O tanking na NBA está fora de controle e Adam Silver finge que não vê
Basquete NBA

O tanking na NBA está fora de controle e Adam Silver finge que não vê

O caso recente do Sacramento Kings contra o Golden State Warriors expôs, mais uma vez, o problema crônico do tanking na NBA. Quando um técnico manda intencionalmente cometer uma falta em um jogador a 15 metros da bola, apenas para parar o jogo e usar um timeout que estava prestes a expirar, o limite entre “erro honesto” e manipulação de resultado fica perigosamente tênue. 

A liga investigou, concluiu que foi um “erro” e não puniu o time. Mas a realidade é que o episódio reforça uma verdade incômoda: o sistema atual incentiva a derrota e está corroendo a credibilidade da competição.

O tanking não é um problema novo, mas está piorando

Nos últimos 10 anos, os clubes da Championship (segunda divisão inglesa, mas o paralelo com o tanking da NBA é claro) acumularam perdas astronômicas. Na NBA, o cenário é semelhante. Clubes perdem dezenas de milhões por temporada na esperança de conseguir uma escolha alta no Draft. A lógica é simples: quanto pior o recorde, maior a chance de pegar um talento geracional. O problema é que essa estratégia virou cultura. Metade da liga, especialmente a partir de fevereiro, começa a jogar com motivações diferentes da vitória.

O caso de Sacramento é emblemático. Doug Christie mandou Doug McDermott cometer falta em Seth Curry, um dos melhores free-throw shooters da liga, quando o time estava vencendo por um ponto. A explicação oficial foi que o treinador queria parar o jogo para usar um timeout antes que ele expirasse automaticamente. A NBA aceitou. Mas a imagem ficou: um time deliberadamente cometendo falta para manipular o ritmo do jogo. Se isso não é tanking, o que é?

Adam Silver já admitiu que o problema existe. Ele prometeu mudanças significativas no sistema de loteria para a próxima temporada. No entanto, enquanto as regras não mudam, os times continuam encontrando brechas. Lesões convenientes, minutos limitados, “gerenciamento de carga” e agora “erros honestos” viraram desculpas padrão. 

O comissário não pode mais se dar ao luxo de diferenciar intenção de incompetência. Quando o cheiro de manipulação está no ar, a liga precisa agir com mais rigor, mesmo que isso signifique punições duras por mera aparência.

O custo da mediocridade incentivada

O tanking não prejudica apenas a integridade do esporte. Ele afeta o produto que a NBA vende. Torcedores pagam ingressos caros para ver jogos que, em muitos casos, já estão decididos antes mesmo do início. Jogadores jovens são colocados em situações onde perdem minutos ou são usados de forma estranha para “desenvolver” em meio a derrotas. 

A própria imagem da liga sofre quando metade dos times parece mais preocupada com o Draft do que com a vitória.

Clubes como Sacramento, que estão em reconstrução, argumentam que precisam perder para reconstruir. Mas o problema é que essa estratégia cria um ciclo vicioso. Quanto mais times realizam o tanking, mais difícil fica para a liga manter a competitividade real. E quando um técnico como Doug Christie, que publicamente diz respeitar o jogo, é pego em uma situação como essa, a confiança dos fãs fica ainda mais abalada.

Silver já multou times por sentar jogadores saudáveis. Mas multas não são suficientes. O comissário precisa encontrar uma forma mais efetiva de punir comportamentos que, mesmo que não sejam intencionais, contribuem para a percepção de que a derrota é recompensada. Caso contrário, o risco é que o público comece a tratar jogos de fevereiro e março como mera formalidade.

A NBA e o Adam Silver devem impor regras mais estritas

A solução não é simples. Reformar a loteria já foi tentada e, segundo especialistas, pode até piorar o problema ao incentivar times a perder de forma mais sutil. A ideia de um teto salarial mais rígido ou punições financeiras mais severas para times que perdem demais também é discutida. Mas enquanto a recompensa por uma escolha alta no Draft continuar sendo tão grande, times continuarão encontrando maneiras de perder.

O caso do Sacramento Kings serve como alerta. Mesmo que tenha sido um “erro honesto”, como concluiu a NBA, a imagem ficou. E imagens como essa corroem a credibilidade da liga. Adam Silver não pode mais se dar ao luxo de diferenciar intenção de resultado. Se o comportamento parece tanking, deve ser tratado como tal.

O basquete merece competição real. Torcedores merecem acreditar que os times estão jogando para vencer, não para perder. Enquanto a NBA não resolver isso de forma definitiva, casos como o de Sacramento continuarão surgindo. E cada um deles torna mais difícil defender a integridade da liga.

O tanking não é só um problema de ética. É um problema de produto. E se Adam Silver não agir com mais firmeza, a “catástrofe” que alguns já preveem pode se tornar realidade mais cedo do que imaginamos.

Foto: Chase Stevens/Las Vegas Review