A melhor campanha de uma seleção africana em Copas do Mundo pertence a Marrocos. Quarto lugar em 2022, os marroquinos estão próximos de repetir o feito da edição passada, e este sucesso não é por acaso. O êxito tem uma base e um significado, e está diretamente ligado a Mohammed VI, o monarca do país.
Após o triunfo sobre o Canadá, uma das sedes do torneio, Brahim Díaz foi enfático nas palavras ao dedicar a vitória, por 3 a 0, à Majestade.
“Primeiramente, quero oferecer a vitória a Sua Majestade Mohammed VI pelo apoio que ele nos dá”
A adoração à figura do governante é uma das bases de uma monarquia, mas o fato de colocarem a figura da coroa acima de qualquer argumento é também relativo ao suporte financeiro que o rei deu ao time. Investir muito dinheiro deu resultado e agora Marrocos colhe os frutos com muita alegria.
A revolução começou fora das quatro linhas
Como é de conhecimento geral, não basta dinheiro se não houver uma estratégia inteligente. A Federação Real de Futebol do Marrocos (FRMF) soube direcionar exatamente onde precisava aprimorar e construiu a luxuosa cidade esportiva na capital Rabat, em 2019.
Localizado na região de Maamoura, em Salé, o complexo foi nomeado em homenagem ao rei Mohammed VI e é uma estrutura de ponta que comporta a academia de futebol. É um local de alto desempenho e que causa inveja em qualquer centro de treinamento no mundo inteiro.
O complexo reúne 11 campos de futebol — com gramados natural, sintético e híbrido, incluindo um campo coberto — além de centro médico de alta performance, clínica de fisioterapia e reabilitação, piscinas olímpicas, auditório, hotéis, vilas para as seleções nacionais e estruturas administrativas da federação.
O investimento da cidade esportiva é estimado em 55 milhões de euros (cerca de 323 milhões de reais). O projeto é de autoria de um grupo de arquitetos renomados e possui cinco edifícios — todos eles ao redor de um grande núcleo central.
No local, jovens de até 18 anos se reúnem (e moram) para se formar nos estudos e como atletas. É também um espaço projetado também para a socialização e o fortalecimento do senso de comunidade.
É nele que são criados novos talentos e que treinam os mais novos destaques da seleção, como Ayyoub Bouaddi e Ismael Saibari. O primeiro passou pelas divisões de base da França, mas, como optou por defender as suas origens, seu destino foi o “CT” Mohammed VI. O último, por sua vez, passou pelas seleções sub-20 e sub-23 de Marrocos, portanto foi desenvolvido no local.
A diáspora virou uma das maiores armas da seleção

Outro pilar da estratégia marroquina foi fortalecer a identificação de jogadores nascidos fora do país. A FRMF criou uma ampla rede de observação voltada para atletas descendentes de marroquinos espalhados pela Europa, especialmente na França, Bélgica, Holanda e Espanha.
O resultado aparece na própria convocação para esta Copa do Mundo: dos 26 jogadores chamados, 19 nasceram fora do território marroquino. Dos 26 convocados para esta Copa do Mundo, 19 nasceram fora do país.
Achraf Hakimi e Brahim Díaz são dois dos principais exemplos desse trabalho. Até mesmo Lamine Yamal esteve no radar da federação antes de optar por defender a Espanha.
Essa política permitiu que Marrocos ampliasse significativamente sua base de talentos sem abrir mão da identidade nacional.
Resultados esportivos em série

Antes da estrutura ser montada, Marrocos já era dono de uma Copa Africana de Nações, a chamada “CAN”, em 1976, e de uma Copa Árabe da FIFA, em 2012. Mas, é depois da construção de alta tecnologia que vieram os maiores sucessos.
Em 2018, 2020 e 2024 conquistaram o Campeonato das Nações Africanas (CHAN); já em 2022 conquistaram o tão celebrado 4.º lugar na Copa do Mundo.
Inclusive, o triênio 2023, 2024 e 2025 foi o mais bem-sucedido do futebol de base de Marrocos. Nestes dois anos, os Leões do Atlas foram campeões africanos sub-23 (2023); bronze nos Jogos Olímpicos de Paris (2024); e campeões mundiais sub-20 e campeões africanos sub-17 (ambos em 2025).
No triunfo mundial, no ano passado, os marroquinos eliminaram Brasil, França e Argentina na campanha. Todo esse destaque foi ressaltado e explicado por Fouzi Lekjaa, presidente da FRMF.
O desenvolvimento do futebol de Marrocos se baseia em uma abordagem em três frentes: estrutura, talento e estafe bem qualificado. Minha federação e eu estamos certos de que esses três elementos devem funcionar para que tudo se desenvolva adequadamente — explicou Fouzi Lekjaa
A declaração sintetiza o caminho escolhido pela federação. Enquanto muitas seleções apostam em soluções imediatas, Marrocos optou por investir em infraestrutura, formação e planejamento de longo prazo. Os resultados já colocaram o país entre as principais forças do futebol africano e mostram que a campanha histórica de 2022 esteve longe de ser um acaso.
Marrocos na Copa do Mundo
Marrocos x França — 09/07, às 17h (horário de Brasília), no Gillette Stadium, em Boston
Créditos da foto de capa: Kevin C. Cox/Getty Images