A iminente transferência de Savinho para o Tottenham por 75 milhões de libras, com mais 10 milhões de libras em possíveis bônus, representa muito mais do que uma simples negociação entre dois clubes da Premier League. O negócio pode se tornar um marco para o City Football Group, grupo que controla o Manchester City e mantém uma rede de clubes espalhada pelo mundo.
Caso os valores sejam confirmados, Savinho será a venda mais cara da história do Manchester City. Para o City Football Group, no entanto, o brasileiro também representa um exemplo claro de como funciona o modelo de desenvolvimento, empréstimos e valorização de jovens talentos dentro de uma estrutura multiclubes.
A trajetória do jogador dentro do grupo foi peculiar. Contratado pelo Troyes, clube francês pertencente ao CFG, em 2022, Savinho nunca chegou a disputar uma partida oficial pela equipe. Pouco depois, iniciou uma sequência de empréstimos que passaria a definir o rumo de sua carreira.
Primeiro, o brasileiro foi cedido ao PSV, da Holanda. Em seguida, chegou ao Girona, da Espanha, outro clube ligado ao City Football Group. Foi justamente em território espanhol que o atacante viveu o momento que o colocou definitivamente no radar do futebol europeu.
Girona foi o ponto de virada para Savinho
Na temporada 2023/24, Savinho se tornou uma das principais peças do Girona. O atacante disputou 37 partidas em La Liga, marcou nove gols e distribuiu oito assistências, ajudando o clube a conquistar uma classificação histórica para a Champions League.
O desempenho fez com que o Manchester City decidisse levá-lo para a Inglaterra. Em 2024, o clube inglês desembolsou cerca de 30,8 milhões de libras para contratar o brasileiro do Troyes, uma negociação que também gerou questionamentos sobre o valor envolvido, justamente por acontecer entre duas equipes pertencentes ao mesmo grupo empresarial.
Dentro de campo, a passagem de Savinho pelo Manchester City teve momentos positivos, mas não foi suficiente para transformá-lo em um protagonista absoluto. Em duas temporadas de Premier League, o brasileiro marcou apenas dois gols e deu 12 assistências.
Na primeira temporada, porém, participou de 48 jogos sob o comando de Pep Guardiola e terminou com 16 participações em gols em todas as competições. Suas oito assistências na Premier League também foram a maior marca do Manchester City naquela campanha.
Ainda assim, sua trajetória em Manchester parece ter sido mais bem-sucedida financeiramente do que esportivamente. O City pode ter comprado Savinho por cerca de 30,8 milhões de libras e agora negociá-lo por um valor inicial de 75 milhões, com a possibilidade de o negócio ultrapassar 85 milhões.
A diferença mostra por que a operação é vista como uma grande vitória para o City Football Group.
Modelo multiclubes cria caminho para valorização de talentos
O CFG possui ligações com 12 clubes ao redor do mundo e utiliza essa rede como parte de sua estratégia para identificar, desenvolver e acompanhar jovens jogadores.
A ideia, em teoria, é criar caminhos diferentes para que um atleta possa evoluir antes de chegar ao Manchester City, considerado o principal clube da estrutura. Nem todos, porém, precisam terminar no Etihad Stadium para que sejam considerados um sucesso.
Savinho é o exemplo perfeito. Ele chegou ao grupo aos 18 anos, passou por experiências em diferentes ligas europeias, se destacou no Girona, chegou ao elenco de Pep Guardiola e agora pode ser vendido por uma quantia recorde.
O próprio Manchester City entende que esse processo representa um sucesso esportivo, além do financeiro. O jogador teve uma trajetória de desenvolvimento, conseguiu atuar em uma das equipes mais importantes do mundo e, posteriormente, gerou um enorme retorno econômico.
A grande questão, naturalmente, será saber se o Tottenham está pagando um valor justo por Savinho.
Há quem considere os 75 milhões de libras uma quantia exagerada para um jogador que não se consolidou como titular absoluto do Manchester City. Por outro lado, o Tottenham pode enxergar o brasileiro como um atleta de enorme potencial, ainda com apenas 22 anos e capaz de recuperar o nível apresentado no Girona.
A resposta, como acontece com qualquer grande transferência, será dada dentro de campo.
Manchester City transforma jovens jogadores em grandes negócios
A negociação de Savinho não é um caso isolado. Nos últimos anos, o Manchester City se tornou extremamente eficiente na venda de jovens talentos.
Segundo o levantamento citado pela BBC, o clube arrecadou mais de 250 milhões de libras com a venda de jogadores desenvolvidos ou trabalhados dentro de sua estrutura nos últimos cinco anos.
Nomes como Morgan Rogers, Douglas Luiz, Cole Palmer, Liam Delap e Oscar Bobb fazem parte dessa estratégia. Alguns se desenvolveram no próprio Manchester City, enquanto outros encontraram mais espaço longe do clube.
O problema desse modelo é que nem sempre é possível prever quem explodirá no futuro.
Cole Palmer, vendido ao Chelsea por 40 milhões de libras, se transformou em um dos grandes nomes do futebol inglês. Morgan Rogers deixou o City por apenas 8 milhões de libras e, posteriormente, protagonizou uma transferência de 117 milhões de libras para o Chelsea.
São exemplos que mostram o outro lado da estratégia: o Manchester City consegue lucrar muito com jogadores jovens, mas também corre o risco de negociar talentos antes de seu auge.
Savinho sai, mas o ciclo continua
A saída do brasileiro não significa o fim da busca do City Football Group por novos talentos. Pelo contrário. O modelo depende justamente da capacidade de encontrar constantemente o próximo Savinho.
Ryan McAidoo, de 18 anos, é um dos jovens que despertam expectativa no Manchester City. O japonês Shin Miidera, de 16, atua no Yokohama F. Marinos, clube parceiro do grupo, e também é acompanhado de perto.
O americano Cavan Sullivan, atualmente no Philadelphia Union, deve se juntar ao Manchester City quando completar 18 anos. Vitor Reis, que passou a última temporada emprestado ao Girona, também aparece como um jogador com potencial para crescer dentro da estrutura.
É exatamente esse o ponto central do negócio de Savinho. Para o Manchester City e o CFG, a pergunta não é apenas quanto dinheiro o brasileiro renderá. A preocupação é saber quem será o próximo jogador a seguir um caminho semelhante.
A venda de Savinho por uma quantia recorde representa, portanto, um retrato do futebol moderno. Uma rede global identifica o talento, encontra o ambiente ideal para seu desenvolvimento, valoriza o jogador e, quando necessário, transforma esse ativo em uma grande venda.
Resta saber se Savinho será lembrado apenas como um excelente negócio financeiro ou se o Tottenham conseguirá provar que o Manchester City vendeu, por 75 milhões de libras, um jogador que ainda tinha muito mais a oferecer. Para os dois clubes, essa resposta pode definir como essa transferência será vista nos próximos anos.
Foto: David Ramos/Getty Images



