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Strickland acredita que é o único capaz de derrotar Chimaev; será?

No mundo do MMA, confiança sempre foi uma moeda valiosa. E poucos lutadores carregam essa confiança de forma tão explícita quanto Sean Strickland. Em entrevista concedida à ESPN americana, o ex-campeão dos médios afirmou que é “o único” capaz de derrotar Khamzat Chimaev em uma eventual disputa de cinturão. “Acho que provavelmente sou o único que poderia vencer o Chimaev”, disse Strickland.

A frase é direta e típica do estilo provocador de Strickland. Mas, analisando friamente a profundidade da divisão dos médios do UFC, a declaração é um reflexo de autoconfiança estratégica ou um descrédito aos demais postulantes ao título?

A categoria até 84 kg vive um momento de enorme competitividade. Chimaev conquistou o cinturão ao derrotar Dricus Du Plessis, encerrando o reinado do sul-africano de maneira dominante. Invicto no MMA profissional e com um estilo sufocante baseado em wrestling de altíssimo nível, pressão constante e agressividade desde o primeiro segundo, o campeão se consolidou como um dos nomes mais temidos do plantel.

Ainda assim, sua frequência de lutas totalmente irregular, abre espaço para questionamentos e para que outros atletas se posicionem publicamente. Esse é o caso de praticamente todos os postulantes ao cinturão, que sempre proporcionam declarações sobre o fato de Chimaev, de certo modo, bloquear a categoria.

Strickland, por sua vez, construiu sua identidade dentro do octógono com volume alto de golpes, boxe consistente, excelente defesa e um cardio que sustenta cinco rounds em ritmo elevado. Ele já provou que pode vencer no mais alto nível ao conquistar o cinturão anteriormente e, principalmente, ao apresentar uma das performances mais sólidas contra strikers técnicos.

O argumento central do ex-campeão parece girar em torno de dois pilares: resistência mental e capacidade de manter a luta em pé por longos períodos. Contra Chimaev, a chave estaria justamente em frustrar as tentativas de queda, alongar o combate e forçar o campeão a lutar fora da zona de conforto. Mas dizer que ele é o único capaz de fazer isso ignora nomes extremamente credenciados na divisão, além de se colocar no mesmo patamar de Khamzat, algo bem improvável.

Analisando a afirmação de Strickland

Nassourdine Imavov, por exemplo, vive excelente fase. Com striking técnico, movimentação inteligente e defesa de quedas em constante evolução, o francês se consolidou como um dos lutadores mais estratégicos da categoria. Ele talvez seja, hoje, o atleta que melhor combina disciplina tática com poder de definição. Seu estilo cerebral pode representar um desafio complexo para o ímpeto inicial de Chimaev.

Já Du Plessis, mesmo tendo perdido o cinturão para o atual campeão, continua sendo um nome fortíssimo. Seu jogo físico, pressão constante e resistência em lutas longas mostram que ele não é um adversário facilmente descartável. Derrotas em disputas de título não eliminam a possibilidade de ajustes técnicos e estratégicos para um eventual reencontro.

Outro nome que não pode ser ignorado é Anthony Hernandez, justamente o próximo oponente de Strickland. Hernandez construiu uma sequência impressionante baseada em grappling agressivo, ritmo sufocante e evolução clara no striking.

Caso vença Strickland, ‘Fluffy’ não apenas legitimará sua posição como postulante, mas também mostrará que possui ferramentas semelhantes às de Chimaev no quesito pressão e luta agarrada, o que torna a declaração de Sean ainda mais arriscada às vésperas desse confronto.

Sean Strickland quer destronar Khamzat Chimaev e recuperar o cinturão dos médios do UFC
Sean Strickland quer destronar Khamzat Chimaev e recuperar o cinturão dos médios do UFC (Imagem: Reprodução UFC)

Tecnicamente, o que diferencia Strickland? Sua defesa de quedas é sólida, mas não intransponível. Seu boxe é eficiente, porém não devastador. Ele vence pelo acúmulo, pela consistência e pela disciplina tática. Contra Chimaev, isso poderia funcionar caso sobreviva aos dois primeiros rounds, historicamente os mais perigosos do campeão.

Contudo, afirmar ser o maior “problema da divisão” ignora que estilos como o de Imavov ou até mesmo o de Hernandez em noite inspirada também podem apresentar soluções estratégicas viáveis.

No fundo, a fala de Strickland parece muito mais uma construção narrativa do que uma análise literal da divisão. No MMA moderno, posicionamento público conta. Pressão midiática influencia matchmakers. Declarações fortes geram debate, engajamento e mantêm o atleta no centro das conversas.

Portanto, a resposta à indagação é equilibrada: não se trata necessariamente de desrespeito direto, mas há evidente exagero competitivo. Strickland é, sim, um dos médios com mais chances de desafiar Chimaev, especialmente se conseguir impor seu ritmo e neutralizar o wrestling inicial do campeão. Porém, está longe de ser o único e, principalmente, de estar no nível do campeão.

A divisão dos médios vive uma boa fase, em que diferentes estilos oferecem caminhos para desafiar o campeão. E talvez seja justamente essa diversidade técnica que torne a categoria uma das mais intrigantes do cenário atual do UFC.

(Imagem de capa: Divulgação UFC)