Thomas Tuchel é conhecido atualmente como um dos treinadores mais brilhantes do futebol mundial. Obsessivo por detalhes, apaixonado por tática e dono de uma reputação construída nos bancos de Borussia Dortmund, PSG, Chelsea, Bayern de Munique e agora da seleção inglesa, o alemão parece ter seguido um caminho natural rumo ao topo. Mas a realidade é bem diferente.
Antes de disputar uma Copa do Mundo como treinador da Inglaterra, Tuchel viveu um período que parece ter saído de outro universo. Enquanto a seleção inglesa de Glenn Hoddle iniciava sua campanha na Copa de 1998, na França, o futuro comandante dos Três Leões trabalhava em um bar de Stuttgart, servindo bebidas, recolhendo copos vazios e frequentando festas ligadas à crescente cena hip-hop alemã.
Hoje, olhando para sua carreira, é difícil imaginar que um dos técnicos mais respeitados do planeta esteve tão perto de abandonar completamente o futebol. E talvez seja justamente essa parte da história que ajuda a explicar quem Thomas Tuchel se tornou.
O fim precoce de um sonho e o início de uma nova vida
Muito antes de analisar adversários com precisão cirúrgica, Tuchel sonhava em ser jogador profissional.
O defensor atuou sob o comando de Ralf Rangnick no SSV Ulm, clube que disputava as divisões inferiores do futebol alemão. Na época, Rangnick já era visto como um treinador à frente do seu tempo, introduzindo conceitos modernos de marcação por zona e organização tática que mais tarde influenciariam toda uma geração de técnicos alemães.
Tuchel era um dos jogadores mais interessados nas ideias do treinador.
Enquanto muitos colegas apenas executavam as instruções, ele queria entender os motivos por trás de cada decisão. Rangnick percebeu isso rapidamente. Anos depois, o atual treinador da Áustria revelou que enxergava em Tuchel características típicas de um futuro técnico. Mas o destino parecia ter outros planos.
Uma grave lesão na cartilagem dos joelhos começou a comprometer sua carreira. As dores se tornaram tão intensas que atividades simples do cotidiano, como subir escadas, passaram a ser um desafio.
Aos 23 anos, depois de uma cirurgia que não produziu o resultado esperado, ele foi obrigado a encerrar a carreira. O sonho da Bundesliga acabou ali. E junto com ele vieram os problemas financeiros. Sem conseguir viver do futebol, Tuchel precisou recomeçar praticamente do zero.
O período mais improvável da vida de Tuchel
Foi então que ele se mudou para Stuttgart para estudar Administração de Empresas. Paralelamente, encontrou trabalho em um local que acabaria marcando profundamente sua trajetória. O famoso Radio Bar.
Instalado dentro do histórico prédio Radio Barth, o espaço se transformou em um dos principais pontos culturais da cidade durante os anos finais da década de 1990.
Ali aconteciam festas, eventos culturais e encontros de artistas que ajudavam a construir a cena hip-hop alemã. E era justamente nesse ambiente que Tuchel passava suas noites.
Primeiro recolhendo copos. Depois servindo mesas. Mais tarde preparando drinks. O próprio treinador brincou anos depois ao lembrar daquela época.
Segundo ele, os primeiros drinques que preparou provavelmente não seriam aprovados por nenhum cliente exigente. Mas o trabalho foi muito mais importante do que simplesmente pagar contas.
Foi naquele ambiente que Tuchel recuperou algo que havia perdido quando precisou abandonar o futebol: confiança.
Sem a identidade de atleta profissional, ele precisou aprender a se relacionar com pessoas que não faziam ideia de quem ele era. E isso teve um impacto enorme em sua formação pessoal.
As amizades que surgiram longe dos gramados
O Radio Bar não era frequentado por qualquer público. O local reunia músicos, artistas e figuras importantes da cultura jovem alemã. Entre eles estava Max Herre, que posteriormente se tornaria um dos rappers mais populares do país. A amizade entre os dois nasceu naquele período.
Segundo Herre, Tuchel passou a fazer parte de seu grupo de amigos e frequentemente comparecia aos seus shows. Em uma ocasião, inclusive, viajou até Viena apenas para assistir uma apresentação. É uma imagem curiosa.
Hoje vemos Tuchel analisando partidas da Liga dos Campeões, discutindo posicionamentos defensivos e estratégias de pressão alta.
Naquela época, porém, ele estava cercado por artistas, música e uma vida completamente diferente da que o aguardava.
O telefonema que mudou tudo
A virada aconteceu graças a uma ligação.
Ralf Rangnick descobriu que seu ex-jogador estava trabalhando no bar e ficou surpreso. Mais do que isso. Achou um desperdício. Sem pensar duas vezes, ligou para Tuchel e ofereceu uma oportunidade para trabalhar nas categorias de base do Stuttgart.
Inicialmente, a proposta não despertou grande entusiasmo. Mas um episódio mudou sua perspectiva. Durante um turno no bar, Tuchel recebeu a notícia de que o Ulm, seu antigo clube, havia conquistado o acesso à Bundesliga.
Aquilo o atingiu profundamente. Ele percebeu que o sonho que havia perdido ainda continuava vivo dentro dele, mesmo que agora de outra forma. Pouco tempo depois, aceitou a proposta de Rangnick. Foi uma decisão que mudaria sua vida para sempre.
O homem que enxergava o jogo antes de todo mundo
Nas categorias de base do Stuttgart, Tuchel rapidamente chamou atenção.
Primeiro trabalhando com equipes sub-15 e depois ao lado do lendário Hans-Martin Kleitsch, ele começou a construir a reputação que o acompanha até hoje.
Kleitsch chegou a apelidá-lo de “o homem com visão de raio-X”.
O motivo era simples. Tuchel possuía uma capacidade quase assustadora de analisar adversários. Seus relatórios eram detalhados, seus planos de jogo funcionavam e suas soluções táticas frequentemente surpreendiam até treinadores mais experientes.
Não demorou para que o futebol percebesse que havia surgido um talento raro fora das quatro linhas. Décadas depois, aquele jovem que servia bebidas em festas lotadas se transformou em campeão da Liga dos Campeões com o Chelsea, multicampeão nacional e um dos treinadores mais respeitados do planeta.
Agora, Thomas Tuchel encara talvez o maior desafio de sua carreira: devolver a Copa do Mundo à Inglaterra. Uma missão gigantesca. Mas para alguém que já precisou trocar os gramados por um balcão de bar antes de reconstruir toda a própria vida, talvez poucos desafios pareçam realmente impossíveis.
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