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Futebol

Entenda o segredo da Espanha para transformar jovens em jogadores de elite

A Espanha se tornou uma referência mundial não apenas pelos títulos recentes da seleção principal, mas também pela forma como consegue transformar jogadores das categorias de base em atletas prontos para o futebol profissional.

Enquanto países como Alemanha e Inglaterra precisaram reformular seus sistemas de formação depois de grandes fracassos, o caso espanhol foi diferente. A Espanha começou a rever e profissionalizar suas academias quando o futebol nacional ainda apresentava bons resultados.

A ideia era simples: não esperar uma crise para agir.

Hoje, depois de conquistar grandes torneios consecutivos com a seleção masculina, o modelo começa a chamar ainda mais atenção. Principalmente na Inglaterra, onde existe uma estrutura de formação considerada forte, mas ainda há dificuldades para levar jovens jogadores até o nível mais alto da Premier League.

Espanha reformou categorias de base antes de entrar em crise

Alemanha e Inglaterra representam dois exemplos conhecidos de mudanças estruturais motivadas por resultados ruins.

Os alemães começaram uma grande revisão no desenvolvimento de jovens depois da Copa do Mundo de 1998 e da decepcionante Euro 2000. O resultado apareceu ao longo dos anos, culminando no título mundial de 2014.

A Inglaterra seguiu caminho semelhante após ficar fora da Euro 2008 e realizar uma campanha decepcionante na Copa de 2010.

Poucos meses depois daquele Mundial, a Federação Inglesa apresentou uma revisão completa do desenvolvimento juvenil, com 25 recomendações para melhorar o futebol desde as categorias de base.

O impacto foi significativo. Desde 2018, a Inglaterra alcançou quatro semifinais entre Copa do Mundo e Eurocopa, mesmo número obtido em toda sua história anterior.

A Espanha, porém, começou seu processo sem estar vivendo uma crise semelhante.

Em 2016, clubes das duas principais divisões espanholas começaram a realizar encontros anuais entre academias, compartilhando conhecimentos, metodologias e ferramentas.

Naquele momento, o país havia passado por resultados abaixo das expectativas na Copa de 2014 e na Euro 2016, mas vinha apenas quatro anos depois de conquistar a Euro 2012, completando uma sequência de três grandes títulos consecutivos.

Em 2022, esse trabalho evoluiu para um Plano Nacional de Otimização e Melhoria das Categorias de Base liderado por La Liga.

La Liga dá muito mais espaço aos jogadores espanhóis

Um dos principais diferenciais do futebol da Espanha está justamente na quantidade de oportunidades disponíveis para jogadores formados no próprio país.

Nas dez temporadas anteriores a 2026/27, uma média de 236,6 jogadores espanhóis por temporada atuou pelo menos 450 minutos em La Liga.

A diferença para as outras grandes ligas europeias é enorme.

Na Serie A, a média de italianos atingindo esse número foi de 152,2. Na Ligue 1, 149,9 franceses. Na Bundesliga, 142,6 alemães. Na Premier League, apenas 117,7 ingleses.

Os minutos disputados também mostram a mesma realidade.

Jogadores espanhóis ficaram com uma média de 57,2% de todos os minutos de La Liga durante esse período.

Na Premier League, jogadores ingleses representaram apenas 30,5%. Os alemães ficaram com 40,7% na Bundesliga, italianos com 36,8% na Serie A e franceses com 40,1% na Ligue 1.

Na temporada atual, os espanhóis representam 58,9% dos minutos disputados em La Liga. Nenhuma das outras cinco principais ligas europeias chega sequer aos 40%.

Isso significa que as academias não apenas formam jogadores. Os clubes realmente confiam nesses atletas dentro das equipes profissionais.

Times B ajudam jovens a chegar preparados ao profissional

Outro ponto fundamental do sistema espanhol está nas equipes reservas.

Dos 42 clubes das duas primeiras divisões do país, 41 possuem times B ou equipes dependentes disputando a pirâmide tradicional do futebol.

Isso significa que jogadores de 17, 18, 19 ou 20 anos podem enfrentar adultos regularmente antes mesmo de chegar ao time principal.

Algumas equipes reservas podem subir até a segunda divisão.

O modelo também existe em Alemanha, Itália e França, mas com maiores limitações. Na Alemanha e Itália, as equipes B geralmente não podem ultrapassar a terceira divisão. Na França, muitas ficam restritas até mesmo à quinta.

Na Inglaterra, o cenário é diferente.

Alguns dos principais talentos conseguem subir rapidamente ao profissional, mas muitos continuam disputando competições sub-21 mesmo já tendo 20 ou 21 anos.

Na Espanha, um jogador da mesma idade pode já acumular temporadas enfrentando atletas adultos em ambientes competitivos.

Juan Florit, responsável pelos projetos de futebol de La Liga, considera essa estrutura uma das grandes vantagens do país.

O objetivo não é necessariamente ganhar campeonatos de base, mas preparar o jogador para atuar profissionalmente.

Controle financeiro também fortaleceu as academias

Existe ainda outro elemento importante: as regras financeiras de La Liga.

Desde 2013, cada clube possui um limite salarial definido com base em receitas, despesas e compromissos financeiros.

Quando uma equipe não consegue comprovar que está dentro desse limite, não pode registrar novos jogadores.

A regra recebe críticas, mas também acabou criando um incentivo indireto para que os clubes utilizem atletas formados internamente.

Valencia e Sevilla são exemplos.

Diante de dificuldades financeiras, ambos recorreram frequentemente às categorias de base para completar seus elencos.

O Sevilla, inclusive, conseguiu levantar €21 milhões recentemente com as vendas de dois jogadores formados no clube: Juanlu Sánchez e Oso.

Para La Liga, investir em formação também representa uma maneira de equilibrar desempenho esportivo e sustentabilidade financeira.

O jogador desenvolvido dentro do próprio clube custa menos, pode fortalecer o elenco e ainda gerar grande retorno financeiro posteriormente.

Sucesso da Espanha mostra resultado do sistema

Os resultados das seleções da Espanha reforçam a percepção de que o modelo funciona.

Desde que os encontros entre academias começaram, em 2016, a Espanha conquistou 23 títulos entre seleções masculinas, femininas, principais e de base.

É mais do que o dobro da Alemanha, que aparece com nove. Inglaterra soma sete e França, seis.

Os títulos mais importantes incluem a Copa do Mundo masculina de 2026, a Euro 2024 e o Mundial feminino de 2023.

Mas as conquistas nas categorias menores talvez sejam igualmente importantes para avaliar a continuidade do projeto.

Elas indicam que novas gerações continuam surgindo.

Para a Inglaterra, o contraste naturalmente provoca questionamentos.

A Premier League é considerada uma das competições mais fortes e financeiramente poderosas do mundo. Justamente por isso, porém, existe uma enorme concorrência por espaço.

Os clubes possuem capacidade financeira para contratar jogadores prontos de praticamente qualquer país, diminuindo as oportunidades para talentos locais.

A Inglaterra possui excelentes academias e seu Elite Player Performance Plan também serviu como referência para outros países, inclusive para a própria Espanha.

A diferença parece estar no último passo.

A Espanha não apenas forma seus jogadores. Também cria caminhos para que eles disputem futebol profissional cedo e recebam minutos importantes nas equipes principais.

A filosofia pode ser resumida por uma ideia destacada por Florit: “o jogador é o projeto”.

Não são os resultados das categorias de base, a classificação ou os títulos juvenis que aparecem como prioridade absoluta. O objetivo principal é produzir jogadores capazes de construir uma carreira profissional.

A Espanha já possuía um sistema forte antes de iniciar sua reforma. Em vez de reconstruí-lo depois de uma crise, decidiu protegê-lo e aprimorá-lo.

Os títulos recentes mostram que a estratégia continua funcionando. E enquanto a Inglaterra busca transformar sua enorme produção de talentos em conquistas internacionais, o caminho espanhol oferece uma possível explicação para uma diferença fundamental: formar grandes jogadores é importante, mas confiar neles talvez seja ainda mais.

Foto: FIFA