Lutas UFC

The Smashing Machine por um fã de MMA desde os primórdios

The Smashing Machine, “Coração de Lutador no Brasil”, dirigido por Benny Safdie e estrelado por Dwayne Johnson e Emily Blunt, é mais do que apenas um drama biográfico sobre um lutador de MMA, é um mergulho cru e visceral na mente e no corpo de um homem que viveu os extremos do esporte e da existência.

Para quem acompanhou de perto a era de ouro do vale-tudo, do MMA com regras mínimas, dos torneios sem peso, tempo ou piedade, este filme bate diferente. Eu estive lá. Eu vi Mark Kerr subir como uma força bruta nos ringues do UFC e do PRIDE, esmagando adversários com um wrestling avassalador e uma força bruta que beirava o sobre-humano.

Mas também vi, como muitos, o outro lado. A época do colapso, do vício, da desconstrução lenta de um ídolo que sangrava por dentro enquanto sorria nas coletivas. De um cara que espantava os adversários pelo seu tamanho, mas que vivia uma realidade interna espantosa também.

No papel de Kerr, Dwayne Johnson entrega a atuação mais transformadora de sua carreira. Esqueça o carisma infalível e os músculos a serviço de blockbusters. Aqui, ele se despe do mito de “The Rock” e encarna um homem quebrado, frágil e perdido.

A semelhança física impressiona, graças ao trabalho de maquiagem e preparação corporal, mas é na expressão dos silêncios, das recaídas, das dores não verbalizadas que ele realmente convence. Johnson não interpreta Mark Kerr como um herói trágico, mas como um ser humano tentando desesperadamente sobreviver à própria lenda.

Em The Smashing Machine, Dwayne Johnson está muito bem no papel de Mark Kerr
Em The Smashing Machine, Dwayne Johnson está muito bem no papel de Mark Kerr (Imagem: A24 – Zuffa LLC via Getty)

Emily Blunt, no papel de Dawn Staples, sua companheira, oferece uma presença emocional densa, embora o roteiro nem sempre explore seu ponto de vista com a profundidade que merecia. Reduzi-la a uma mulher chata e egoísta, seria diminuir a história do próprio Kerr.

Benny Safdie, conhecido por seu estilo frenético e realista em Uncut Gems (Joias Brutas), encontra aqui um equilíbrio surpreendente entre brutalidade e contemplação. A escolha de filmar trechos em 16mm e usar texturas visuais que remetem à estética VHS dos anos 90 traz uma autenticidade crua ao filme.

As cenas de luta não são estilizadas para o entretenimento. Elas são desconfortáveis, sujas, muitas vezes longas, e sempre imprevisíveis, trazendo uma experiência parecida ao que era assistir a um evento do PRIDE naquela época.

Não há trilha heróica quando o sangue escorre ou quando o córner tenta, em vão, impedir Kerr de voltar para a guerra. O impacto físico é sentido em cada soco, em cada queda, mas é o dano psicológico que permanece.

The Smashing Machine é uma viagem ao passado obrigatória para os fãs de MMA

Para quem viveu aquela era do MMA, antes da unificação das regras, antes dos contratos milionários e das celebridades, The Smashing Machine é quase um documentário emocional. Revemos o peso da expectativa que caiu sobre os ombros de Kerr quando ele se tornou o rosto de um esporte em ascensão.

Mas também revisitamos as falhas sistêmicas que deixaram lutadores vulneráveis: a normalização do uso de analgésicos, a negligência com a saúde mental, a glorificação de comportamentos autodestrutivos como se fossem sinônimos de força.

O filme, no entanto, não é perfeito. Sua estrutura narrativa segue a cartilha tradicional dos dramas esportivos, ascensão, queda, tentativa de redenção e, em alguns momentos, parece previsível.

Além disso, embora Blunt entregue uma performance sólida, sua personagem é por vezes reduzida à função de espectadora do colapso de Kerr, quando poderia ter ganhado mais protagonismo emocional. Ainda assim, esses deslizes não comprometem o impacto geral da obra.

The Smashing Machine acerta ao recusar o glamour. Ele não tenta transformar Kerr em mártir nem em vilão. Apenas o mostra como ele foi: um gigante aterrorizante no ringue, e um homem, frágil gentil e perdido fora dele.

O filme não oferece redenção fácil, porque a vida de Kerr tampouco ofereceu. O final é menos sobre superação e mais sobre aceitação, e essa escolha narrativa é, em si, um golpe de realidade que honra a complexidade do personagem.

Mark Kerr se recuperou na vida
Mark Kerr se recuperou na vida (Imagem: Tiziana Fabi/AFP via Getty Images)

Para quem ama lutas, não só como espetáculo, mas como expressão humana, este filme é obrigatório. Para quem acompanhou Mark Kerr no auge, como eu acompanhei, é chocante, sim. Mas também é revelador e necessário.

Revisitar essa história é lembrar que os maiores golpes, muitas vezes, não vêm do oponente. Vêm de dentro. E entender isso talvez seja o único caminho possível para, enfim, levantar-se depois de cair. E ele se reergueu.

(Imagem de capa: Divulgação The Smashing Machine)