thomas frank tottenham
Futebol Premier League

Thomas Frank enfrenta crise no Tottenham: estava condenado desde o início?

A imagem de Thomas Frank bebendo água em um copo com o escudo do Arsenal não passou de um acidente banal, mas acabou simbolizando perfeitamente o momento torto vivido pelo treinador no Tottenham. Um detalhe pequeno, quase irrelevante, que ganhou proporções enormes em meio a derrotas, tensão interna e um ambiente cada vez mais pesado.

Frank até fez bem em minimizar o episódio, deixando claro que não houve intenção alguma. O problema é que o caso veio à tona logo após mais uma derrota dolorosa, dessa vez para o Bournemouth, fora de casa, em um jogo que terminou com clima de confronto entre torcida e jogadores. Tudo isso só aumentou a sensação de que o treinador dinamarquês vem perdendo o controle do ambiente.

Para completar o cenário, a derrota foi seguida por uma postagem polêmica do capitão Cristian Romero no Instagram, em que ele sugeria que a diretoria estaria mentindo. A publicação foi editada depois, mas o estrago já estava feito. O Tottenham chega ao duelo contra o Aston Villa, pela FA Cup, cercado de desconfiança, com apenas uma vitória nos últimos seis jogos da Premier League e ocupando apenas a 14ª colocação.

Um começo promissor que virou desconfiança

Ainda é cedo para dizer que Thomas Frank está condenado ao fracasso no Tottenham, mas é inegável que ele enfrenta dificuldades enormes para se firmar. O salto de Brentford para Spurs não é apenas de tamanho de clube, mas de pressão, exposição e cobrança diária.

Em Brentford, Frank trabalhava em um ambiente estável, bem organizado e protegido, com Matthew Benham e Phil Giles dando sustentação a um projeto claro. No Tottenham, a realidade é outra. A exigência é imediata, o escrutínio é constante e até mesmo um título europeu, como mostrou o caso de Ange Postecoglou, não garante estabilidade.

O início até animou. Vitórias contra Burnley, em casa, e Manchester City, fora, criaram uma expectativa positiva. Mas bastaram alguns tropeços para o clima virar. Parte da torcida nunca se convenceu do estilo de jogo nem do perfil do treinador, e isso rapidamente virou ruído constante nas arquibancadas e nas redes sociais.

A sensação de fragilidade aumentou quando os resultados pararam de aparecer e episódios de indisciplina começaram a surgir de forma pública, colocando em xeque a autoridade do técnico.

Sinais claros de perda de controle do time de Thomas Frank

O ponto de inflexão parece ter sido a derrota por 1 a 0 para o Chelsea, em novembro. Além da atuação apática, com apenas 0,1 de xG, chamou atenção o pós-jogo. Djed Spence e Micky van de Ven ignoraram completamente Frank ao deixarem o campo, se recusando a ir até a torcida.

Mesmo com pedidos de desculpa posteriores, a imagem ficou. A leitura externa foi clara: o treinador não tinha pleno comando do vestiário. Pouco depois, Spence voltou aos holofotes ao reagir mal a uma substituição na derrota para o Nottingham Forest, alimentando ainda mais o debate.

Frank também se envolveu em outra polêmica ao defender publicamente o goleiro Vicario após vaias da torcida. Ao classificar o comportamento como inaceitável e dizer que não representava “verdadeiros torcedores do Spurs”, o técnico comprou uma briga delicada. Historicamente, esse tipo de enfrentamento direto com a arquibancada raramente termina bem.

As manifestações de insatisfação passaram a ser constantes, tanto em jogos fora de casa quanto em casa. Em Bournemouth, após o gol decisivo de Antoine Semenyo, houve discussão entre jogadores e torcedores. Romero voltou a se expor publicamente, e Frank, mais uma vez, adotou um tom brando ao defendê-lo.

O problema é que Romero não é um jovem em formação. Aos 27 anos, campeão do mundo, seu histórico de cartões e erros pesa. A defesa pública excessiva reforçou a percepção de que Frank evita confrontos internos mais duros, algo mal visto em um clube já à deriva.

Futebol sem identidade e números preocupantes

Dentro de campo, o Tottenham também não convence. A proposta de jogo é vista como engessada, conservadora e distante do que a torcida espera. O uso de uma linha de cinco defensores no clássico contra o Arsenal, que terminou em goleada, foi duramente criticado e simbolizou essa falta de identidade.

O time não empolga, não pressiona e tampouco vence. Apesar de uma situação relativamente confortável na Champions League, o desempenho na Premier League é fraco. Após 21 rodadas, o Spurs soma 27 pontos, apenas três a mais do que tinha na mesma altura da temporada passada.

Em Brentford, Frank construiu sucesso com um modelo claro: jogo direto, intensidade e transições rápidas, aproveitando atacantes fortes fisicamente e objetivos. No Tottenham, nada disso se estabeleceu. Falta clareza, falta confiança e, principalmente, falta impacto ofensivo.

A ausência de jogadores-chave também pesa, mas o conjunto não mostra evolução. O time parece travado, sem plano B e sem capacidade de reação quando sai atrás no placar.

Há atenuantes e contexto a considerar

Apesar de tudo, é importante contextualizar o trabalho de Thomas Frank. Ele está no clube há apenas sete meses, tempo curto para resolver problemas estruturais profundos. O título da Europa League mascarou uma temporada anterior desastrosa, que terminou com o Tottenham em 17º lugar na liga.

Frank também perdeu Son Heung-min, símbolo do clube, e praticamente não contou com Kulusevski e Maddison por conta de lesões. Dominic Solanke mal jogou, Kudus está fora até abril e reforços importantes acabaram não chegando.

A frustração foi grande com os fracassos nas negociações por Eberechi Eze e Morgan Gibbs-White. Perder Eze para o Arsenal, que ainda o viu brilhar no clássico, foi um golpe duro para o planejamento e para o psicológico do elenco.

O Tottenham carece de um jogador capaz de decidir jogos sozinho, algo que Eze poderia ter oferecido. Sem isso, o time se torna previsível e dependente de soluções coletivas que não funcionam.

O futuro imediato define o destino

Frank afirma ver um clube alinhado internamente, mas precisa provar isso rapidamente. O apoio da diretoria existe, e Vinai Venkatesham é conhecido por dar tempo aos treinadores, como fez com Arteta no Arsenal.

Ainda assim, o relógio corre. O Tottenham é um ambiente que engole quem não se impõe. Frank precisa recuperar o vestiário, dar respostas táticas e, acima de tudo, vencer. Caso contrário, a sensação de que ele estava condenado desde o início pode deixar de ser exagero e virar realidade.