente equilibrado, essa constância é mais valiosa do que atuações espetaculares seguidas de tropeços.

Outro ponto relevante é a capacidade de sofrer pouco defensivamente. Jogos de poucas chances claras, como o contra o Mirassol, tendem a ser decididos em detalhes. E o São Paulo, nesse contexto, tem se mostrado mais preparado para aproveitar esses momentos.

O impacto no restante do campeonato

Se mantiver esse perfil, o São Paulo tem tudo para ser uma presença constante na parte de cima da tabela. Em pontos corridos, regularidade supera brilho. Times pragmáticos perdem menos pontos em jogos “armadilha”, aqueles confrontos contra adversários mais frágeis ou em cenários adversos, exatamente como foi o duelo em Campinas.

Além disso, essa abordagem reduz a variância de desempenho. Enquanto equipes mais ofensivas e intensas podem alternar grandes atuações com quedas bruscas, o São Paulo tende a operar dentro de uma faixa mais estável. Isso, ao longo de 38 rodadas, é determinante.

Outro fator importante é o aspecto psicológico. Um time que sabe ganhar jogos difíceis, mesmo sem jogar bem, constrói confiança. E confiança, em um campeonato longo, vira combustível para decisões futuras.

Por tudo isso, o São Paulo de Roger Machado pode não ser unanimidade, e dificilmente será o time mais plástico do país. Mas há uma lógica clara por trás do seu futebol. A vitória sobre o Mirassol é mais um capítulo de uma narrativa que valoriza eficiência, disciplina e leitura de jogo.

Chamar essa equipe de pragmática não é crítica, é reconhecimento. Em um cenário onde muitos ainda confundem intensidade com desorganização e ofensividade com desequilíbrio, o São Paulo mostra que vencer, acima de tudo, é saber jogar o jogo certo.

(Imagem de capa: Rubens Chiri / São Paulo FC)