Nos últimos anos, Sean Strickland deixou de ser conhecido apenas pelo seu estilo agressivo dentro do octógono para se tornar uma das figuras mais controversas fora dele.
O ex-campeão dos médios do UFC transformou entrevistas coletivas, podcasts e redes sociais em um palco para declarações cada vez mais extremas, muitas delas marcadas por homofobia, xenofobia e ataques gratuitos a minorias.
O mais preocupante não é apenas o conteúdo das falas, mas o fato de que praticamente não existe qualquer retaliação real por parte da organização, algo que, direta ou indiretamente, ajuda a mantê-lo em evidência.
Strickland passou a construir uma persona baseada no discurso de “liberdade de expressão”, frequentemente utilizando esse argumento como escudo para comentários ofensivos. Ao contrário de outros atletas que já sofreram suspensões ou punições por condutas inadequadas, ele continua sendo promovido em grandes eventos e mantido na rota de disputas importantes da divisão dos médios. Isso cria a percepção de que, no cenário atual, polêmica gera engajamento e isso gera oportunidades.
Um dos episódios mais recentes reforçou essa imagem. Durante comentários sobre o show do intervalo do Super Bowl, que contou com a participação de Bad Bunny, Strickland disparou uma sequência de declarações ofensivas, misturando preconceito cultural com ataques à comunidade LGBTQIA+.
“Eu nem quero dizer o nome daquele filho da p*** (sobre Bad Bunny). Porque, tipo, alguém me diz o nome dele. Fala o nome dele, eu não quero dizer. Vocês sabem de quem eu estou falando. O cara do show do intervalo, o porto-riquenho, né? Porto-riquenho?… Cara, é, aquele filho da p***. É tão louco que essa é a América hoje em dia. Antigamente, cara, a NFL era tipo o padrão de masculinidade.”
Em seguida, o lutador elevou ainda mais o tom:
“Eles dizem: ‘Sabe de uma coisa, pessoal, como a gente estraga esse esporte? Como a gente o torna gay? Como a gente o arruína? Bem, vou lhes dizer uma coisa: por que não trazer um estrangeiro gay que não fala inglês e fazê-lo se apresentar? Tipo, sai daqui. É, cara, a NFL está patética hoje em dia. Até os jogadores da NFL provavelmente odeiam isso. É, não, a NFL é gay. Acho que todos podemos concordar que a NFL ficou muito gay ultimamente.”
As declarações atacam diretamente não apenas o artista, mas também um público inteiro, além de carregar um evidente tom xenofóbico ao associar negativamente o fato de Bad Bunny ser latino e cantar em espanhol. A crítica deixa de ser opinião artística ou esportiva e passa a ser um discurso de exclusão.

Strickland usa polêmica como estratégia de sobrevivência esportiva
O ponto central dessa discussão não é apenas o comportamento de Strickland, mas o impacto que isso gera dentro da própria lógica promocional do MMA moderno.
O UFC sempre valorizou personalidades fortes, e isso não é novidade. Desde a era de lutadores que promoviam rivalidades intensas até o crescimento das redes sociais como ferramenta de marketing, a organização aprendeu que personagens vendem eventos.
Entretanto, existe uma linha clara entre promover rivalidade esportiva e amplificar discursos preconceituosos. Quando um atleta ultrapassa essa barreira repetidamente e ainda assim continua sendo recompensado com lutas importantes, a mensagem transmitida é perigosa.
Strickland está escalado para enfrentar Anthony Hernandez em um confronto que pode colocá-lo novamente na disputa direta pelo cinturão dos médios. Isso acontece mesmo após uma sequência de entrevistas repletas de declarações controversas. Na prática, a polêmica mantém seu nome em alta e o coloca constantemente nos holofotes, exatamente o que o esporte, do ponto de vista comercial, busca.
Essa estratégia, porém, pode gerar consequências negativas para a imagem global da organização. O UFC hoje é uma marca internacional, transmitida para dezenas de países, com atletas de diversas culturas e nacionalidades. Permitir que um dos seus principais nomes utilize discursos xenófobos e homofóbicos sem qualquer punição relevante entra em choque direto com a expansão global que a própria empresa tenta consolidar.
Além disso, existe o impacto interno. Muitos lutadores estrangeiros fazem parte do elenco e representam mercados importantes. O silêncio institucional diante dessas falas pode ser interpretado como conivência ou, no mínimo, tolerância.
O presidente Dana White frequentemente defende que os atletas tenham liberdade para se expressar, mas essa postura levanta um debate inevitável: até que ponto a liberdade de expressão pode ser utilizada para justificar discursos discriminatórios?
No fim das contas, Sean Strickland parece ter encontrado uma fórmula eficiente para permanecer relevante. Independentemente de vencer ou perder, suas declarações garantem repercussão constante. O problema é que essa relevância não vem apenas do desempenho esportivo, mas de uma construção baseada em choque, provocação e preconceito.
E quando a polêmica passa a ser mais importante que o esporte, quem perde não é apenas a imagem do atleta, é a credibilidade do próprio MMA como produto global.
(Imagem de capa: Jeff Bottari/Zuffa LLC)