A ausência de Mohamed Salah entre os titulares do Liverpool pela segunda vez em apenas quatro dias dominou as discussões após o empate por 1 a 1 com o Sunderland, na última quarta-feira, pela 14ª rodada da Premier League, em Anfield. O momento ruim do atacante é, sem dúvida, um sinal de alerta. No entanto, o confronto também expôs um problema muito mais profundo para o técnico Arne Slot. A partida se somou a uma série de jogos nesta temporada em que o Liverpool encontrou enorme dificuldade para lidar com os lançamentos longos dos adversários.
Mais de um mês se passou desde que o técnico Arne Slot admitiu publicamente que seu time “não tinha resposta” para equipes que exploravam essa estratégia — e a solução ainda parece distante. De acordo com dados da Opta, o Sunderland tentou 73 bolas longas em Anfield, o terceiro maior número registrado por qualquer equipe em um jogo de Premier League na temporada. Mas, para o Liverpool, esse cenário está longe de ser novidade, já que o time voltou a tropeçar em casa.
Na verdade, o Liverpool de Slot enfrentou quatro das cinco maiores marcas de passes longos em jogos individuais neste campeonato, com adversários buscando explorar uma vulnerabilidade que se tornou evidente. Até aqui, o clube venceu apenas um dos quatro jogos em que os oponentes superaram a marca de 70 lançamentos. Essa abordagem permitiu ao Sunderland arrancar um ponto valioso, enquanto equipes como Crystal Palace e Manchester United conseguiram ir além, somando três pontos.
Os números reforçam um padrão claro na gestão de Slot. Nos 13 jogos de Premier League em que o Liverpool enfrentou adversários com mais de 20% dos passes em bolas longas, o aproveitamento de vitórias caiu para apenas 30,8%, em contraste com 71,8% nas demais partidas. Tudo começou nos pés de Robin Roefs diante do Sunderland: o goleiro errou 31 de seus 53 passes, sua marca mais alta na temporada, mas gerou exatamente o efeito que o time precisava.
Em relação à temporada passada, isso representa uma ruptura brusca: naquela campanha, os adversários do Liverpool direcionaram só 12,08% de seus passes para lançamentos longos. A mudança atual causa estranhamento no técnico Arne Slot, embora, olhando para o histórico recente, seja a temporada anterior — e não a atual — que mais foge da curva nas últimas dez temporadas. Sob o comando de Jurgen Klopp, os percentuais parecidos com os atuais eram comuns, desde sua chegada aos Reds em 2015.
O declínio só veio nos últimos anos do alemão, mas jamais tão acentuado quanto agora nos Reds. E, assistindo ao Liverpool de hoje, torna-se evidente por que tantos times estão adotando a estratégia de recuar e apostar em passes diretos: além de driblarem a pressão alta, encontram um Liverpool que pressiona menos e recupera menos bolas no campo ofensivo. Em 2024/25, dados de turnovers, pressões no terço final, contra-pressões e recuperações caíram consideravelmente.
Também pesa a ineficiência no outro lado do campo. Embora Van Dijk e Ibrahima Konaté sustentem bons números defensivos — com o holandês elevando sua taxa de sucesso em duelos aéreos de 72% para 78%, e Konaté de 70% para 72% — ambos estão sendo forçados a disputar cerca de 45% mais bolas pelo alto. As segundas bolas, por sua vez, seguem sendo um tormento que tem custado pontos valiosos ao Liverpool na Premier League e cada vez mais distante do bicampeonato, em relação a última temporada, quando conquistou o título.

Arne Slot corre contra o relógio para corrigir falhas do Liverpool
Desde que assumiu o comando do Liverpool, o técnico Arne Slot implantou uma filosofia marcada por posse, construção paciente e transições velozes. Contudo, a realidade da Premier League 2025/26 mostrou que equipes com menos refinamento técnico estão usando o jogo direto e os lançamentos longos para expor falhas estruturais nos Reds.
Problemas estruturais — e profundos
Slot e sua comissão já admitiram que o volume de “long balls” enfrentado é muito maior do que no ano anterior. Apenas nos últimos sete jogos, o Liverpool precisou defender 178 bolas longas; em outro confronto isolado, foram 59. Isso gera constantes situações de vulnerabilidade: espaços às costas dos laterais avançados, duelos pelo alto e segundos lances mal protegidos — sobretudo contra adversários em bloco baixo e transições rápidas.
Além disso, o time sofreu gols demais em jogadas abertas e cruzamentos, evidenciando lacunas defensivas quando não tem a bola — situações diretas que anulam o jogo posicional proposto.

Ajustes táticos e respostas de Slot
Reconhecendo a mudança de mentalidade no futebol inglês — cada vez mais físico, vertical e direto — Slot tem tentado se adaptar. Ele declarou que cabe “aos jogadores” encontrar soluções contra equipes que defendem baixo e abusam dos lançamentos. Entre os ajustes testados, estão:
Redução da altura da linha defensiva e posicionamento mais recuado para evitar ataques às costas.
Meio-campo mais robusto fisicamente, com um “camisa 6” mais forte para disputar duelos aéreos e segundas bolas.
Ajustes no perfil e no avanço dos laterais, evitando espaços grandes em ataques diretos do rival.
Intensificação da organização defensiva, com sessões táticas voltadas a decisões de pressão, recuo e reação a cruzamentos e bolas longas.

O desafio de equilibrar defesa e identidade
O dilema de Slot é claro: buscar solidez defensiva sem renunciar ao estilo ofensivo de posse e transições que marca o Liverpool. Muitas das adaptações — como recuar a linha ou usar um volante mais destrutivo — contrariam a filosofia original do treinador.
Por enquanto, os resultados mostram evolução parcial: o time segue criando chances, gerando xG e dominando a posse, mas os erros defensivos ligados a bolas longas, cruzamentos e transições continuam impactando o rendimento.

Conclusão: um quebra-cabeça urgente
Slot reconhece que o Liverpool precisa evoluir defensivamente para sobreviver ao novo contexto da Premier League. Isso exige ajustes táticos ousados, paciência e trabalho contínuo — mas o calendário apertado, as lesões e a pressão aumentam o peso de cada falha.
Se o time conseguirá equilibrar ataque e segurança defensiva ainda é incerto. O momento representa um dos maiores testes da gestão Arne Slot, que está no comando dos Reds na última temporada.

Slot tenta corrigir desequilíbrios e reconstruir a química do Liverpool
O técnico Arne Slot tenta reconstruir o Liverpool com paciência e pragmatismo, buscando recuperar o equilíbrio que fez do clube uma potência global. Ele aposta na liderança de veteranos como Virgil van Dijk e Mohamed Salah, enquanto trabalha para integrar reforços de peso, como Florian Wirtz e Alexander Isak, num processo que exige ajustes, adaptação e reconstrução coletiva.
Slot já exaltou publicamente a importância de Van Dijk — “é quase impossível descrever o quanto ele significa para o Liverpool” — e vê no capitão a âncora de uma defesa que ainda tenta se reencontrar. Sua renovação garante continuidade a uma retaguarda que, mesmo vulnerável, mantém um dos melhores zagueiros do mundo.
Com Salah, o objetivo é recuperar brilho e confiança. Mesmo em fase irregular, Slot reforça que o egípcio segue essencial ao projeto e que seu impacto será determinante para a retomada ofensiva.
No caso de Wirtz e Isak, o treinador adota cautela. Wirtz ainda precisa se ajustar ao ritmo frenético da Premier League e ao entrosamento com os companheiros. Já Isak, contratado para liderar o ataque, começou a temporada sem pré-temporada e vive oscilação; Slot planeja integrá-lo gradualmente, sem pressa excessiva.
O foco maior, contudo, vai além dos indivíduos: Slot sabe que o Liverpool precisa reencontrar coerência coletiva. A aposta é numa síntese entre solidez e criatividade, entre veteranos e reforços, entre identidade histórica e renovação.
A permanência dos pilares, aliada à evolução dos novos nomes, representa a melhor oportunidade para Slot reconstruir um Liverpool competitivo — capaz de unir experiência e juventude, consistência e ousadia, passado e futuro.
(Foto: Getty Images)